A BÍBLIA: SUA TRANSMISSÃO E COMO CHEGOU ATÉ NÓS (parte 02).

Por: Samuel S. Gomes.

1. O SURGIMENTO DA ESCRITA.

A História é dividida comumente em Pré-História e História. A causa desta divisão foi um fator fundamental para a raça humana – o surgimento da escrita. A Pré-História é o período acontecido antes da criação da escrita. Com o surgimento da escrita, fatos e eventos passaram a ser registrados de maneira definitiva. A partir desses fatos registrados surge o período denominado história.

1.1. A história da escrita.

As primeiras formas rudimentares de escrita apareceram entre os povos sumerianos em cerca do ano 3500 a.C.[1] Na escrita sumeriana mais antiga, a figura de um objeto pode representar este objeto ou meramente o som do nome desse objeto. Por exemplo, a figura de uma estrela poderia representar o céu e lembrar a palavra an ou poderia representar a palavra para deus (associação ao céu) e ser lida como dingir. Este primeiro tipo de escrita era chamado pictogramas porque usava figuras para representar seres humanos e animais. A partir dos pictogramas surgiram outros tipos de escrita como os ideogramas (símbolos que representavam ideias) e os fonogramas (símbolos que representavam sons).[2]

 Esses textos, por assim dizer, eram escritos em tijolos de barro ou massa e depois eram queimados ou deixados para secar. Para escrever era usado um estilete de junco. Com o estilete eram feitos várias cunhas ou incisões no barro. Por conta dessas cunhas é que esse formato de escrita é chamado cuneiforme (latim, cuneus [cunha]).[3]

No final do quarto milênio a.C., os egípcios desenvolveram seu próprio sistema de escrita. Este sistema era chamado de escrita hieroglífica. Os hieróglifos usavam figuras e sinais para serem lidos foneticamente. Inicialmente, este era um sistema de escrita composto por ideogramas e mais tarde passou a ser um sistema de escrita fonético (fonogramas).[4]

Quando e onde surgiu o alfabeto é algo que ainda não sabemos. A maioria dos linguistas concorda em achar que o alfabeto surgiu provavelmente no Egito ou em Canaã. A forma mais antiga de alfabeto conhecido é cananeu e consonantal (composto de consoantes). Este sistema alfabético surgiu entre 2000 e 1500 a.C., e foi transmitido, subsequentemente, pelos fenícios aos gregos, provavelmente no século VIII a.C. Foram os gregos que inventaram as vogais. Até então havia somente as consoantes na língua escrita. Outra contribuição dos gregos foi a mudança da direção da escrita para aquela que o ocidente segue agora – da esquerda para a direita. Os sistemas de escritas cuneiforme da mesopotâmia e o hieroglífico egípcio eram tão complicados que se levavam anos para aprendê-los. O alfabeto colocou a alfabetização ao alcance de todos.[5]

1.2. Os suportes de escrita.

Uma vez que existiam vários sistemas de escritas, o ser humano passou a usar diversos materiais para transcrever os registros. Eles utilizavam os materiais que tinham a disposição. Com o passar dos tempos esses materiais foram aprimorados ou substituídos por outros.

1.2.1. Pedras.

Muitas inscrições eram entalhadas em pedras ou rochas (Jó 19.24). Escrever em pedras era uma ótima opção quando se queria que uma informação fosse preservada por muito tempo. Eram usadas tábuas de pedras que mediam 45 cm x 30 cm. Foram em tábuas de pedras deste tamanho que os Dez Mandamentos foram escritos (Êx 36.16).[6]

1.2.2. Tabletes de argila.

Em Ez 4.1 Deus diz ao profeta para desenhar a cidade de Jerusalém num tijolo. Este tijolo provavelmente era de argila.[7]

