“A fé de todos os cristãos assenta na Trindade”.
Cesário de Arles.[1]
Artigo reeditado em junho de 2023.
INTRODUÇÃO
A doutrina da Santíssima Trindade é, ao lado da doutrina de Cristo (Cristologia), uma das mais importantes. Para o cristão, é de vital importância conhecê-la. De fato, trata-se de uma doutrina difícil de ser assimilada por nosso raciocínio. Pensamos que a ideia é justamente esta: humilhar a inteligência dos homens. Jamais compreenderemos como em um único Ser coexistem três pessoas. A nossa consciência ao estudar a Trindade deve ser semelhante a do salmista quando expressou: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir” (Sl 139.6). Isso não significa que não devemos estudar esse tema, mas, sim, que reconheçamos nossas limitações e glorifiquemos a Deus por nos fazer entendê-lo, mesmo de modo limitado.
Mesmo com a dificuldade que essa doutrina nos impõe, é importante que busquemos estudá-la. Usar as grandes confissões de fé reformada para isso é interessante, pois em cada uma delas você perceberá o teor puramente bíblico expresso nelas. São nessas obras que o pensamento reformado é mais bem representado e descrito.
Para o presente artigo usaremos a Confissão Belga (doravante CB). Esta confissão data de 1561 e seu nome se refere aos Países Baixos, atualmente divididos em Holanda e Bélgica. Seu autor foi Guido de Brès, um pastor itinerante reformado. Por decorrência da forte perseguição às igrejas reformadas promovida por Filipe II da Espanha durante o século 16, de Brès, em 1561, preparou essa confissão em francês como uma defesa para os crentes perseguidos nos Países Baixos.[1]
Reproduziremos aqui alguns artigos da CB. Os capítulos 8 e 9 são os principais. O artigo 8 é intitulado “A Trindade: um só Deus, três pessoas”. O artigo 9 é, por sua vez, intitulado “O testemunho da Escritura sobre a Trindade”. Além desses, usaremos os artigos 1, 2, 10 e 11 a fim de termos uma visão geral do modo como a CB apresenta individualmente cada pessoa da Trindade. As referências bíblicas, que no texto da CB aparecem em referências subscritas, aparecerão no corpo do texto, ao lado da frase que lhe faz referência.
I. A TRINDADE: UM SÓ DEUS, TRÊS PESSOAS.[2]
Conforme esta verdade e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus (1Co 8.4-6), que é um único ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 28.19). Estas são, realmente e desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios de cada Pessoa.
O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisíveis (Ef 3.14-15). O Filho é o Verbo, a sabedoria e a imagem do Pai (Pv 8.22-31; Jo 1.14; Jo 5.17-26; 1Co 1.24; Cl 1.15-20; Hb 1.3; Ap 19.13). O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é a eterna força e o poder (Jo 15.26).
Esta distinção não significa que Deus está dividido em três. Pois a Sagrada Escritura nos ensina que cada um destes três, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, tem sua própria existência, distinta por seus atributos, de tal maneira, porém, que estas três pessoas são um só Deus. É claro, então, que o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, também, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.
Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não são divididas nem confundidas entre si. Porque somente o Filho se tornou homem, não o Pai ou o Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu Filho (Jo 1.1-2.) e sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade, no mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os três são um só em verdade, em poder, em bondade e em misericórdia.
II. O TESTEMUNHO DA ESCRITURA SOBRE A TRINDADE.[3]
Tudo isto sabemos tanto pelo testemunho da Sagrada Escritura (Jo 14.16; Jo 15.26; At 2.32-33; Rm 8.9; Gl 4.6; Tt 3.4-6; 1Pe 1.2; 1Jo 4.13-14; 1Jo 5.1-12; Jd 20-21; Ap 1.4-5), como pelas obras das três Pessoas, principalmente por aquelas que percebemos em nós.
Os testemunhos das Sagradas Escrituras, que nos ensinam a crer nesta Trindade, se acham em muitos lugares do Antigo Testamento. Não é preciso alistá-los, somente escolhê-los cuidadosamente. Em Gn 1.26-27, Deus diz: “Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança” etc. “Criou Deus, pois, o homem a sua imagem; homem e mulher os criou”. Assim também em Gn 3.22: “Eis que o homem se tornou como um de nós”. Com isto se mostra que há mais de uma pessoa em Deus, porque ele diz: “Façamos o homem a nossa imagem”; e, em seguida, ele indica que há um só Deus, quando diz: “Deus criou”. É verdade que ele não diz quantas pessoas há, mas o que é um tanto obscuro, para nós, no Antigo Testamento, é bem claro no Novo. Pois quando nosso Senhor foi batizado no rio Jordão, ouviu-se a voz do Pai, que falou: “Este é o meu filho amado” (Mt 3.17); enquanto o Filho foi visto na água e o Espírito Santo se manifestou em forma de pomba (Mt 3.16).
