Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 39.

Tempo de leitura: 5 minutos.

Pergunta 39: Qual é o dever que Deus requer do homem?

Resposta: O dever que Deus exige do homem é obediência à sua vontade revelada.[1]

PROVAS BÍBLICAS.

[1] Deuteronômio 29:29; Miquéias 6:8; 1João 5:2-3.

Comentário.

Até agora, em nosso catecismo, temos examinado o que o homem deve crer a respeito de Deus (cf. BCW 3). A partir deste ponto até o final do catecismo, consideraremos qual é o dever que Deus requer do homem.

Observe que a resposta se refere à vontade revelada de Deus, que, para nós, está contida na Palavra de Deus e, de modo específico, na Lei de Deus. Ela é chamada de vontade revelada em contraste com a vontade secreta de Deus. No entanto, é importante destacar que o significado de “vontade” nesses dois contextos não é idêntico.

A vontade secreta de Deus diz respeito aos seus decretos eternos e à sua soberana preordenação de tudo o que acontece (cf. BCW 7). Já a vontade revelada de Deus não envolve preordenação, mas se refere às leis que ele estabeleceu para suas criaturas. Além disso, não devemos confundir “vontade” com os desejos humanos. Quando dizemos que um homem deseja algo, estamos afirmando que ele almeja determinada coisa, mesmo sem ter o poder de realizá-la. Por exemplo, eu poderia desejar pregar como Spurgeon, mas sei que, a menos que algo extraordinário aconteça, não serei capaz.

O mesmo, porém, não pode ser dito de Deus. Se ele deseja algo (no sentido em que entendemos o desejo em termos humanos), tal coisa certamente acontecerá, pois está dentro de seu poder realizá-la. Deus é soberano, e sua vontade não pode ser frustrada. Portanto, os preceitos registrados na Palavra de Deus refletem o dever do homem para com Deus, e não meramente um desejo divino.

Embora seja correto afirmar que Deus se agrada da obediência do homem (não no sentido de aumento de felicidade, pois ele é perfeito), seria teologicamente equivocado dizer que ele se entristece com a desobediência. A menos que, ao dizer isso, estejamos nos referindo a uma expressão antropopática, um recurso de linguagem usado na comunicação comum, mas que não deve ser levado em conta em nossas formulações teológicas sobre Deus.

Jonathan Edwards, em sua célebre obra Freedom of the Will, refuta a noção arminiana de que os atos pecaminosos violam a vontade soberana de Deus e, por isso, lhe causam pesar. Ele escreve:

“As seguintes proposições podem ser estabelecidas como máximas de verdade pura e evidência indiscutível:

  1. Deus é um ser perfeitamente feliz, no sentido mais absoluto e elevado possível.
  2. Disso se segue que Deus está livre de tudo o que é contrário à felicidade; assim, em sentido estrito, não há dor, pesar ou sofrimento em Deus.
  3. Quando um ser inteligente está verdadeiramente contrariado e desapontado—quando as coisas acontecem de modo contrário ao que ele realmente deseja—sua satisfação é reduzida, seu prazer e felicidade são diminuídos, e ele sofre aquilo que lhe é desagradável, experimentando algo contrário à alegria e à felicidade, até mesmo dor e pesar.” (Works, 1.79).

Com base nesses princípios, Edwards aplica um reductio ad absurdum à argumentação de seus opositores, demonstrando que, se estivessem corretos, Deus seria “infinitamente o mais miserável dos seres”.

Tudo isso, evidentemente, não diminui a importância da obediência. O Senhor Deus, nosso Criador e Rei, ordena que lhe obedeçamos. A desobediência é traição e rebelião contra ele. Por outro lado, a obediência glorifica a Deus e lhe é agradável. No entanto, devemos lembrar que a obediência é nosso dever e, portanto, não devemos esperar ser recompensados por ela (cf. Lc 17.10).

Diante disso, surge a questão: se Deus ordena a obediência, mas o homem, em seu estado natural, está morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1), como pode alguém cumprir esse dever? A resposta é encontrada na obra da graça de Deus. Somente pela regeneração operada pelo Espírito Santo o homem pode verdadeiramente desejar e buscar obedecer à vontade revelada de Deus. Sem essa transformação, todo esforço humano será apenas uma tentativa vã de alcançar a justiça por obras, algo impossível devido à depravação total do homem (Rm 3.10-12).

Além disso, a obediência que Deus requer não é uma mera conformidade externa à sua Lei, mas um coração que verdadeiramente ama e deseja glorificá-lo. Esse amor a Deus é fruto da fé, que por sua vez é dom de Deus (Ef 2.8-9). Assim, longe de ser um fardo, a obediência cristã é resultado da gratidão e da nova vida em Cristo, pois “se me amais, guardareis os meus mandamentos’ (Jo 14.15).

Por fim, a obediência cristã é uma evidência da genuína fé e um testemunho ao mundo da santidade de Deus. Embora não sejamos salvos por nossas obras, fomos criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas (Ef 2.10). Nossa obediência não apenas glorifica a Deus, mas também edifica a igreja e serve como um meio pelo qual Deus santifica seu povo.

Conclusão.

Ao longo desta reflexão, vimos que o dever do homem para com Deus está fundamentado em sua vontade revelada, expressa na Escritura. A obediência, longe de ser uma condição para a salvação, é o fruto da graça divina operando no coração regenerado. Deus não é frustrado pela desobediência humana, pois sua soberania permanece inabalável. No entanto, ele exige e se agrada da obediência de seu povo, pois esta reflete sua glória e santidade. Que, pela graça de Deus, possamos crescer em amor e fidelidade à sua Palavra, vivendo para a glória daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).

Perguntas.

1. Qual é a diferença entre a vontade secreta e a vontade revelada de Deus, e por que essa distinção é importante para a teologia reformada?

2. Por que a obediência a Deus deve ser vista como um dever do homem e não como um meio de obter recompensas?

3. Como Jonathan Edwards refuta a ideia de que Deus sofre ou se entristece com a desobediência humana?

4. De acordo com o texto, por que o homem, em seu estado natural, é incapaz de obedecer à vontade revelada de Deus?

5. Como a obediência cristã reflete a genuína fé e serve como testemunho ao mundo da santidade de Deus?


Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 39 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2022, 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em fevereiro de 2025. Publicado originalmente em 27 de Fevereiro de 2022].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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