1.2.3. Papiro.

O papiro era um tipo de “papel” feito de uma planta aquática abundante no Egito. Esse “papel” vinha sendo fabricado desde 1400 a.C. até 600 d.C. Cortava-se um talo de papiro de 30 cm e o cortava em fatias de pouca espessura, as quais eram coladas lado a lado, a fim de formarem uma “página” de 25 cm a 30 cm, em quadrado. Sobre essa primeira camada era colada outra e depois tudo isso era prensado e deixado a secar. Esse material era bastante durável, mas não suportava climas úmidos. Papiros não sobreviveriam em Israel ou na Grécia, muito menos no Brasil – países de clima úmido. Quase todos os manuscritos em rolos de papiro foram encontrados no Egito, país que fica numa região semiárida onde nunca chove. O “papel” usado pelo apóstolo João (2Jo 12) era provavelmente o papiro.[8]

1.2.4. Pergaminho.

O pergaminho era usado desde 1288 a.C. no Egito e em outros países. Em latim e grego a palavra era membrana – palavra que significa pele. Este material era feito de peles de animais (cabras e ovelhas) especialmente preparadas e era mais durável do que o papiro e bem mais caro também. De acordo com 2Tm 4.13, o apóstolo Paulo fez uso de pergaminhos.

1.2.5. Papel.

O papel teria sido inventado na China em 105 d.C. por  T’sai Lun. Ele misturou casca de amoreira, cânhamo, restos de roupas e outros produtos. Depois de batida a massa até formar uma pasta, peneirou e deixou secar ao sol. No entanto, esta técnica foi guardada e somente 500 anos depois os chineses conheceram o papel graças aos monges budistas coreanos. O papel chegou ao ocidente em 750 d.C.[9]

1.3. Forma dos documentos.

Os suportes vistos acima possuíam formatos diversos. Aqui iremos destacar formatos que foram importantes para a transmissão da Bíblia.

1.3.1. Rolos.

Os rolos eram a forma comum do “livro” mencionado tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Quando a Bíblia usa a palavra “livro” (como por exemplo, em 2Rs 22.8 [livro da lei])  ela se refere aos rolos. Os rolos eram feitos de papiro ou pergaminho e não podiam ser mais longo do que 10 metros. Já vimos que a confecção era feita colando uma folha na outra e isso era feito até formar um rolo. No caso dos pergaminhos, uma pele era costurada em outra até formar um rolo não mais longo do que 10 metros. A escrita em rolos era feita em colunas, pois seria desconfortável escrever uma linha de 10 metros e depois voltar ao início do rolo. Em Jr 36, temos o relato da confecção do rolo do profeta. Em Zc 4.1 e Ap 5.1 lemos de rolos que vieram voando. Em Lc 4.17,  Jesus leu o livro de Isaías, ou seja, o rolo de Isaías. Ele primeiro desenrolou o rolo (“abrindo o livro”) e, depois de ter lido, enrolou o rolo (“tendo fechado o livro”).[10]

1.3.2. Códices.

Em meados do século II d.C., o rolo começou a ser substituído pelo códice. O códice tinha o formato de livro. Ao invés de costurar uma pele na outra ou colar uma folha de papiro na outra, passaram a fazer pilhas de papiro ou pergaminho e se fazia uma costura só. Feito isso, o material final era usado como livro, sendo possível folhear as páginas da mesma forma como folheamos as páginas da Bíblia. Alguns manuscritos da Bíblia estão em forma de códice.[11]

2. OS MANUSCRITOS DA BÍBLIA.

A Bíblia foi preservada através de muitos manuscritos. Manuscrito significa “escrito a mão”. Quando falamos em “manuscritos originais” estamos nos referindo àqueles que foram escritos pelos próprios autores bíblicos. No entanto, esses manuscritos (chamados de autógrafos) não existem mais. O que nós temos são cópias de cópias muito bem preservadas. Uma ciência chamada Manuscritologia estuda os manuscritos para saber qual é o mais próximo do original (autógrafo).

