Introdução
Tanto Cristo quanto os apóstolos dedicaram grande parte de seu tempo a advertir contra falsos mestres. Para alguns exemplos, veja Mateus 23:1-36; 24:24-25; Atos 20:29-31; 1 Timóteo 6:3-5; 2 Timóteo 3:1-9; 2 Timóteo 4:3-4; 2 Pedro 2:1-3; 1 João 2:19-20 e 1 João 4:1-2.
Deus ordenou que assim fosse (Judas 1:4). O apóstolo Paulo nos apresenta uma das razões: “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós” (1 Coríntios 11:19). “Heresia” é uma palavra de origem grega que significa “divisão”. Erros que destroem a alma causam divisões, mas práticas antibíblicas também o fazem. Em Corinto, a administração desordenada da Ceia do Senhor resultou em divisão. Portanto, todos os falsos mestres causam divisão. Aqueles que os identificam e lhes resistem demonstram ser aprovados, isto é, crentes genuínos.
Sem dúvida, podemos dedicar tempo excessivo à refutação do erro, em detrimento da meditação, da oração e de uma vida de amor. Alguns pregadores podem até denunciar fielmente o erro e, ainda assim, perder a própria alma. Com demasiada frequência, porém, as pessoas caem na armadilha de pensar que a melhor pregação consiste principalmente em declarar a verdade e raramente condenar o erro.
W. S. Plumer, em sua obra sobre falsos mestres, relata uma história sobre John Newton. O sr. Newton era um ministro piedoso, mas tinha uma fraqueza: acreditava ser desnecessário advertir seu povo contra falsos mestres. “O melhor método de derrotar a heresia”, dizia ele, “é estabelecer a verdade. Alguém se propõe a encher um cesto de joio; ora, se eu puder enchê-lo de trigo, frustrarei sua tentativa”.
Plumer comenta: “Certamente a verdade deve ser amplamente exposta. Mas isso não é suficiente. A mente não é como um cesto. Ela pode aprender muita verdade e ainda assim seguir a loucura. O efeito da prática do sr. Newton foi lamentável. Mal havia ele falecido, e muitos de seu povo se desviaram grandemente”.
É por essa razão que mais um artigo precisa ser publicado sobre os males do papado.
O anticristo e o homem do pecado aplicam-se ambos ao papado
Um artigo anterior demonstrou que o termo “Anticristo” se aplica, em última instância, a todo papa. Este texto mostrará que os títulos “Homem do Pecado” e “Filho da Perdição” também se aplicam a ele.
1. Tanto o Anticristo quanto o Homem do Pecado foram precedidos por males já em operação no tempo dos Apóstolos.
João afirma que, em seus dias, já havia muitos anticristos. Esses anticristos acabariam por resultar na manifestação do Anticristo final (1 João 2:18). De modo semelhante, Paulo declara que o “mistério da iniquidade” já operava em sua própria época. Esse mistério seria detido por algum tempo, mas, por fim, se manifestaria no momem do pecado.
2. Tanto o Anticristo quanto o Homem do Pecado surgiriam dentro da Igreja.
João diz que muitos anticristos – bem como o Anticristo que havia de vir – “saíram de nós” (1 João 2:18-19). Ou seja, os anticristos de seu tempo se apartaram das igrejas fiéis fundadas pelos apóstolos. O anticristo também surgiria no seio da Igreja visível, ou ao menos se apresentaria como cristão.
Da mesma forma, Paulo afirma que o homem do pecado se assentaria “no templo de Deus”. Como é comum na profecia, Paulo emprega símbolos do Antigo Testamento para descrever o futuro. No Antigo Testamento, o templo de Deus em Sião era o lugar especial de Sua habitação (2 Crônicas 6:41; 7:1). Por isso, tanto a Igreja quanto o povo de Deus são chamados de Seu templo (Efésios 2:19-22; 2 Coríntios 6:16). Logo, o homem do pecado surgirá dentro da Igreja visível e reivindicará para si o nome de cristão.
O homem do pecado e o filho da perdição aplicam-se somente ao Papa
Em 2 Tessalonicenses 2:1-2, o apóstolo Paulo instrui os tessalonicenses a não pensarem que Cristo estava prestes a retornar fisicamente para julgar o mundo. Dois eventos deveriam ocorrer antes de Sua segunda vinda. Primeiro, haveria uma apostasia quase universal; em segundo lugar, o homem do pecado seria manifestado (2 Tessalonicenses 2:3). Paulo então apresenta uma descrição detalhada desse grande inimigo de Cristo (2 Tessalonicenses 2:3-12). Seu surgimento e suas características são os seguintes:
1. Era necessário que viesse “a apostasia primeiro” (2 Tessalonicenses 2:3). O texto grego diz literalmente “a apostasia”. Ou seja, uma apostasia ampla e generalizada em toda a Igreja ocorreria antes que o homem do pecado fosse revelado.