Além disto, Cristo instituiu para o batismo de todos os fiéis, esta forma: “batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19). No evangelho segundo Lucas, o anjo Gabriel diz a Maria, mãe do Senhor: “Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35). Do mesmo modo: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13).
Em todas estas passagens nos é ensinado que há três Pessoas em um só ser divino. E, embora esta doutrina ultrapasse o entendimento humano, cremos nela baseados na Palavra e esperamos desfrutar de seu pleno conhecimento e fruto no céu.
Devemos considerar, também, a obra própria que cada uma destas três Pessoas efetua em nós: o Pai é chamado nosso Criador, por seu poder; o Filho é nosso Salvador e Redentor, por seu sangue; o Espírito Santo é nosso Santificador, porque habita em nosso coração.
A verdadeira igreja sempre tem mantido esta doutrina da Trindade, desde os dias dos apóstolos até hoje, contra os judeus, os muçulmanos e falsos cristãos e hereges como Marcião, Mani, Práxeas, Sabélio, Paulo de Samósata, Ário e outros.[4] A igreja antiga os condenou, com toda a razão. Por isso, aceitamos de boa vontade, nessa matéria, os três Credos ecumênicos, a saber: o Apostólico, o Niceno e o Atanasiano; e aceitamos também o que a igreja antiga determinou em conformidade com esses credos.
III. AS PESSOAS DA TRINDADE APRESENTADAS SEPARADAMENTE.
Nesta seção reuniremos quatro artigos da CB para que tenhamos uma visão geral sobre cada pessoa da Trindade considerada separadamente. Ao abordarmos de maneira separada cada pessoa da Trindade compreenderemos tanto a pessoa em si quanto a obra que ela opera em nós.
A. DEUS O PAI
1. O único Deus.[5]
Todos nós cremos com o coração e confessamos com a boca (Rm 10.10) que há um só Deus (Dt 6.4; 1Co 8.4-6), um único e simples ser espiritual (Jo 4.24). Ele é eterno (S1 90:2), incompreensível (Rm 11.33) invisível (Cl 1.15; 1Tm 6.16), imutável (Tg 1.17), infinito (1Rs 8.27; Jr 23.24), todo-poderoso (Gn 17.1; Mt 19.26; Ap 1.8); totalmente sábio (Rm 16.27), justo (Rm 3.25-26; Rm 9.14; Ap 16.5-7) e bom (Mt 19.17), e uma fonte muito abundante de todo bem.[6]
2. Como conhecemos a Deus.[7]
Nós o conhecemos por dois meios. Primeiro: pela criação, manutenção e governo do mundo inteiro, visto que o mundo, perante nossos olhos, é como um livro formoso (Sl 19.1-4), em que todas as criaturas, grandes e pequenas, servem de letras que nos fazem contemplar “os atributos invisíveis de Deus”, isto é, “o seu eterno poder e a sua divindade”, como diz o apóstolo Paulo (Rm 1.20). Todos estes atributos são suficientes para convencer os homens e torná-los indesculpáveis.
Segundo: Deus se fez conhecer ainda mais clara e plenamente por sua sagrada e divina Palavra (Sl 19.7-8; 1Co 1.18-21), isto é, tanto quanto nos é necessário nesta vida, para sua glória e para a salvação dos que lhe pertencem.
B. DEUS O FILHO
1. Jesus Cristo é Deus.[8]
Cremos que Jesus Cristo, segundo sua natureza divina, é o único Filho de Deus (Mt 17.5; Jo 1.14; Jo 3.16; Jo 14.1-14; Jo 20.17, 31; Rm 1.4; Gl 4.4; Hb 1.1; lJo 5.5, 9-12.), gerado desde a eternidade. Ele não foi feito, nem criado, pois assim ele seria uma criatura; mas é de igual substância do pai, coeterno, “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1.3), igual a ele em tudo (Jo 5.18,23; Jo 10.30; Jo 14.9; Jo 20.28; Rm 9.5; Fp 2.6; Cl 1.15; Tt 2.13; Hb 1.3; Ap 5.13.).
Ele é o Filho de Deus, não somente desde que assumiu nossa natureza, mas desde a eternidade (Jo 8.58; Jo 17.5; Hb 13.8.), como os seguintes testemunhos nos ensinam, ao serem comparados uns aos outros:
Moisés diz que Deus criou o mundo (Gn 1.1), e o apóstolo João diz que todas as coisas foram feitas por intermédio do Verbo que ele chama Deus (Jo 1.1-3). O apóstolo diz que Deus fez o universo por seu Filho (Hb 1.2) e, também, que Deus criou todas as coisas por meio de Jesus Cristo (1Co 8.6; Cl 1.16).