As cópias manuscritas do Antigo Testamento são poucas e raras. Já o Novo Testamento tem mais de 5400 cópias e fragmentos manuscritos em grego, além das cópias feitas em armênio, copta e latim.

Muitas pessoas levantam dúvidas sobre a confiabilidade e veracidade do texto do Novo Testamento. Mas esse número de cópias manuscritas (5400) foi produzido numa época muito próxima dos originais, até o século IV. Isso significa dizer que se o texto do Novo Testamento não é confiável, então nenhuma cópia manuscrita feita antes da invenção da imprensa merece crédito, e isso inclui todos os livros da antiguidade, seja livros de história ou de filosofia, visto que o Novo Testamento é o documento mais bem atestado da antiguidade em número de cópias manuscritas feitas próximas as datas do originais.

2.1. Os principais manuscritos da Bíblia

A cristandade possui alguns manuscritos importantes para o texto bíblico.

2.1.1. Manuscrito Vaticano.

Manuscrito escrito em grego e data do séc. IV a.C. É o mais antigo conhecido no mundo. Foi produzido em 4 volumes, com 700 páginas, e está escrito em  colunas na página e contem quase a Bíblia inteira. Faltam 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom e o Apocalipse. Ele está guardado na Biblioteca do Vaticano.[12]

2.1.2. Manuscrito Sinaítico.

Produzido no séc. IV, está em grego e contém todo o AT grego, além das Epístolas de Barnabé e parte de O pastor, de Hermas. Foi encontrado pelo sábio alemão Constantino Tischendorf, em 1844, no Mosteiro de Santa Catarina, situado na encosta do Sinai. Tischendorf viu 129 páginas do manuscrito em uma cesta de papel, prestes a serem lançadas ao fogo. Percebendo seu enorme valor, levou-as para a Europa. Em 1859, voltou ao mosteiro e encontrou as páginas restantes. Doada pelo seu descobridor a Alexandre II, da Rússia, a preciosidade foi posteriormente comprada pela Inglaterra pela vultosa quantia de 100 mil libras esterlinas. Está no Museu Britânico desde 1933.[13] Possui quase o Novo Testamento inteiro, com exceções de Mc 16.9-20 e Jo 7.58-8.11.[14]

2.1.3. Manuscrito Alexandrino.

Está escrito em grego e data do séc. IV d.C. Tem esse nome porque fez parte da biblioteca de Alexandria, Egito. É composto por 4 volumes e tem duas colunas em cada página. Atualmente está no Museu Britânico, em Londres. Contém a Bíblia inteira, com exceção de  Gênesis 14:14 a 17; 15:1 a 5, 16 a 19; 16:6 a 9; 1Reis 12:18 a 14:9; Salmos 49:20 a 70:11; Mateus 1:1 a 25:6; João 6:50 a 8:52; 2Coríntios 4:13 a 12:7.[15]

3. TRADUÇÕES ANTIGAS.

A Bíblia possui duas traduções antigas que causam impacto até hoje. São elas a Septuaginta e a Vulgata.[16]

3.1. Septuaginta.

Como consequência dos setenta anos de cativeiro na Babilônia e da forte influência do aramaico, a língua hebraica enfraqueceu. Todavia, fiéis à tradição de preservar os oráculos em sua língua, os judeus não permitiam que os livros sagrados fossem vertidos para outro idioma. Alguns séculos mais tarde, porém, essa atitude exclusivista e ortodoxa teria de dar lugar a um senso mais prático e liberal. Com o estabelecimento do império de Alexandre, o Grande, a partir de 331 a.C., a língua grega popularizou-se a tal ponto que se tornou imprescindível uma tradução das Sagradas Escrituras nesse idioma. Segundo o escritor Aresteas, a tradução grega foi feita por 72 sábios judeus (daí o nome “Septuaginta”), na cidade de Alexandria, a partir de 285 a.C., a pedido de Demétrio Falário, bibliotecário do rei Ptolomeu Filadelfo. Concluída 39 anos mais tarde, a nova versão assinalou o começo de uma grande obra que, além de preparar o mundo para o advento de Cristo, tornaria conhecida de todos os povos a Palavra de Deus. Na igreja primitiva, era a tradução conhecida de todos os crentes.

