“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9, ACF).
A palavra pax, em latim, significa “paz”. Da mesma raiz deriva, em português, o verbo “pacificar” e o substantivo “pacifista”. No entanto, quando o Senhor Jesus Cristo fala dos “pacificadores”, não se refere àqueles que são meramente passivos ou pacifistas. O pacifista é aquele que rejeita a guerra por completo, que afirma não se levantar nem mesmo para defender os que precisam de proteção. O mesmo Cristo que proferiu esta bem-aventurança também disse a Seus discípulos que não viera trazer paz, mas espada. Ordenou-lhes que estivessem preparados, inclusive armados, ao enviá-los às aldeias para evangelizar. Os primeiros cristãos, portanto, não eram pacifistas; adoravam um Deus a quem os Salmos chamam de “Homem de Guerra”.
Diante disso, o que o Senhor Jesus quer dizer aqui? Paulo nos orienta que, “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens”. Os pacificadores são aqueles dispostos a demonstrar força, mas que possuem a sabedoria e a virtude da contenção. Diferentemente dos pacifistas, que se recusam a lutar mesmo diante do mal que ameaça seus lares, os pacificadores não buscam o conflito, mas estão prontos para enfrentá-lo, se necessário. Calvino expressa isso com clareza ao comentar este versículo: “Por pacificadores, Ele quer dizer aqueles que não apenas buscam a paz e evitam contendas, tanto quanto lhes é possível, mas também trabalham para resolver as diferenças entre os outros, aconselhando todos os homens a viverem em harmonia e a eliminarem toda ocasião de ódio e discórdia”.
Vemos, portanto, que a paz é algo difícil de alcançar e, por mais irônico que pareça, às vezes é preciso lutar por ela.
Essa verdade se aplica também ao campo político. Muitas vezes, certos conflitos só podem ser resolvidos pela força. Um país injustamente invadido “luta pela paz”. E, no cotidiano, o árduo trabalho de reconciliar pessoas pode parecer igualmente uma batalha. Não somos pacificadores apenas porque evitamos brigas; tornamo-nos pacificadores quando reconhecemos os conflitos em nossos relacionamentos e buscamos restaurá-los. Isso exige colocar o outro em primeiro lugar, demonstrando amor e disposição para servir. Exige reconhecer nossas próprias falhas e ser rápidos em pedir perdão. Exige, ainda, enfrentar as diferenças com amor e respeito, buscando a paz de modo ativo e sincero. Como disse Calvino, “trabalhamos para resolver as diferenças”. Fazemos o trabalho difícil. Lutamos pela paz.
A palavra pax foi usada por impérios para descrever a paz que impunham. Quando Roma conquistou o mundo conhecido, inaugurou-se a Pax Romana: não havia mais guerra dentro das fronteiras do império. A Grã-Bretanha, séculos depois, proclamou sua Pax Britannica. Podemos questionar os méritos desses impérios; contudo, é inegável que todos buscavam, ainda que de modo imperfeito, uma forma de paz. E nós também lutamos por um império. Contudo, não falo do império brasileiro, mas do Reino de Cristo. Ele é chamado “Rei dos reis” por uma razão. Isso não é mero superlativo, nem significa apenas que Ele é o melhor entre os reis, mas que todos os reis, reinos e soberanos deste mundo estão sujeitos a Ele. Nos tempos antigos, os imperadores chamavam-se “reis dos reis”; portanto, o Reino de Deus é, de fato, um Império, o Império tanto terreno quando celestial.
Assim, quando evangelizamos o mundo, sendo usados por Deus como instrumentos para expandir o Seu Reino, estamos lutando pela Pax Christi: o tempo em que a verdadeira paz reinará sobre a Terra, porque tudo estará sob o domínio de Cristo. E, ao nos chamar para essa missão, o Senhor nos fez pacificadores. Devemos agir como tais mostrando ao mundo a paz que excede todo o entendimento e que habita em nós. Devemos lutar pelo Reino, não aceitando a derrota, pois sabemos que a vitória pertence Àquele que vai à nossa frente.
Busquemos, pois, a paz, não a passividade, mas uma coragem temperada pelo amor e pelo zelo pelo Evangelho de Cristo.
Aplicação.
1. O que significa, para mim, ser um verdadeiro “pacificador” segundo Cristo ou seja, alguém que busca a paz ativamente, e não apenas evita conflitos?
2. Em quais áreas da minha vida tenho preferido a passividade à coragem temperada pelo amor?
3. Tenho sido rápido em reconhecer minhas falhas e pedir perdão, ou deixo que o orgulho mantenha a distância e o conflito?
4. Como posso “lutar pela paz” em meus relacionamentos familiares, na igreja e na sociedade, sem perder o espírito manso e o coração de servo de Cristo?
5. De que maneira tenho contribuído para a expansão do Reino de Deus (o “Império de Cristo”) que traz a verdadeira paz ao mundo?
6. Quando o Senhor olhar para mim, poderá me chamar de “filho de Deus” por causa da paz que promovo?

Estudos devocionais sobre as Bem-aventuranças – Semana 7, Guia 1: Bem-aventurados os pacificadores está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0, © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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