Por John Brown de Haddington.
Nenhuma parte do culto cristão é mais claramente autorizada pelos oráculos de Deus do que a ordenança do cântico dos Salmos. Os antigos hebreus a praticaram junto ao Mar Vermelho, antes mesmo que seu sistema de culto cerimonial lhes fosse prescrito por Deus (Êx 15). Ela foi considerada superior aos mais pomposos sacrifícios, mesmo enquanto as observâncias cerimoniais permaneciam em pleno vigor (Sl 69:30-31). A obrigação divina quanto a essa prática continuou em plena vigência quando a lei cerimonial, com todos os seus ritos, foi abolida (Sl 47:1-7; 67:4; 100:1-4; Ef 5:19; Cl 3:16; Tg 5:13). Temos sua confirmação no mais cativante exemplo dos anjos que conservaram seu primeiro estado (Jó 38:6-8; Lc 2:13-14; Ap 5:11-12), bem como dos apóstolos e santos (At 16:25; 1Co 14:15 etc.); e até mesmo do próprio Redentor (Mt 26:30). Esse exercício, realizado de maneira condizente com a dignidade do estado glorificado, será a ocupação eterna dos anjos confirmados e dos homens redimidos (Is 26:19; 51:11; Ap 5:9-13).
Tampouco esse exercício é de pouca utilidade. Tendo como tema toda a glória de Jeová, tal como é revelada às criaturas, bem como todas as maravilhas de seu poder criador, de seu amor redentor e de seu cuidado providencial, ele constitui um excelente meio de transmitir instrução santa (Cl 3:16); de inspirar afeições celestiais (Sl 57:7-8); de recrear as almas piedosas (Tg 5:13); e, in fine, de sustentar e consolar em meio à aflição e ao sofrimento (At 16:25; Sl 119:54). Por isso, ele é oportuno não apenas neste vale de lágrimas, mas até mesmo nas condições mais angustiosas (Sl 101:1; Hc 3:17-18).
Esse é um dever que deve ser praticado por cada pessoa em secreto, individualmente (Tg 5:13; Sl 119:62-164), por toda família e sociedade cristã (Sl 118:15; At 16:25), bem como em toda assembleia e congregação de culto público (Is 35:1-10; 52:7-9; Ap 5:9-10; 14:3; 15:3 etc.).
Sendo esse dever de tão grande importância, devemos cumpri-lo sob a influência especial do Espírito Santo (1Co 14:15; Jo 4:24); com entendimento acerca da legitimidade, da matéria, da maneira e do propósito de nosso louvor (Sl 47:6-7; 1Co 14:15); com santo ardor de afeição e vigor de espírito (Sl 57:10; 103:1-2); com graça no coração, entoando nele melodia ao Senhor (Ef 5:19; Cl 3:16); em nome de Cristo, como Mediador entre Deus e nós (Cl 3:16-17; 1Pe 2:5); e com sincero propósito de glorificar a Deus (Cl 3:16; 1Pe 4:11). A matéria deve ser prudentemente ajustada às nossas ocasiões e circunstâncias (Sl 112:5; Ef 5:15); tampouco se deve negligenciar a melodia ou, no culto público, a harmonia das vozes (Sl 101).
Sem dúvida, alguém pode compor hinos espirituais para sua própria recreação religiosa e a de outros; contudo, admitir composições humanas no culto público e estabelecido de Deus parece-me extremamente impróprio.
(1) É algo extremamente perigoso. Heresias e erros, por este meio podem, e muitas vezes, têm sido introduzidos de forma muito imperceptível em igrejas, congregações ou famílias.
(2) Não há necessidade disso. O Espírito Santo, nos Salmos de Davi e em outros cânticos das Escrituras, nos proveu uma coleção tão rica de doutrinas do evangelho e preciosas promessas; um vasto tesouro de experiências sólidas; uma mina inesgotável da graça e da verdade do evangelho; uma variedade infinita adequada a toda condição ou estado em que nossa alma ou a igreja de Cristo possa se encontrar nesta terra. Esses cânticos foram moldados por Aquele que esquadrinha os corações e conhece as profundezas de Deus; e, por isso, devem ser mais apropriados à condição das almas e das comunidades do que qualquer composição privada.