3.2. Vulgata.

Em 382 d.C., o bispo Dâmaso encarregou Jerônimo de traduzir da Septuaginta para o latim o livro de Salmos e o NT, trabalho concluído em três anos e meio. Mais tarde, outro bispo assumiu a direção da igreja em Roma e percebeu, com inveja, a grande cultura e a influência de Jerônimo. Este, perseguido e humilhado, dirigiu-se para Belém, na Terra Santa, e ali estudou e trabalhou 34 anos na tradução de toda a Bíblia para a língua latina. Jerônimo escreveu ainda 24 comentários bíblicos, um conjunto de biografias de eremitas, duas histórias da igreja primitiva e diversos tratados. Mais tarde, a Bíblia de Jerônimo ficou conhecida por Vulgata [Vulgar], sendo hoje utilizada pela Igreja Romana como a autêntica versão das Escrituras em latim, apesar de muitos estudiosos a considerarem pobre e até apontarem falhas graves.

4. TRADUÇÕES PARA O PORTUGUÊS.

O processo da tradução da Bíblia foi feito de forma lenta. As primeiras traduções eram de porções da Bíblia.

4.1. Traduções parciais.

“Venturoso” ou “Bem-Aventurado”. A despeito de esse título ter sido atribuído a D. Manuel como o principal incentivador das grandes navegações, mais bem-aventurado que esse rei português foi um de seus antecessores, D. Diniz (1279-1325), por ter sido a primeira pessoa a traduzir para a língua portuguesa o texto bíblico, tornando assim possível a futura grande navegação dos leitores de língua portuguesa pelo imenso mar da Palavra de Deus.

Grande conhecedor do latim clássico e leitor da Vulgata, D. Dinis resolveu enriquecer o português traduzindo as Sagradas Escrituras para o nosso idioma, tomando como base a Vulgata latina. Embora lhe faltasse perseverança e só conseguisse traduzir os vinte primeiros capítulos do livro de Gênesis, esse seu esforço o colocou em uma posição historicamente anterior a alguns dos primeiros tradutores da Bíblia para outros idiomas, como João Wycliffe por exemplo, que só em 1380 traduziu as Escrituras para o inglês.

Fernão Lopes afirmou em seu curioso estilo de cronista do século XV, que D. João I (1385- 1433), um dos sucessores de D. Diniz ao trono português, fez grandes letrados tirar em linguagem os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo, para que aqueles que os ouvissem fossem mais devotos acerca da lei de Deus (Crônica de D. João I, segunda parte). Esses “grandes letrados” eram vários padres que também se utilizaram da Vulgata latina em seu trabalho de tradução.

Enquanto esses padres trabalhavam, D. João I, também conhecedor do latim, traduziu o livro de Salmos, que foi reunido aos livros do Novo Testamento traduzidos pelos padres. Seu sucessor, D. João II, outro grande defensor das traduções do texto bíblico, mandou gravar no seu cetro a parte final do versículo 31 de Romanos 8: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”, atestando assim quanto os soberanos portugueses reverenciavam a Bíblia.

Outras traduções em língua portuguesa, realizadas em Portugal, são dignas de menção:

  • Os quatro evangelhos, traduzidos em elegante português pelo padre jesuíta Luiz Brandão.
  • No inicio do século XIX, o padre Antônio Ribeiro dos Santos traduziu os Evangelhos de Mateus e de Marcos, ainda hoje inéditos. [17]

4.2. Tradução completa: João Ferreira de Almeida.

Coube a João Ferreira de Almeida a grandiosa tarefa de traduzir pela primeira vez para o português o Antigo e o Novo Testamento. Nascido em 1628, em Torre de Tavares, nas proximidades de Lisboa, João Ferreira de Almeida, quando tinha doze anos de idade, mudou-se para o sudeste da Ásia. Após viver dois anos na Batávia (atual Jacarta), na ilha de Java, Indonésia, Almeida partiu para Málaca, na Malásia, e lá, pela leitura de um folheto em espanhol acerca das diferenças da cristandade, converteu-se do catolicismo à fé evangélica. No ano seguinte começou a pregar o evangelho no Ceilão (hoje Sri Lanka) e em muitos pontos da costa de Malabar.