Segue-se, necessariamente, que aquele que é chamado Deus, o Verbo, o Filho e Jesus Cristo, já existia, quando todas as coisas foram criadas por Ele. O profeta Miqueias, portanto, diz: “Suas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2); e a carta aos Hebreus testemunha: “Ele não teve princípio de dias, nem fim de existência” (Hb 7.3).
Assim, ele é o verdadeiro, eterno Deus, o Todo-poderoso, a quem invocamos, adoramos e servimos.
C. DEUS O ESPÍRITO SANTO.
1. O Espírito Santo é Deus.[9]
Cremos e confessamos, também, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, desde a eternidade. Ele não foi feito, nem criado, nem gerado; mas procede de ambos (Jo 14.15-26; Jo 15.26; Rm 8.9.).
Na ordem, ele é a terceira pessoa da Trindade, de igual substância, majestade e glória do Pai e do Filho, verdadeiro e eterno Deus, como nos ensinam as Sagradas Escrituras (Gn 1.2; Mt 28.19; At 5.3-4; lCo 2.10; 1Co 6.11; 1Jo 5.6).
CONCLUSÃO
Através da Confissão Belga fica claro que a doutrina da Trindade não é invenção da imaginação humana como pensava Paul Tillich.[10] Como vimos, existem textos e mais textos que mostram que a doutrina da Trindade é essencialmente bíblica. É óbvio que o pressuposto de fé é necessário, pois estamos tratando de um assunto que está presente unicamente na Escritura. Seria impossível presumir a Trindade meramente pela Revelação Geral, aquela revelação de Deus que nos é dada pela criação (Sl 19.1-6; Rm 1.18-20).
O conteúdo bíblico-doutrinário da Confissão nos ajuda a identificarmos aqueles grupos pseudocristãos que negam ou a Trindade ou uma das Pessoas divinas. Temos na CB um salvaguarda da verdade bíblica. Cada frase e afirmação sobre a Trindade ou das Pessoas divinas são atestadas por diversos textos bíblicos. A riqueza de citações bíblicas nos asseguram que cada afirmação sobre a Trindade é bíblica, e não fruto do devaneio da mente humana.
Oremos a Deus para que as grande confissões de fé reformada sejam redescobertas e, mais ainda, estudadas. Elas escondem um tesouro inestimável de riqueza bíblica. Esse tesouro está à nossa disposição, em livrarias ou na Internet. Basta que queiramos aprender as doutrinas da Escritura.
Notas
[1] Beeke, Ferguson (orgs.), 2006, p. ix. Para mais informações a respeito da Confissão Belga, veja http://cpaj.mackenzie.br/historia-da-igreja/movimento-reformado-calvinismo/confissoes-reformadas/a-confissao-belga-1561/
[2] De Brès, Ursinus, 2011, p. 10, 11. Este é o Artigo 8 da CB.
[3] De Brès, Ursinus, op. cit., p, 11, 12. Este e o Artigo 9 da CB.
[4] O objetivo de De Brès ao produzir a Confissão era provar aos perseguidores dos cristãos reformados que “os adeptos da fé reformada não eram rebeldes, mas cidadãos obedientes às leis” e que “professavam doutrinas bíblicas”. Portanto, o motivo de mencionar alguns “falsos cristãos e hereges” servia para provar a ortodoxia dos reformados.
[5] De Brès, Ursinus, 2011, p. 7. Este é o Artigo 1 da CB.
[6] Veja também Is 40, 44 e 46 (Nota do autor).
[7] De Brès, Ursinus, 2011, p. 7. Este é o Artigo 2 da CB.
[8] De Brès, Ursinus, op. cit., p. 12,13. Este é o artigo 10 da CB.
[9] De Brès, Ursinus, 2011, p. 13. Este é o Artigo 11 da CB.
[10] Para Paul Tillich (1886-1965) , teólogo e filósofo alemão, a doutrina da Trindade “fora produzida pelo homem para suprir suas necessidades” e “na verdade, Tillich não acreditava que existia uma Pessoa na Deidade, muito menos três” (RYRIE, Charles Caldwell, Teologia básica: um guia sistemático popular para entender a verdade bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 2012, p. 35, 36). Para mais informações sobre Tillich, veja SAWYER, M. James, Uma introdução à teologia: das questões preliminares, da vocação e do labor teológico. São Paulo: Vida, 2009, p. 589.
BIBLIOGRAFIA
BEEKE, Joel R; FERGUSON, Sinclair B. (orgs.), Harmonia das confissões de Fé Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
De BRÈS, Guido; URSINUS, Zacarias. Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
FERREIRA, Franklin, O credo dos apóstolo: as doutrinas centrais da fé cristã. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015.
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