Por Samuel S. Gomes.
Introdução
A santificação do Dia do Senhor ocupa um lugar central na vida cristã e no culto reformado. Longe de ser uma prática meramente cerimonial ou cultural, o domingo (o sábado cristão) é uma ordenança divina, estabelecida por Deus para Sua glória e para o bem espiritual de Seu povo. A Escritura ensina que “o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27) e identifica o primeiro dia da semana como “o dia do Senhor” (Apocalipse 1:10). Assim, o correto entendimento e a fiel observância desse dia são essenciais para uma vida cristã ordenada segundo a vontade de Deus.
A preparação antecipada do Dia do Senhor
O Dia do Senhor não começa apenas quando o domingo amanhece, mas deve ser lembrado e preparado antecipadamente. O quarto mandamento ordena: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar” (Êxodo 20:8), o que pressupõe não apenas a guarda do dia, mas também a preparação prévia para ele.
Os negócios e ocupações ordinárias da vida devem ser organizados de modo que não se tornem impedimentos à santificação do dia santo. O Senhor instruiu Israel no deserto: “Amanhã é repouso, o santo sábado do Senhor; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o hoje” (Êxodo 16:23). Esse princípio revela que a negligência na preparação compromete a obediência.
Além disso, a preparação deve ser espiritual. O salmista declara: “Preparado está o meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração” (Salmos 57:7), demonstrando que o coração deve ser disposto antecipadamente para encontrar-se com Deus em culto, descanso e comunhão.
Um dia inteiro separado ao Senhor
O Dia do Senhor deve ser celebrado como santo durante todo o dia, tanto em público quanto em particular. O Senhor afirma: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia” (Isaías 58:13), deixando claro que todo o dia pertence a Ele.
Por isso, exige-se uma santa cessação dos trabalhos desnecessários: “Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho” (Êxodo 20:10). A Escritura também condena o uso do sábado para atividades seculares e comerciais (Neemias 13:15-19), bem como palavras, pensamentos e práticas que desviem o coração das coisas espirituais.
Esse descanso não é vazio, mas consagrado. O salmista declara: “Bom é louvar ao Senhor, e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” (Salmos 92:1), salmo que, historicamente, está associado ao dia de descanso santo.
O cuidado com a alimentação ea vida familiar
A organização da alimentação nesse dia deve refletir sabedoria cristã e amor ao próximo, para que ninguém seja desnecessariamente impedido de santificar o Dia do Senhor. O Senhor ordenou: “Fique cada um no seu lugar; ninguém saia do seu lugar no sétimo dia” (Êxodo 16:29), indicando cuidado com excessos e deslocamentos desnecessários.
No âmbito familiar, cada lar é chamado a preparar-se espiritualmente. O Senhor ordena: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos” (Deuteronômio 6:6-7). A oração deve incluir súplicas pela proclamação fiel da Palavra: “Orando também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra” (Colossenses 4:3); “Finalmente, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor tenha livre curso” (2 Tessalonicenses 3:1). Esses exercícios privados preparam o coração para uma comunhão mais frutífera com Deus nas ordenanças públicas.
A centralidade do culto público
O culto público ocupa lugar central na santificação do Dia do Senhor. A igreja apostólica se reunia no primeiro dia da semana: “E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo pregava-lhes” (Atos 20:7); “No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar” (1 Coríntios 16:2).
A Escritura também exorta: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns” (Hebreus 10:25). Todos os fiéis devem reunir-se diligentemente, participando de todo o culto, em unidade: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor” (Salmos 122:1). O culto público é um meio ordinário pelo qual Deus edifica Seu povo e manifesta Sua presença no meio da congregação.
O uso santo do tempo restante
O tempo entre ou após as reuniões públicas deve ser santamente empregado. O justo é descrito como aquele que “tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite” (Salmos 1:2). Os pais são exortados: “E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor” (Efésios 6:4).
A edificação mútua também é ordenada: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente” (Colossenses 3:16). Entre os deveres próprios desse dia estão o canto de salmos e hinos: “Vinde, cantemos ao Senhor” (Salmos 95:1), bem como as obras de misericórdia: “Porque tive fome, e destes-me de comer” (Mateus 25:35); “A religião pura e imaculada… é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tiago 1:27). Assim, o Dia do Senhor deve ser considerado um deleite: “Se chamares ao sábado deleitoso” (Isaías 58:13).
O fundamento bíblico e confessional do sábado cristão
A Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus estabeleceu um dia em sete para ser santificado a Ele, conforme a lei moral: “Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra… e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou” (Êxodo 20:11).
Esse princípio remonta à criação: “E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou” (Gênesis 2:3). Com a ressurreição de Cristo, ocorrida no primeiro dia da semana – “E no fim do sábado… no primeiro dia da semana” (Mateus 28:1) – o dia de adoração foi transferido para o domingo, chamado de Dia do Senhor: “Achei-me em espírito no dia do Senhor” (Apocalipse 1:10).
Esse dia continuará até o fim do mundo, pois Cristo declarou: “Não cuideis que vim destruir a lei… até que o céu e a terra passem, nenhum jota ou um til se omitirá da lei” (Mateus 5:17-18).
O sábado cristão é santificado quando os crentes, tendo preparado seus corações e ordenado previamente seus afazeres comuns, guardam durante todo o dia um santo descanso e se dedicam ao culto e às obras de misericórdia: “Se apartares do sábado o teu pé… então te deleitarás no Senhor” (Isaías 58:13-14); “É lícito fazer bem nos sábados” (Mateus 12:12).
Conclusão
A santificação do Dia do Senhor é um sinal da aliança entre Deus e Seu povo: “Santificai os meus sábados, pois servirão de sinal entre mim e vós” (Ezequiel 20:12). Quando corretamente compreendido e observado, esse dia torna-se fonte de renovação espiritual, edificação da igreja e testemunho fiel ao mundo. Guardar o Dia do Senhor é, portanto, um privilégio santo e uma responsabilidade contínua do povo de Deus.
A fiel observância do Dia do Senhor preserva a igreja da perda de sua identidade espiritual em meio a uma geração que despreza o descanso santo e absolutiza tanto o trabalho quanto o entretenimento. Ao separar esse dia para o culto, o povo de Deus declara, na prática, que sua esperança não está nas obras humanas, mas na graça soberana do Senhor. A Escritura exorta: “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (Isaías 55:6), lembrando que o Dia do Senhor é um tempo especialmente concedido para essa busca diligente.
Concluímos que a santificação do domingo aponta para o descanso eterno prometido aos redimidos. Cada Dia do Senhor antecipa, ainda que imperfeitamente, a comunhão plena que será desfrutada na presença de Deus. A Palavra afirma: “Portanto resta ainda um repouso para o povo de Deus” (Hebreus 4:9, ACF). Assim, ao guardar com reverência e alegria o Dia do Senhor, a igreja confessa sua fé no descanso final e aprende, semana após semana, a viver não para este mundo passageiro, mas para a glória eterna de Deus.
Bibliografia consultada
CALVINO, João. As Institutas. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2022.
O Padrão de Westminster (1647). Araçoiaba da Serra, SP: Publicações O Pacto, 2024.
The Westminster confession of faith. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1996, In: Logos Bible Software.

A santificação do Dia do Senhor à luz do Diretório de Culto Público a Deus e da Confissão de Fé de Westminster está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe um comentário