Não tinha ele ainda dezessete anos de idade quando iniciou o trabalho de tradução da Bíblia para o português, mas lamentavelmente perdeu o seu manuscrito e teve de reiniciar a tradução em 1648.

Por conhecer o hebraico e o grego, Almeida pôde utilizar-se dos manuscritos dessas línguas, calcando sua tradução no chamado Textus Receptus, do grupo bizantino. Durante esse exaustivo e criterioso trabalho, ele também se serviu das traduções holandesa, francesa (tradução de Beza), italiana, espanhola e latina (Vulgata).

Em 1676, João Ferreira de Almeida concluiu a tradução do Novo Testamento, e naquele mesmo ano remeteu o manuscrito para ser impresso na Batávia; todavia, o lento trabalho de revisão a que a tradução foi submetida levou Almeida a retomá-la e enviá-la para ser impressa em Amsterdã, na Holanda. Finalmente, em 1681 surgiu o primeiro Novo Testamento em português, trazendo no frontispício os seguintes dizeres, que transcrevemos ipsis litteris:

O Novo Testamento, isto he, Todos os Sacro Sanctos Livros e Escritos Evangélicos e Apostólicos do Novo Concerto de Nosso Fiel Salvador e Redentor Iesu Cristo, agora traduzido em português por Joio Ferreira de Almeida, ministro pregador do Sancto Evangelho. Com todas as 1icenças necessárias. Em Amsterdam, por Viuva de J. V. Someren. Anno 1681.

Milhares de erros foram detectados nesse Novo Testamento de Almeida, muitos deles produzidos pela comissão de eruditos que tentou harmonizar o texto português com a tradução holandesa de 1637. O próprio Almeida identificou mais de dois mil erros nessa tradução, e outro revisor, Ribeiro dos Santos, afirmou ter encontrado número bem maior.

Logo após a publicação do Novo Testamento, Almeida iniciou a tradução do Antigo, e, ao falecer, em 6 de agosto de 1691, havia traduzido até Ezequiel 41.21. Em 1748, o pastor Jacobus op den Akker, de Batávia, reiniciou o trabalho interrompido por Almeida, e cinco anos depois, em 1753, foi impressa a primeira Bíblia completa em português, em dois volumes. Estava, portanto concluído o inestimável trabalho de tradução da Bíblia por João Ferreira de Almeida.

Apesar dos erros iniciais, ao longo dos anos estudiosos evangélicos têm depurado a obra de Almeida, tornando-a a preferida dos leitores de fala portuguesa.[18]

5. A BÍBLIA NO BRASIL.

Não sabemos exatamente como a Bíblia chegou a nosso país. O que sabemos é apenas um pedaço da história. Contudo, podemos dividir a história da Bíblia no Brasil em dois períodos: traduções parciais e traduções completas.

5.1. Traduções parciais.

Em 1847 publicou-se, em São Luís do Maranhão, O Novo Testamento, traduzido por frei Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, que se baseou na Vulgata. Esse foi, portanto, o primeiro texto bíblico traduzido no Brasil. Essa tradução tornou-se famosa por trazer em seu prefácio pesadas acusações contra as “Bíblias protestantes, que, segundo os acusadores, estariam falsificadas” e falavam “contra Jesus Cristo e contra tudo quanto há de bom”.