(3) Embora o Espírito Santo nunca tenha julgado conveniente deixar-nos uma liturgia de orações, todavia, pela própria composição poética delas, é claro que Ele pretendeu que esses Salmos e cânticos servissem como uma forma permanente de louvor na igreja. É certo que eles foram usados dessa maneira no Antigo Testamento. E o Espírito Santo, no Novo, claramente nos dirige ao seu uso (Cl 3:16; Ef 5:19). Os “salmos, hinos e cânticos espirituais” ali recomendados são evidentemente os mesmos Mizmorim, Tehillim e Shirim mencionados nos títulos hebraicos dos Salmos de Davi (Sl 3, 4, 5, 145 e 120-134).
Tem-se alegado que a linguagem e o estilo desses Salmos não são adequados à natureza espiritual de nosso culto evangélico. Contudo, o mesmo argumento poderia ser usado contra sua leitura tanto quanto contra seu cântico; mais ainda, contra a leitura de grande parte do Antigo Testamento em nosso culto cristão. É certo que muitas passagens do Livro dos Salmos e de outros cânticos bíblicos expressam exercícios de fé, arrependimento, amor e graças semelhantes, os quais permanecem da mesma natureza hoje como no Antigo Testamento. As profecias ou já se cumpriram e, portanto, podem ser cantadas em honra da misericórdia e fidelidade de Deus; ou, se ainda não se cumpriram, podem ser cantadas na esperança de que Deus as cumprirá a seu tempo. A história do que Deus fez por seus servos judeus e por sua igreja pode ser cantada com admiração por seu amor, sabedoria, poder e graça ali manifestados. Deve-se ainda considerar que muito do que se relacionava a Davi ou à igreja judaica era típico do caráter e dos interesses de Jesus Cristo e da igreja do evangelho, e, assim, deve ser cantado com especial aplicação a eles.
Quanto aos Salmos que contêm denúncias da vingança divina contra os inimigos de Deus e de sua igreja, devemos considerar que essas expressões foram ditadas pelo Espírito infalível de Deus; que seus objetos foram previstos como inimigos irreconciliáveis de Cristo e de sua igreja; que aqueles que os cantam apenas aprovam a justiça da sentença que Deus justamente pronunciou contra tais ofensores; e que eles devem ser cantados com plena convicção do evento, como uma manifestação certa, terrível e justa da glória e da tremenda justiça de Jeová. Portanto, embora jamais devamos aplicá-los a partidos ou pessoas específicas que nos tenham ofendido, recusar-se a usá-los sob o pretexto de caridade é supor-nos mais sábios do que Aquele cujo entendimento é infinito, e mais misericordiosos do que o Pai das misericórdias, que é cheio de compaixão e tem prazer na misericórdia. Além disso, como esses inimigos externos destinados à destruição eram, em certo sentido, emblemáticos de nossos inimigos espirituais internos e externos, tais passagens podem ser cantadas aplicando-as a nós mesmos, como dirigidas contra esses principados e potestades, e forças espirituais da maldade nas regiões celestiais, com as quais temos de lutar enquanto estamos na terra (Ef 6:10,19; 1Pe 5:8-9; Rm 8:13; Gl 5:17,24).