2. O “homem do pecado” não seria um único indivíduo, mas uma sucessão de homens. Para comparação, considere o título “homem de Deus”. Esse título não se aplicava apenas a Timóteo, mas a todos os profetas e ministros fiéis (1 Timóteo 6:11; 2 Timóteo 3:16-17). Além disso, Paulo descreve um processo muito longo – extenso demais para se cumprir na vida de um único homem. O desenvolvimento gradual do mistério da iniquidade, o impressionante poder que o homem do pecado adquiriria como seu cabeça – seguido por seu declínio progressivo e destruição final – exigiria muitas gerações.
3. Ele também é chamado de “filho da perdição”. A única outra pessoa a receber esse título foi Judas, que traiu Cristo (João 17:12). Portanto, o homem do pecado se assemelharia a Judas nos seguintes aspectos:
- Surgiria dentro da Igreja visível;
- Professaria ser seguidor de Cristo;
- Reivindicaria ocupar um alto ofício na Igreja;
- Alegaria, de fato, possuir autoridade semelhante à apostólica;
- Fingiria grande reverência e afeição por Cristo, como Judas fez (Mateus 26:49);
- Por fim, trairia Cristo, entregando os membros de Seu corpo místico às autoridades civis para serem mortos (cf. Atos 9:4);
- Sofreria o mesmo destino de Judas, “indo para o seu próprio lugar” na perdição eterna (Atos 1:25).
4. Novamente, ele se manifestaria no templo de Deus, isto é, na Igreja visível. Não seria um pagão ou ateu, fora da Igreja visível. Antes, reivindicaria ser cristão dentro da Igreja de Cristo.
5. Ele se oporia e se exaltaria “sobre tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto”. Isto é, reivindicaria estar acima de todos os magistrados, que são chamados “deuses” no Salmo 82. Na prática, agiria como se estivesse acima do próprio Deus, ao afirmar que pode acrescentar às Escrituras e interpretá-las de modo infalível.
6. Ele se assentaria no templo de Deus. Em outras palavras, reivindicaria governar a Igreja, assim como um rei se assenta em seu trono ao governar um reino.
7. Ele, de fato, reivindicaria ser “Deus”. Ou seja, alegaria realizar atos que somente Deus pode fazer, como perdoar pecados.
8. Ele seria, portanto, o governante de um “mistério da iniquidade”. Na Escritura, um mistério é algo oculto até que Deus se agrade em revelá-lo. O mistério da piedade – “Deus manifestado em carne…” – foi uma maravilhosa e inédita manifestação da graça e da glória de Deus neste mundo. Assim, o mistério da iniquidade seria uma manifestação igualmente inédita do mal – a revelação de um sistema de iniquidade, liderado pelo homem do pecado.
9. Ele não seria revelado até que algo que o “detém” fosse removido. Ou seja, algo estava impedindo o surgimento do homem do pecado nos dias de Paulo. Tanto os reformadores quanto os Pais da Igreja primitiva concordavam que o Império Romano retardava a manifestação do Anticristo. Por exemplo, Tertuliano (c. 155-220 d.C.) escreveu: “Que permaneça firme aquele que agora governa, até que seja tirado do caminho, o qual só pode ser o Estado Romano, cuja fragmentação e divisão entre dez reis produzirá o Anticristo; então o ímpio será revelado”.
10. Ele alcançaria uma posição de grande poder principalmente por meio do engano, e não pela força bruta: “a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira” (2 Tessalonicenses 2:9).
O homem do pecado e o sistema de iniquidade serão destruídos
O apóstolo inspirado prossegue anunciando a destruição do homem do pecado, juntamente com o sistema de iniquidade que ele governa. O Senhor Jesus, diz Paulo, “o sopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda” (2 Tessalonicenses 2:8).
A destruição predita parece ocorrer em duas fases: (1) um consumo gradual de todo o sistema, por meio da pregação fiel da Palavra (“o sopro da sua boca”); [1] (2) seguido de uma destruição completa e definitiva.
A destruição do papado também implicaria a ruína da Igreja Católica Romana. Um de seus dogmas fundamentais afirma que o papa seria a rocha sobre a qual Cristo edificaria Sua Igreja. O atual Catecismo da Igreja Católica declara: “O Papa… é o princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade, tanto dos bispos quanto de toda a comunidade dos fiéis”. Portanto, se o papado desaparece, a Igreja se desintegra.
Interpretações católico-romanas do homem do pecado
1. Preterismo
Houve um tempo em que os protestantes concordavam unanimemente que o papa era tanto o Anticristo quanto o Homem do Pecado. Diante disso, escritores católico-romanos desenvolveram suas próprias interpretações. Luis de Alcázar (1554-1613) sustentou que a maioria das profecias do Novo Testamento se cumpriu até o ano 70 d.C., quando o templo judaico foi destruído (posição hoje conhecida como preterismo). Ele argumentava que, como Paulo menciona “o templo de Deus”, o homem do pecado necessariamente teria surgido antes de 70 d.C. O imperador Nero, um sanguinário perseguidor da Igreja primitiva, governou o Império Romano a partir de 54 d.C. Como muitos imperadores, Nero exigia ser tratado como um deus. Assim, de Alcázar concluiu que Nero teria sido o homem do pecado.