Em 1879, a Sociedade de Literatura Religiosa e Moral do Rio de Janeiro publicou o que ficou conhecida como A primeira edição brasileira do Novo Testamento de Almeida. Essa versão foi revista por José Manoel Garcia, lente do Colégio D. Pedro; pelo pastor M. P. B. de Carvalhosa, de Campos, Rio de Janeiro, e pelo primeiro agente da Sociedade Bíblica Americana no Brasil, pastor Alexandre Blackford, ministro do evangelho no Rio de Janeiro.

Harpa de Israel foi o título que o notável hebraísta P. R. dos Santos Saraiva deu à sua tradução dos Salmos publicada em 1898.

Em 1909, o padre Santana publicou sua tradução do Evangelho de Mateus, vertida diretamente do grego. Três anos depois, Basílio Teles publicou a tradução do Livro de Jó, com sangrias poéticas. Em 1917, foi a vez de J. L. Assunção publicar o Novo Testamento, tradução baseada na Vulgata latina.

Traduzido do velho idioma etíope por Esteves Pereira, o livro de Amós surgiu isoladamente no Brasil em 1917. Seis anos depois, J. Basílio Pereira publicou a tradução do Novo Testamento e do Livro dos Salmos, ambos baseados na Vulgata. Por essa época surgiu no Brasil (infelizmente, sem indicação de data) a Lei de Moisés (Pentateuco), edição bilíngue hebraico-português, preparada pelo rabino Meir Masiah Melamed.

O padre Huberto Rohden foi o primeiro católico a traduzir no Brasil o Novo Testamento diretamente do grego. Publicada pela instituição católica romana Cruzada Boa Esperança, em 1930, essa tradução, por estar baseada em textos considerados inferiores, sofreu severas críticas.[19]

5.2. Traduções completas.

Em 1902, as sociedades bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil patrocinaram nova tradução da Bíblia para o português, baseada em manuscritos melhores que os utilizados por Almeida. A comissão constituída para tal fim, composta de especialistas nas línguas originais e no vernáculo, entre eles o gramático Eduardo Carlos Pereira, fez uso de ortografia correta e vocabulário erudito. Publicado em 1917, esse trabalho ficou conhecido como Tradução brasileira. Apesar de ainda hoje apreciadíssima por grande número de leitores, essa Bíblia não conseguiu firmar-se no gosto do grande público.

Coube ao padre Matos Soares realizar a tradução mais popular da Bíblia entre os católicos na atualidade. Publicada em 1930 e baseada na Vulgata, essa tradução possui notas entre parênteses defendendo os dogmas da Igreja Romana. Por esse motivo recebeu apoio papal em 1932.

A primeira revisão da Bíblia em português feita pela Trinitarian Bible Society (Sociedade Bíblica Trinitária) foi iniciada no dia 16 de maio de 1837. Essa decisão foi tomada seis anos após a formação da Sociedade. O primeiro projeto escolhido para a publicação da Bíblia numa língua estrangeira pela Sociedade foi o português. O rev. Thomas Boys, do Trinity College, Cambridge, foi encarregado de liderar o empreendimento. No ano de 1969, em São Paulo, foi fundada a Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, com o objetivo de revisar e publicar a Bíblia de João Ferreira de Almeida como a Edição corrigida e revisada fiel ao texto original.

Em 1943, as Sociedades Bíblicas Unidas encomendaram a um grupo de hebraístas, helenistas e vernaculistas competentes uma revisão da tradução de Almeida. A comissão melhorou a linguagem, a grafia de nomes próprios e o estilo da Bíblia de Almeida.

Em 1948 organizou-se a Sociedade Bíblica do Brasil destinada a “Dar a Bíblia à Pátria”. Essa entidade fez duas revisões no texto de Almeida, uma mais aprofundada, que deu origem à Edição revista e atualizada no Brasil, e uma menos profunda, que conservou o antigo nome Corrigida.

Em 1967, a Imprensa Bíblica Brasileira, criada em 1940, publicou a sua Edição revisada de Almeida, cotejada com os textos em hebraico e grego. Essa edição foi posteriormente reeditada com ligeiras modificações.

