O argumento bíblico de que o Papa é o Anticristo

Introdução

Um artigo anterior observou que, em certo tempo, todos os protestantes concordavam que o papa era o Anticristo. Hoje, porém, é raro encontrar uma igreja protestante que sustente essa crença. Algumas igrejas reformadas ensinam que ele é um anticristo. Outras argumentam que um determinado papa pode ser um anticristo, mas que outros papas “melhores” não o seriam. A maioria, entretanto, nega que o papado seja o Anticristo supremo, conforme ensina a Confissão de Fé de Westminster.[1]

Alguns autores afirmam que as perseguições promovidas pelo catolicismo romano levaram os protestantes a concluir precipitadamente que o papa era o Anticristo. Eles perguntam: “Como o papa pode ser o Anticristo, se a Escritura ensina que há muitos anticristos?”. Outros objetam de forma ainda mais enfática: “O papa não pode ser o Anticristo, pois ele crê na verdadeira humanidade de Cristo, e o apóstolo João afirma que os anticristos negam isso”.

O que se segue apresenta uma explicação básica dos versículos sobre o Anticristo na primeira epístola de João. Veja também este artigo sobre o ensino de Paulo a respeito do homem do pecado e do filho da perdição em 2 Tessalonicenses 2. Quando ambas as passagens são corretamente compreendidas, veremos que elas se cumprem plenamente no papado.

Sem dúvida, o esboço abaixo poderia ser aprimorado. Leitores que desejam uma compreensão mais aprofundada dessas passagens devem estudar a Sétima Disputa de Francis Turretin, “Se pode ser provado que o papa é o Anticristo”, bem como o livro de Patrick Fairbairn sobre profecia.

O que “anticristo” significa nas epístolas de João

1 João 2:18-19: “Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo grego: o anticristo) há de vir (grego: está vindo), também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora. Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós”.

Esta passagem ensina o seguinte:

  • Existem dois tipos de anticristos: (1) os “muitos anticristos” que já existiam no tempo de João, e (2) O Anticristo que ainda estava por vir. Um anticristo específico, definido e supremo – muito mais poderoso do que todos os anticristos em atuação na época de João – ainda surgiria.
  • Esse anticristo “está vindo”. Ele ainda não havia chegado, mas estava a caminho. O anticristo estava em desenvolvimento, mas não se manifestaria plenamente senão algum tempo depois de João ter escrito essas palavras.
    • Nota: segundo Donald Guthrie, a maioria dos estudiosos data as epístolas de João após o ano 90 d.C.
    • Portanto, por volta de 90 d.C., o anticristo supremo ainda não havia surgido.
  • Os anticristos surgem dentro da Igreja e depois apostatam: “Eles saíram de nós” – isto é, “da igreja que nós, apóstolos, fundamos instrumentalmente”. A Igreja é edificada sobre os escritos inspirados dos apóstolos e profetas (Ef 2:20). Segundo o apóstolo João, algumas pessoas na Igreja ouvem os escritos inspirados desses apóstolos, mas depois se afastam deles, tornando-se anticristos nesse processo.
  • Portanto, os anticristos não são inimigos que atacam a Igreja de fora, mas inimigos que surgem de dentro.
  • “Anticristo” significa literalmente aquele que toma o lugar de Cristo; alguém que entra no domínio dele e finge agir em seu nome.
    • A preposição “anti” aparece em Marcos 10:45: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por (anti) muitos”. Em outras palavras, Cristo veio para dar a sua vida no lugar de muitos.
    • O anticristo, portanto, não é um pagão nem um ateu, mas alguém que afirma ser cristão e se opõe a Cristo ao tomar o seu lugar.
  • Os “anticristos” usurpam a autoridade de Cristo. Eles ensinam doutrinas que colocam Cristo fora do lugar que lhe é devido. Eles ou assumem um papel que pertence exclusivamente a Cristo, ou ensinam uma doutrina que afirmam ser cristã, quando, na verdade, ela mina e se opõe a Cristo.
  • Os anticristos se recusam a confessar que Cristo veio em carne (1 João 4:3) para ser a propiciação pelos pecados (1 João 2:2).

Como “o anticristo” se aplica, em última instância, ao papa

João afirma que os anticristos negam a humanidade de Cristo. Isso significa que o papa não é um anticristo, já que ele crê que o Filho de Deus se fez homem? Não. As pessoas podem negar que Cristo veio em carne de maneiras sutis.

Pergunte a si mesmo: por que Cristo veio em carne? Por que ele se encarnou? A resposta é: para que pudesse oferecer a si mesmo como sacrifício pelos pecados, satisfazendo plenamente a justiça de Deus e assegurando perdão e “redenção eterna” a todos os que confiam nele. Se a obediência de Cristo à lei e sua morte expiatória, na natureza humana, satisfizeram completamente a justiça de Deus, então o pecador crente não faz nada para satisfazer essa justiça.

Mas é precisamente isso que a Igreja Católica Romana, segundo esse argumento, nega de forma persistente. “Sim, o Filho de Deus se fez homem e morreu para aplacar a ira de Deus”, diz o papa. “Mas você ainda precisa fazer algo para satisfazer completamente a ira de Deus contra o seu pecado. Você deve unir-se à Igreja Católica, confessar seus pecados ao sacerdote, fazer penitência e assistir à missa. Por fim, deve suportar os tormentos do purgatório antes que seus pecados possam ser plena e eternamente perdoados”. O que o papa está essencialmente dizendo? “Cristo não veio em carne para satisfazer plenamente a justiça de Deus!”.

Conclusão

Visto que o papa (e o ensino romanista em geral) nega que Cristo tenha vindo em carne no sentido pretendido por João, ele é anticristo. Ele afirma crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus que veio em carne, mas rejeita o verdadeiro significado dessa afirmação. Assim, ele “nega” (rejeita) o Filho. E, visto que o Filho é a expressão exata do Pai, o papa nega também o Pai (Hb 1:3; 1 Jo 2:22). A negação, por parte do papa, do propósito de Cristo ao tornar-se homem é tão sutil e tão persuasiva que ele é corretamente chamado de “O anticristo”.


Nota

[1] N. T.: “Não há outra cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo (Cl 1:18; Ef 1:22); nem pode o Papa de Roma, em nenhum sentido, ser a cabeça dela, mas ele é aquele Anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e tudo o que se chama Deus (Mt 23:8- 10; 2Ts 2:3-4,8-9; Ap 13:6)” (O Padrão de Westminster [1647]. Araçoiaba da Serra, SP: Publicações O Pacto, 2024, p. 78).


Fonte

The Biblical argument that the Pope is the Antichrist ©️ 2025, Free Presbyterian Church of Scotland. Todos os direitos reservados. Tradução: Samuel Sousa Gomes. Janeiro de 2026.


O argumento bíblico de que o papa é o anticristo está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0, © 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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