1. Desenvolvimento histórico do termo.
A palavra “teologia” evidentemente não aparece nas Escrituras. O filósofo Platão (427-347 a.C.) usava esta palavra no sentido de histórias de mitos e lendas dos deuses contada pelos poetas. Na Grécia antiga, os poetas foram os primeiros a se intitularem teólogos por comporem versos em honra aos deuses. No final do século II, já na era do Cristianismo,[1] Clemente de Alexandria (c.150-215), contrapôs theologia a mythologia. Ele dizia que a primeira (i.e., teologia) era superior à segunda (i.e., mitologia) devido ao fato de que a teologia está na condição de verdade cristã a respeito de Deus, enquanto que a mitologia era a história dos deuses pagãos. Foi tão somente nos séculos IV e V que a palavra “teologia” foi incluída na linguagem cristã referindo-se à genuína compressão das Escrituras.[2]
2. Significado da palavra teologia.
Agora que temos uma pequena noção do desenvolvimento histórico do termo “teologia”, vamos à análise de seu significado. O termo “teologia” é formado por dois vocábulos gregos,[3] Θεóς (theós), que significa Deus e λóγος (lógos), que significa estudo, tratado, discurso.[4] Podemos chegar a conclusão, levando em conta as palavras gregas com seus significados, de que Teologia significa “estudo de Deus”. Mas não é bem isso que a palavra teologia significa, e nem é este o seu propósito. Deus não pode ser o objeto de estudo de alguma ciência, inclusive da própria teologia. Imagine que alguém tente colocar em uma xícara de café toda a água dos oceanos. É óbvio que toda essa água não caberia numa xícara de café. Nesta analogia, a água do oceano representa a imensidão do Ser de Deus e a xícara é a nossa mente. A mente humana, com suas limitações, nunca conseguirá compreender o Ser de Deus em sua totalidade. Deus é um Ser infinito, e não há condições de comportar Deus dentro da mente finita do ser humano – um ser corrompido pela ação do pecado (Gn 3 [a queda da raça humana] compare com Gn 6.1, 2, 5, 11, 12, 13, 8.21; Rm 3.23, 5.12, 8.6).[5] O texto de Rm 11.33-36 declara a imensidão e a incompreensão de Deus. É claro que caberá um pouco dessa água no fundo da xícara, a mesma quantidade que caberia de café. Essa quantidade de água que caberia dentro dela é o que podemos conhecer de Deus através do que ele mesmo se nos revelou nas Escrituras.
3. Qual é o objetivo da teologia?
Mas, então, se a teologia não estuda Deus, o que ela estuda? Miranda responde que a teologia estuda “as afirmações sobre Deus, as expressões de fé. A teologia estuda e analisa o que se falou ou escreveu sobre Deus” (2011, p. 11, grifo nosso). Portanto, a definição mais adequada de teologia é “estudo das coisas de Deus”. Charles Hogde, um pastor e teólogo presbiteriano, respondeu a questão “o que é teologia?” da seguinte maneira (note que ele coloca a Bíblia como fonte principal da teologia):
Se a ciência natural se preocupa com os fatos e as leis da natureza, a teologia se preocupa com os fatos e os princípios da Bíblia Sagrada. Se o objetivo da ciência natural for o arranjo e a sistematização dos fatos do mundo externo, e a averiguação das leis pelas quais eles são determinados, o objetivo da teologia é sistematizar os fatos da Bíblia e averiguar os princípios ou verdades gerais que aqueles fatos envolvem. (Pfeiffer, Vos, Rea, 2007, p. 1911).
Como podemos perceber na frase de Hogde, a fonte principal de toda a teologia são as Escrituras Sagradas. É a partir da Bíblia que a teologia tira seus referenciais. É a partir da Bíblia que a teologia fala sobre Deus. A verdadeira teologia não adota outro tipo de literatura além da Bíblia, ela se restringe às Escrituras. Falsas teologias adotam outros livros e os colocam no mesmo patamar das Escrituras.
Outra coisa importante a dizer é que, de uma forma ou outra, todos os cristãos são teólogos. Alguns podem não ser teólogos no sentido técnico ou profissional, como outros. A teologia nasce a partir de uma reflexão sobre um determinado texto ou assunto das Escrituras. Portanto, quando alguém abre a Bíblia e se debruça sobre ela com o intuito de estudá-la e aprender algo e faz anotações, o que essa pessoa está fazendo é teologia. Ela está elaborando uma teologia sobre o assunto que está lendo. Pode até ser uma teologia equivocada, mas é teologia.
CONCLUSÃO.
Não há caminhos para fugir da teologia, é inevitável que os cristãos percorram pelos caminhos da teologia. Ela está presente em nossa vida cristã diária. Até na oração ela está presente! É claro que existem teologias boas e más, e devemos estar atentos a elas. Isto não quer dizer que devemos evitar o estudo teológico, ao contrário , isso nos estimula a estudar a boa e velha teologia (me refiro a teologia reformada) para que combatamos a má teologia, a fim de combatermos os falsos ensinos dos falsos mestres.