Mais recentemente, a Sociedade Bíblica do Brasil traduziu e publicou A Bíblia na linguagem de hoje (1988). O propósito básico dessa tradução tem sido o de apresentar o texto bíblico numa linguagem comum e corrente. Em 2000 foi lançada uma edição revisada com o nome Nova tradução na linguagem de hoje (NTLH).

Em 1990, a Editora Vida publicou a sua Edição contemporânea da Bíblia de Almeida. Essa edição eliminou arcaísmos e ambiguidades do texto quase tricentenário de Almeida, e preservou, sempre que possível, as excelências do texto que lhe serviu de base.

Uma comissão constituída de especialistas em grego, hebraico, aramaico e português, coordenada pelo Rev. Luiz Sayão, trabalhou em uma nova tradução das Escrituras para a língua portuguesa, sob o patrocínio da Sociedade Bíblica Internacional, com o título Nova versão internacional – NVI. A tradução começou em 1990 e em 1991 foi publicado o Novo Testamento. Finalmente em 2000 foi publicada a tradução completa da NVI.[20]


BIBLIOGRAFIA.

1. Introdução à Bíblia.

GEISLER, Norman L; NIX, William E. (1997) Introdução Bíblica: como a Bíblia chegou até nós. São Paulo, SP: Vida.

MEIN, John. (1990) A Bíblia e como ela chegou até nós. 8ª ed. Rio de Janeiro: JUERP.

2. Dicionários Bíblicos e Enciclopédias.

CHAMPLIN, Russell N. (2013) Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. Vol 01: A-C. 11ª ed. São Paulo: Hagnos.

______ (2013) Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. Vol 05: P-R. 11ª ed. São Paulo: Hagnos.

DOUGLAS, J. D. (org.) (2006) O Novo dicionário da Bíblia. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova.

PFEIFFER, Charles F; VOS, Howard F; REA, John. (2007) Dicionário bíblico Wycliffe. 2ª ed. Rio Janeiro: CPAD.


[1] Os sumerianos eram habitantes da nação mais antiga conhecida da Mesopotâmia – a Suméria. Esta nação estava situada na região sul da Babilônia, na metade sul do Iraque. (Pfeiffer, Vos e Rea, 2007, p. 1858).

[2] Pfeiffer, Vos e Rea, 2007, p. 669, 670; Geisler, Nix, 1997, p. 131.

[3] Champlin, 2013, p. 1032.

[4] Pfeiffer, Vos e Rea, 2007, p. 670.

[5] Pfeiffer, Vos e Rea, loc. cit.

[6] Douglas (org.), 2006, p. 435.

[7] Douglas (org.), loc. cit.

[8] Champlin, 2013, p. 55; Douglas (org.), 2006, p. 436.

[9]<http://www2.ibb.unesp.br/Museu_Escola/Ensino_Fundamental/Origami/Documentos/indice_origami_papel.htm>. Acesso em 17/06/2016.

[10] Douglas (org.), op. cit., p. 437.

[11] Douglas (org.), 2006, p. 437-438.

[12] Mein, 1990, p. 30-31.

[13] Este capítulo foi extraído da Bíblia de referência Thompson, com adaptações. O texto é da autoria de Jefferson Magno Costa e Abraão de Almeida.

[14] Geisler, Nix, 1997, p. 148.

[15] Mein, 1990, p. 32.

[16] Este capítulo foi extraído da Bíblia de referência Thompson. O texto é da autoria de Jefferson Magno Costa e Abraão de Almeida.

[17] Extraído de Geisler, Nix 1997, p. 255-257.

[18] Extraído de Geisler, Nix, 1997, p. 257-259.

[19] Extraído de Geisler, Nix, 1997, p. 259-260.

[20] Extraído de Geisler, Nix, 1997, p. 260-262, com adaptação.


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