A ESCRAVIDÃO NO ANTIGO TESTAMENTO.

Quando pensamos em escravidão logo nos vem à mente algo parecido como a escravidão dos negros acontecida em nosso país e no continente americano. Esse tipo de lembrança atrapalha nosso real entendimento da escravidão nos tempos do Antigo Testamento. Este estudo não é exaustivo, ele te como objetivo oferecer uma visão breve de como funcionava a escravidão nos tempos veterotestamentários.

1. A escravatura nos tempos do Antigo Testamento.

A escravidão existia no Oriente Próximo antigo desde tempos remotos. Abraão, que viveu por volta do ano 2160 a.C. possuía um escravo (Gn 24.2). A escravidão nunca esteve ligada à cor da pele. Prisioneiros de guerras eram transformados em escravos (cf. 1Sm 4.9; 2Rs 5.2) e indivíduos nascidos de pais escravos viviam nessa condição (cf. Gn 17.12ss). Pessoas que não tinham condição de pagar suas dívidas eram forçadas a vender a si mesmas ou os filhos como escravos para pagar as dívidas (cf. Lv 25.39ss; 2Rs 4.1).[1]

Escravos eram comprados e vendidos como mercadorias (Gn 17.12ss; 37.26,36). Não há registros de que havia mercados de escravos em Israel, isso porque a legislação israelita não permitia que um natural da terra fosse escravo por toda sua vida. Em Êx 21.2 lemos que um hebreu[2] poderia ser escravo por apenas seis anos e no sétimo deveria ser liberto.[3]

Era uma falta muito grave em Israel obter escravos mediante sequestro (Êx 21.16). Esta lei também existia nas nações vizinhas. Este pode ter sido o motivo pelo qual os irmãos de José ficaram aflitos quando descobriram que seu irmão estava vivo (Gn 45.3; 50.15). A quantia de um escravo podia variar como o de outros bens. O preço de 20 siclos de prata[4] que foram recebidos pela venda de José, de acordo com descobertas da arqueologia, era o valor base vigente na época. No período de dominação dos assírios (c. VIII a.C.) esse valor subira para 50 siclos (571,2 kl).[5]

2. A escravatura em Israel.

O texto de Êx 21.1-11 trata de escravos hebreus. O versículo 2 deixa bem claro qual é o alvo do legislador: “Se comprares um escravo hebreu […]”. O alvo é tratar da lei quanto ao trato para com um escravo hebreu. A legislação sobre o trato para com escravos estrangeiros encontra-se em Lv 25.44-46.

O alvo da lei de Israel era impedir que toda a população fosse forçada à escravidão, tendo em vista que os israelitas foram libertados de uma escravidão que durou 450 anos no Egito. Este é o motivo pelo qual um hebreu não poderia ser escravo por mais de seis anos, “[…] seis anos servirá; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça” (Êx 21.2). Quando um escravo era libertado ele deveria receber bens suficientes para recomeçar sua vida, mas se tivesse casado durante a escravidão, a esposa e os filhos continuariam escravos, ou ele podia continuar voluntariamente como escravo.

As escravas estavam sujeitas a mais leis. Uma escrava podia tornar-se a mãe substituta para os filhos de seu senhor (cf. Gn 16). Uma escrava podia casar-se com seu senhor ou com um de seus filhos, ou tornar-se uma concubina sustentada.[6]

Uma vez que a escravidão em Israel era proibida em relação para com os israelitas, os estrangeiros tornaram-se escravos em Israel. Davi subjugou os amonitas de Rabá quando Joabe lutou e conquistou aquela cidade (2Sm 12.6-31). Davi tomou os cativos e “fê-lo [o povo amonita] passar a serras, e a picaretas, e a machados de ferro, e em fornos de tijolos; e assim fez a todas as cidades dos filhos de Amom. Voltou Davi com todo o povo para Jerusalém”. Davi fez o mesmo com os moabitas” (2Sm 8.2). Esta era uma prática comum no contexto daquela época (cf. Êx 1.11; Js 9.22-27; 1Rs 9.20-21). A atitude de Davi nos textos supracitados, de Josué em Js 9.22-27 e a de Salomão em 1Rs 20-21 está em conformidade com o que a lei de política externa de Israel exigia em Dt 20.[7]

Alguns cativos de guerra foram entregues ao trabalho religioso em Israel. É o caso de Nm 31.28-47. Após a vitória sobre os midianitas, Deus ordenou que as presas fossem repartidas entre os soldados e a comunidade. Da porção destinada aos soldados, uma a cada quinhentas presas de pessoas e animais seriam entregues ao sacerdote Eleazar, para a oferta do Senhor (Nm 31.41). E da porção destinada à comunidade, uma a cada cinquenta presas de pessoas e animais seriam entregues aos levitas (Nm 31.47). Fica claro pelo contexto que a intenção de Deus era o sustento do tabernáculo.


[1] Cf. Williams (ed.), 2000, p. 112. 

[2] A palavra “hebreu” (heb. ‘`ibrî) deriva-se de Éber (ou Héber), palavra que significa “aquele que veio do outro lado”. Éber (heb. `eber] foi um bisneto de Sem e um ancestral dos futuros hebreus. Abraão foi chamado “o hebreu” porque atravessou o rio, vindo do outro lado, o que aconteceu quando emigrou da Mesopotâmia (Gn 14.13; Cf. Js 24.2 no texto hebraico). Este termo aparece poucas vezes no Antigo Testamento, e nestas ocorrências parece ser sinônimo de “israelita”. Na maioria das ocorrências, usa-se para descrever israelitas quando não-israelitas são destinatários da mensagem. No Novo Testamento o termo é usado para descrever judeus que falavam aramaico, para distingui-los dos que falavam grego. Os judeus que falavam grego eram chamados de helenistas (cf. At 6.1) (Williams (ed.),loc. cit.; Boyer, 1999, p. 214,307; Elliger, Rudolph, 1997, p. 15,19).

[3] Williams (ed.), loc. cit.; Boyer, 1999, p. 237.

[4] O siclo era uma medida para pesos que correspondia a 11,424 gramas. Portanto, o valor da venda de José foi de 228,48 kl de pratas.

[5] Williams (ed.), loc. cit.

[6] Williams (ed.), loc. cit.

[7] Williams (ed.), loc. cit; Radmacher, Allen, House (eds.), 2010, p. 529.


BIBLIOGRAFIA.

BOYER, Orlando. (1999) Pequena enciclopédia bíblica. 7ª ed. São Paulo: Vida.

RADMACHER, Earl D; ALLEN, Ronald B; HOUSE, H. Wayne. (eds.) (2010) O novo     comentário bíblico AT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel.

WILLIAMS, Derek (ed.) (2000) Dicionário bíblico vida nova. São Paulo: Vida Nova.

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