O Livro dos Salmos é um dos mais amplos e úteis das Sagradas Escrituras, pois em toda parte se mostra adequado à condição dos santos. Ele começa amplamente mesclado com queixas e súplicas, e termina em louvor puro e permanente. É certo que Hemã compôs o Salmo 88, Etã o 89, e Moisés o 90. Quanto aos Salmos atribuídos a Asafe, não podemos determinar se foram em sua maioria escritos por ele, ou apenas designados para serem cantados por ele como mestre da música do templo, assim como outros o foram para Jedutum, para os filhos de Corá ou para outros músicos principais. Alguns, como os Salmos 74, 79, 126 e 137, parecem ter sido compostos após o início do cativeiro babilônico, mas não sabemos por quem. Os demais, incluindo os dois marcados com o nome de Salomão, os Salmos 72 e 127, podem ter sido compostos por Davi, o suave salmista de Israel.
Vinte e cinco dos Salmos não possuem título algum; e não há pleno consenso quanto à autoridade divina dos títulos dos demais. Contudo, quando se considera que esses títulos aparecem em toda parte no original hebraico, e quão frequentemente servem de chave para o entendimento do Salmo, estando às vezes ligados a ele pelos sinais de acentuação, não há motivo real para suspeitar de sua autenticidade. Tampouco os intérpretes concordam quanto ao significado de algumas palavras hebraicas presentes nesses títulos. Pensamos que Maschil sempre significa que o Salmo foi destinado à instrução: Salmos 32, 42, 45, 53, 54, 55, 74, 78, 88 e 89. Michtam denota a natureza preciosa ou áurea do Salmo, como nos Salmos 16, 56 e 60; Al-taschith, que o propósito do Salmo é suplicar contra a destruição: Salmos 57, 58, 59 e 75; Muthlabben, que o Salmo foi composto por ocasião da morte de seu filho ou de Golias, o duelista: Salmo 9; Aijeleth Shahar, que seu tema é Jesus Cristo, a corça da manhã: Salmo 22; Jonath-elem-rechokim, que Davi é ali representado como uma pomba muda entre estrangeiros: Salmo 56. Shoshannim-eduth ou Shusham-eduth pode significar tanto que Cristo e seu povo, que são lírios (ou lírios da congregação ou do testemunho) constituem o tema, como também que o Salmo era cantado com um instrumento de seis cordas: Salmos 45, 60, 69 e 80; assim como Sheminith denota um instrumento de oito cordas: Salmos 6 e 12. Mahalath pode significar enfermidade, e Mahalath Leanoth, enfermidade aflitiva; ou então Mahalath pode indicar um instrumento musical de sopro: Salmos 53 e 88. Neginoth e Neginah designam instrumentos musicais de corda: Salmos 4 e 61 etc.; Nehiloth, instrumentos de sopro: Salmo 5; Gittith, um instrumento musical ou melodia inventada em Gate: Salmos 8, 81 e 84; Alamoth, as virgens, ou um cântico para ser entoado pelas virgens: Salmo 46. Shiggaion ou Shigionoth pode indicar a variedade do tema ou da melodia do Salmo: Salmo 7. O Salmo 120 e os catorze seguintes são chamados “Cânticos dos Degraus”, talvez porque fossem cantados nos diferentes degraus das escadas do templo, ou em determinadas paradas feitas por Davi e pelos israelitas quando trouxeram a arca de Deus de Quiriate-Jearim para Jerusalém; ou porque fossem cantados pelos hebreus em suas pausas durante as peregrinações anuais às três festas solenes; ou ainda porque fossem parcialmente cantados pelos judeus nas diferentes etapas de seu retorno da Babilônia.
Autor
John Brown de Haddington (1722–1787) foi um proeminente teólogo e escritor escocês, renomado por sua erudição e piedade no século XVIII. Nascido em uma família pobre, Brown foi em grande parte autodidata, dominando vários idiomas, incluindo o hebraico, apesar de ter tido uma educação formal limitada. Ele se tornou o ministro da ala burguesa da Igreja da Secessão em Haddington, East Lothian, e era estimado por seu profundo conhecimento da Bíblia e sua fervorosa pregação evangélica.
Fonte
BROWN, John, Preface, in The Psalms of David in Metre. Pittsburgh: John Snowden, 1812. Tradução: Samuel S. Gomes.

O canto dos Salmos está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
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