Entretanto, Nero jamais se assentou “no templo de Deus”, nem literal nem figuradamente. Isto é, ele nunca abraçou a fé judaica ou cristã, permanecendo um pagão ímpio até o fim de sua vida. Além disso, durante o reinado de Nero, o templo judaico já não era mais “o templo de Deus”. Antes de Sua morte, Cristo disse aos judeus: “Eis que a vossa casa vos ficará deserta” (Mateus 23:37).
Lamentavelmente, alguns ministros reformados em nossos dias têm adotado esse erro e, consequentemente, rejeitam o ensino da Confissão de Fé de Westminster acerca do papado.
2. Futurismo
Outro erudito católico-romano, Francisco Ribera (1537-1591), promoveu a ideia de que a maior parte das profecias do Novo Testamento ainda não se cumpriu. Assim, o Anticristo e o Homem do Pecado ainda não teriam surgido. Uma forma de futurismo ensina que o templo será reconstruído e que um ditador mundial ateu surgirá para esmagar a Igreja, reivindicando para si o lugar de Deus.
Essa interpretação incorre novamente no erro de tomar literalmente símbolos proféticos. Ainda que um templo viesse a ser reconstruído, não seria o templo de Deus. O templo do Antigo Testamento apontava para Cristo, e, quando Cristo se fez homem, morreu e ressuscitou, o templo deixou de ser necessário.
De forma trágica, grande parte do protestantismo tem abraçado o futurismo. Consideram que o secularismo, o ateísmo e o comunismo constituem os maiores perigos para a Igreja. Por isso, buscam alianças com o papa na esperança de derrotar essas forças malignas.
Lições Práticas
Toda a Escritura é proveitosa (2 Timóteo 3:16), incluindo o que ela ensina sobre o anticristo e o homem do pecado. Por exemplo:
1. Os não convertidos aprendem quanto devem temer o romanismo e evitar todas as igrejas que adotam quaisquer de suas doutrinas e formas de culto. Compreender que o papa é o anticristo não os salvará, evidentemente. Contudo, isso pode servir como um meio de impedi-los de cair no engano do papismo.
John Henry Newman (1801-1890) cresceu na Igreja da Inglaterra, tornou-se sacerdote anglicano e, em 1845, converteu-se à Igreja Católica Romana. Mais tarde, escreveu que uma das principais razões pelas quais demorou a fazer essa transição foi o ensino de que o papa é o Anticristo. Infelizmente, J. D. Vance não recebeu tal ensino na igreja de sua juventude. Ao se preocupar com sua alma na vida adulta, acabou ingressando na Igreja Católica Romana.
2. Igrejas e governos devem evitar toda aliança com a Igreja de Roma. Todos os que se unem a ela participarão de sua destruição certa. “ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas” (Apocalipse 18:4).
3. Todos devem desconfiar de qualquer organização protestante que busque auxílio de Roma em diversas causas. Em uma era de secularismo generalizado, os protestantes são tentados a recorrer ao apoio de católicos romanos politicamente influentes. Contudo, devem lembrar o grave erro de Josafá ao unir-se a Acabe para guerrear contra os sírios (2 Crônicas 18). Ele poderia ter justificado sua decisão pensando que o povo do Senhor estava em Israel e que ambos lutavam contra um inimigo comum. Porém, ao retornar da batalha, tendo escapado por pouco com vida, ouviu: “Devias tu ajudar ao ímpio, e amar aqueles que odeiam ao Senhor? Por isso virá sobre ti grande ira da parte do Senhor” (2 Crônicas 19:2).
4. Todos devem buscar nada menos que união com Cristo para serem preservados do romanismo – “a obra-prima de Satanás”. O segredo do poder de Roma, apesar de seus escândalos e idolatria, é que ela constitui uma falsa forma de cristianismo que promete o céu enquanto permite o desfrute dos prazeres do pecado.
5. Os cristãos devem orar continuamente pela destruição do papado, movidos por compaixão pelas almas preciosas. Milhões permanecem cativos de seus enganos. Muitos judeus e muçulmanos têm preconceito contra o evangelho porque sua percepção do cristianismo é moldada pelo papa e pela igreja que ele governa.
Nota
[1] A tradução Almeida Corrigida Fiel (ACF) traz: “Espírito da sua boca”, entendendo corretamente que a palavra grega para “sopro” (pneuma) se refere ao Espírito Santo. (Nota do tradutor).
Fonte
The Pope is the Man of Sin and Son of Perdition ©️ 2025, Free Presbyterian Church of Scotland. Todos os direitos reservados. Tradução: Samuel Sousa Gomes. Maio de 2026.

O Papa é o homem do pecado e o filho da perdição está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0, © 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário