Por que os protestantes não reconhecem o Natal como instituição bíblica?

Natal

Este é o nome do dia em que costuma ser celebrada a idólatra e romanista celebração da missa, em honra ao nascimento de Cristo. Tanto quanto hoje se pode averiguar, esse dia foi pela primeira vez separado para tal finalidade por autoridade do bispo de Roma, por volta do final do quarto século ou início do quinto.

As seguintes razões podem ser apresentadas para que ele não seja observado religiosamente pelos protestantes:

1. Não reconhecemos a autoridade de sua instituição. Se a observância religiosa do Natal nos tivesse sido ordenada divinamente, ou se houvesse evidência, nos escritos dos apóstolos, de que eles o observaram ou ensinaram as igrejas por eles fundadas a fazê-lo, então nos sentiríamos obrigados a guardar esse dia. Contudo, como protestantes, há muito tempo renunciamos à autoridade do papa de Roma e continuamos a rejeitar por completo o seu direito de legislar sobre nós, seja sobre nossa consciência, seja sobre nossa conduta.

Foi um princípio essencial da Reforma, que consideramos sólido e o único que poderia ter sido seguro, rejeitar tudo aquilo que se mostrasse manifestamente como invenção humana e, assim, reconduzir a igreja, tanto em sua doutrina quanto em sua prática, à simplicidade incorrupta dos tempos apostólicos. Contudo, por vezes se pergunta: que possível objeção pode haver à observância religiosa do Natal? O princípio mais salutar da Reforma, já mencionado, é por si só uma objeção suficiente. Pois, se começarmos a sobrecarregar a igreja com observâncias não divinamente instituídas, abrimos a porta para uma licença universal, e ninguém pode prever qual será o fim disso. Ainda assim, insiste-se, com uma aparência de piedade acima do comum: “Parece tão apropriado celebrar o nascimento de nosso bendito Salvador”. Sim, de fato; porém, não nos é lícito multiplicar observâncias simplesmente porque nos parecem apropriadas. Em menor grau, também pareceria apropriado celebrar os nascimentos de Moisés, de Pedro, de Paulo e de muitos outros homens ilustres. Se o nosso juízo de conveniência for a regra, em vez das Escrituras, não há segurança alguma. Devemos nos apegar ao princípio da Reforma e permanecer firmes na palavra de Deus, ou imediatamente retornaremos à antiga estrada da corrupção romanista. Esse é um caminho perigoso de se trilhar, e a verdadeira sabedoria consiste em evitá-lo por completo.

2. Uma segunda razão é que não se sabe que Cristo tenha nascido no dia 25 de dezembro. Já vimos um esforço bastante elaborado e pretensamente erudito para provar que o Natal corresponde ao verdadeiro dia de seu nascimento. Contudo, a verdade é que ninguém sabe, e nenhum homem honesto afirma saber, em que dia tal evento ocorreu. Na igreja grega, ele é celebrado no dia 6 de janeiro, e não vemos motivo para supor que essa data esteja menos próxima da realidade do que o dia 25 de dezembro. Assim, ainda que, se o dia exato fosse conhecido, talvez pudéssemos admitir a conveniência de conceder-lhe alguma consideração especial, não vemos agora sequer a conveniência de celebrar o nascimento de nosso Senhor em um dia mais do que em outro. E isso, suspeitamos, conduz à verdadeira doutrina sobre o assunto: os cristãos devem celebrar o dom inefável de Deus todos os dias do ano.

Se tivesse sido o desígnio de Deus que o evento específico do nascimento de seu Filho fosse comemorado na igreja por meio de um dia santo anual, ele teria, por sua providência, cuidado para que tal dia não se perdesse. Foi seu desígnio que o dia em que Jesus ressuscitou dentre os mortos fosse observado como o sábado cristão, e por isso somos particularmente informados de que esse evento ocorreu no primeiro dia da semana. Contudo, o historiador inspirado, ao introduzir o relato do nascimento de nosso Senhor, não se aproxima de uma designação precisa do tempo além desta expressão: “E aconteceu naqueles dias…” (Lucas 2:1).

3. Oponemo-nos à observância do Natal pela igreja porque cremos que a sua instituição original como festividade cristã não foi apenas não autorizada, mas também perversa.

Ela foi introduzida à força entre as observâncias religiosas, juntamente com muitas outras práticas para as quais não se pode imaginar outra razão senão a disposição de se fazer um compromisso com o paganismo. Os fatos foram, em resumo, os seguintes. A sagacidade da igreja romanista não tardou em perceber que o principal obstáculo a uma aceitação fácil e universal do cristianismo era a aversão natural do mundo à simplicidade e à pureza de suas doutrinas e práticas. Os antigos pagãos do Império mostravam-se muito relutantes em abandonar o seu sistema voluptuoso e carnalmente atraente por outro que oferecia tão pouco para satisfazer o apetite por ostentação e autocomplacência. Aos “Salomões eclesiásticos” daquele tempo ocorreu a ideia de que a obra de conversão poderia ser facilitada tornando o cristianismo mais atraente em sua forma e mais agradável aos gostos populares. Em outras palavras, por meio de um compromisso, levando o evangelho ao menos até a metade do caminho no processo de conformação, a fim de encontrar os idólatras relutantes. Estes estavam acostumados a templos suntuosos, cerimoniais pomposos, um sacerdócio ricamente trajado e numerosas ocasiões festivas e dias santos. Raciocinando, portanto, como muitos raciocinam hoje em defesa do Natal – que seria algo apropriado e em nada objetável – as autoridades da igreja romanista julgaram igualmente muito apropriado, e nada objetável, alterar e emendar o sistema cristão de modo a torná-lo mais palatável ao povo. Não os acusamos de maldade intencional, mas de um grave erro de julgamento, no qual não teriam caído se tivessem tido a devida reverência pela palavra de Deus e uma compreensão correta da espiritualidade da verdadeira religião. Infelizmente, já havia se estabelecido entre eles a doutrina de que as Escrituras não eram a única regra de fé e prática, e a espiritualidade da religião já se encontrava inteiramente perdida entre a grande maioria de seus professos seguidores. Sob tais auspícios, a obra de “emendação” avançou rapidamente. As igrejas cristãs cresceram e se transformaram em vastos e magníficos templos. Em lugar dos poucos e simples ritos dos tempos apostólicos, multiplicaram-se cerimônias solenes e imponentes. O traje singelo dos primeiros pregadores foi abandonado em favor de esplêndidas vestes sacerdotais, e toda ocasião imaginável foi aproveitada para pompas, procissões e festividades. Para tornar a transição ainda mais fácil para o povo, muitos dos principais festivais foram instituídos exatamente nos mesmos dias em que estavam acostumados a celebrar as festas da antiga religião, e foram ordenados a ser observados com as mesmas práticas. Assim aconteceu com o Natal. Os antigos romanos, ao final das Saturnais – que começavam no dia 19 de dezembro –  tinham o costume de celebrar, no dia 25 desse mês, a festa em honra ao nascimento de Sol. Nessa ocasião, traziam grinaldas e ramos de plantas sempre-verdes das florestas para ornamentar o templo e os altares de seu deus, e reuniam-se de maneira tumultuada para concluir as orgias saturnais com ainda maior excesso de desregramento. Esse foi o dia escolhido para a festa cristã em honra ao nascimento de Cristo; e, para que a mudança não parecesse significativa, conservou-se a prática de adornar as igrejas com ramos de sempre-verdes e de fazer do Natal, em conexão com o culto religioso, um dia de alegria especial. E assim chegou até os nossos dias – com diversão, frivolidade, sempre-verdes e tudo mais!


Fonte

THE REFORMED PRESBYTERIAN MAGAZINE, January, 1851.


Por que os protestantes não reconhecem o Natal como instituição bíblica? está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0, © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados. Tradução: Samuel S. Gomes.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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