As glórias de Cristo: sua glória na humilhação

Por Rev. Dr. Tim Donachie.

Uma das coisas mais impressionantes a respeito do Senhor Jesus Cristo é o fato de que, quando Ele veio a este mundo, voluntariamente deixou de lado a glória que possuía no céu junto de Seu Pai e assumiu sobre Si a “semelhança da carne do pecado” (Rm 8:3). Não é difícil perceber por que o simples fato de o santo Filho de Deus vir viver neste mundo marcado pelo pecado já poderia ser considerado, por si só, uma imensa humilhação; mas houve muito, muito mais do que isso.

1. Ele foi “feito sob a lei”

Desde a criação, todos os seres humanos foram obrigados a guardar a lei de Deus em seus mínimos detalhes, e o fracasso em fazê-lo traria condenação e juízo (Gn 2:16-17). Quando Adão desobedeceu e caiu, tornou-se impossível para os homens cumprir a lei de Deus. Como Paulo lembrou à igreja em Roma, foi por meio da desobediência de um só homem que a condenação veio sobre todos os homens (Rm 5:18). Se homens e mulheres haveriam de ser aceitos por um Deus justo e santo, era necessário que alguém interviesse e cumprisse a lei em favor deles. Foi exatamente isso que o Senhor Jesus Cristo fez ao vir ao mundo. Que condescendência maravilhosa e gloriosa: o Legislador e Senhor do céu e da terra tornar-se sujeito à Sua própria lei, a fim de cumpri-la em favor daqueles que a haviam quebrado!

2. Ele esteve sujeito às “misérias desta vida”

O Breve Catecismo descreve um aspecto da humilhação de Cristo como o fato de Ele ter suportado “as misérias desta vida”.[1] Há diversos elementos da vida terrena de Jesus que, com razão, se enquadram nessa descrição.

Ele assumiu uma natureza humana com todas as suas fragilidades. Aceitou as limitações da humanidade e as fraquezas inerentes a essa condição: cansaço (Jo 4:6), fome (Mc 11:12), tristeza (Jo 11:35), dor (Mt 27:26) e morte (Lc 23:46).

Ele viveu uma vida de pobreza – um local de nascimento emprestado, casas emprestadas, um barco emprestado para pregar, um cenáculo emprestado para a última ceia, um jumentinho emprestado para a entrada triunfal e um túmulo emprestado na morte. A única pessoa que tinha direito a tudo acabou sem nada, tornou-se servo (Mt 8:20).

Ele sofreu os ataques contínuos de Satanás (Hb 4:15).

Suportou oposição, desprezo e perseguição (Hb 12:3). Foi acusado de enganar o povo (Jo 7:12); acusado de violar a lei (Mc 3:2); acusado de estar aliado a Satanás (Mt 12:24); repreendido como comilão e beberrão (Mt 11:19); tratado como fanático e louco (Jo 10:20).

De muitas maneiras, o Senhor Jesus Cristo experimentou uma vida dura e difícil, não isenta das provações e tribulações enfrentadas por tantas pessoas – estando, de fato, sujeito às “misérias desta vida”.

3. Ele sofreu a ira de Deus

Não foram, porém, as vicissitudes comuns da vida humana que constituíram a maior humilhação do Senhor Jesus Cristo – ainda que, sem dúvida, tenha sido profundamente humilhante para o Senhor da glória “esvaziar-se a Si mesmo e assumir a forma de servo”. Aquele que existira eternamente em perfeita comunhão de amor pactual com o Pai e com o Espírito Santo colocou-Se agora numa condição em que seria exposto à ira e ao justo desagrado de Seu Pai celestial. Essa foi a Sua maior humilhação.

O fato de o Senhor Jesus Cristo tornar-Se homem significou não apenas que Ele Se limitou aos contornos de um corpo humano, mas também que Se tornou sujeito à morte. De fato, foi para isso que Ele assumiu “a semelhança da carne do pecado”: para que pudesse “provar” a morte em favor daqueles que o Pai Lhe havia dado. A morte é a penalidade do pecado, e, se os homens haveriam de ser salvos do pecado, essa penalidade precisava ser paga por alguém que não tivesse culpa pessoal alguma a expiar. Assim, o Senhor Jesus deixou a glória do céu para viver como homem em um mundo sob a maldição de Deus.

O mundo em que Ele foi chamado a viver estava repleto de perversidade e desobediência, entre pessoas que blasfemavam o nome de Seu Pai e se recusavam a submeter-se à Sua autoridade ou a honrar a Sua Palavra. Além disso, Ele viveu constantemente sob a sombra do Calvário. Em inúmeras ocasiões, o Senhor Jesus Cristo lembrou aos Seus discípulos que viera à terra com um único propósito: “dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45).

A humilhação do Senhor Jesus Cristo na morte não diz respeito apenas ao fato de Sua morte na cruz, mas também a todos os acontecimentos que cercaram a crucificação. Tudo o que envolveu Sua morte foi cuidadosamente ordenado para acumular humilhação sobre humilhação. Ele foi traído por um dos Seus, veementemente negado por um de Seus amigos mais próximos, preso como um criminoso comum, exposto ao escárnio, à zombaria e aos abusos, falsamente condenado e açoitado. Por mais terríveis que essas coisas tenham sido, algo ainda pior estava por vir.

A morte física da crucificação foi horrível, excruciante e prolongada; mas, no contexto do judaísmo, tratava-se de uma morte maldita (Dt 21:23; Gl 3:13). Aqui residiu a verdadeira agonia e humilhação da cruz, pois foi ali que a ira de Deus contra o pecado foi derramada em sua medida mais plena sobre aquele a quem Deus chamou de “meu Filho amado”. Ali se revelou a negrura do pecado juntamente com a santidade tremenda de Deus. Ali o amor de Deus por Seu povo foi magnificamente demonstrado, e ali a humilhação do Senhor Jesus Cristo atingiu o seu ápice, quando Ele clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.

E, ainda assim, Sua humilhação não estava completa. Depois de ser tirado da cruz, Ele foi sepultado – o ato final da vida humana – tornando completa a identificação de Cristo com o Seu povo.

Como tudo isso pode ser considerado glorioso? A glória não está tanto no que foi feito, mas no porquê foi feito. O nascimento, a vida, o sofrimento, a morte e o sepultamento de Jesus foram gloriosos porque o propósito era cumprir o plano eterno de Deus para redimir para Si um povo. A glória será vista na imensa multidão que ninguém pode contar, de toda tribo, língua e nação, que estará diante do trono de Deus, louvando-O para todo o sempre (Ap 7:9-10).


Nota

[1] Pergunta 27 do Breve Catecismo de Westminster (Nota do tradutor).

Fonte

DONACHIE, Tim. The Glories of Christ: His Glory in Humiliation. Good News, Airdrie, Scotland, p. 4-5, março, 2015. Disponível em: link. Acesso em: https://www.edinburghrpcs.org/wp-content/uploads/2012/02/Good-News-Spring-2015.pdf. Data de acesso: 24 de janeiro de 2026. Tradução: Samuel S. Gomes


As glórias de Cristo: sua glória na humilhação está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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