Creio que a boa e velha teologia reformada pode trazer melhorias e benefícios para a Igreja Evangélica no Brasil. Com isso não quero deixar a impressão de que desprezo outras teologias como a pentecostal. A teologia pentecostal é dominante em nosso país, todavia a teologia reformada traz consigo uma bagagem pesada de conteúdos criados e aperfeiçoados por 500 anos.
A teologia coloca a Bíblia na mão do povo, uma vez que ela instiga o indivíduo a estudá-la. A teologia instiga o desejo de conhecer mais da Bíblia. A teologia reformada, profundamente alinhada à adoração, produz no crente o desejo não só de ler e conhecer a Bíblia, mas também de conhecer mais intimamente seu autor através da oração. Ao contrário do que muitos imaginam, a teologia não esta separada da oração, na verdade uma coisa está imbricada à outra. Não se produz teologia sem oração, e nem oração sem teologia.
Aproveite e ore a Deus agradecendo-o pela oportunidade de estudar sua santa Palavra. Houve um tempo em que os cristãos não tinham acesso às Escrituras. Somente os sacerdotes católicos tinham acesso a esse maravilhoso livro. Demorou muito tempo para que as pessoas pudessem ter uma Bíblia em suas mãos para ler onde e quando quiser. Agradeça a Deus pela oportunidade, direito e privilégio de ter uma Bíblia em sua língua e de fácil acesso.
[1] O período que compreende os séculos II ao IV é chamado de Período Patrístico. Neste período Deus levantou homens que se dedicaram aos estudos das Escrituras para formular a Teologia cristã e para defender o cristianismo ortodoxo das seitas e heresias que surgiam rapidamente. Do século II até meados do século III, houve intensas perseguições à Igreja Cristã nascente. Vários de nossos primeiros irmãos foram mortos de diversas maneiras e torturados de vários modos. Para uma compreensão maior desse período, indicamos o livro Conhecendo os pais da igreja: uma introdução evangélica (Vida Nova, 2015), escrito por Bryan M. Litfin, um especialista em patrística.
[3] Mitchel, Pinto, Mitzger, 2002, p. 84, 87; Gingrich, Danker, 2012, p. 97, 127.
[4] A palavra lógos é polissêmica. Ela pode significar também palavra. Em Jo 1.1, o vocábulo grego traduzido como “Verbo” é esta mesma palavra grega (λóγος [logos]).
[5] A doutrina bíblica a respeito da condição humana diante de Deus após a queda nos mostra que o ser humano é um ser corrompido pelo pecado desde sua meninice (Gn 8.21), e que toda a raça humana é pecadora (Rm 5.12). As referências bíblicas supracitadas nos provam que o homem é inclinado para o mal, e que, portanto, ele não é livre para escolher entre fazer o bem ou o mal, pois seu coração é inclinado para pensamentos maus. O texto de Rm 3.10-18 nos revela a real condição humana de pecado e miséria diante de Deus. Leia Sl 14.1-3; 53.1-3; Ec 7.20.
BIBLIOGRAFIA.
1. Teologia e dicionário bíblico.
MAIA, Herminsten. (2007) Fundamentos da teologia reformada. Coleção teologia brasileira. São Paulo: Mundo Cristão.
MIRANDA, Valtair A. (2011) Fundamentos da teologia bíblica. Coleção teologia brasileira. São Paulo: Mundo Cristão.
PFEIFFER, Charles F; VOS, Howard F; REA, John. (2007) Dicionário bíblico Wycliffe. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD.
2. Símbolos de fé.
O Breve Catecismo de Westminster. (2002). São Paulo: Cultura Cristã.
3. Edições do Novo Testamento em grego.
ROBINSON, Maurice A; PIERPONT, William G. (2005) The New Testament in the original Greek: Byzantine textform. Southborough, MA: Chilton Book Publishing.
SAYÃO, L. A. T. (ed.) (1998) Novo Testamento trilíngue: Grego, Português e Inglês. São Paulo: Vida.
4. Dicionários de Grego Bíblico.
GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. (2012) Léxico do Novo Testamento grego – português. São Paulo: Vida Nova.
MITCHEL, Larry A.; PINTO, Carlos O. C; METZGER, Bruce M. (2002) Pequeno Dicionário de Línguas Bíblicas: Hebraico e Grego. São Paulo: Vida Nova.
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. (1995) Chave Linguística do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
SOUTER, Alexander (1917) A pocket lexicon Greek New Testament. Oxford: Clarendon Press.
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Muito bom estudar a teologia e saber que o significado vai muito mais além do que a letra diz. Pois Deus so pode ser compriendido através das suas escrituras reveladas.
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Muito bom este artigo!
Parabéns pela brilhante análise!
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Partor Osni,
Muito obrigado pelo comentário. Ficamos felizes pelo feedbcak positivo.
Abs.
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