Autor: O autor é desconhecido, embora a tradição judaica e cristã atribua a autoria a Salomão.
Propósito: Celebrar a bênção do amor romântico entre marido e mulher.
Data: Provavelmente entre 960 e 931 a.C.
Verdades Principais:
- Deus concedeu o amor romântico no casamento como um dom maravilhoso.
- Marido e mulher devem desfrutar do relacionamento emocional e físico dentro da aliança conjugal.
Autor.
A tradição entre judeus e cristãos sustenta que Salomão foi o autor de todo o livro (ver 1 Reis 4:32). De fato, as evidências internas situam a composição do livro durante ou próximo ao período do reinado de Salomão, embora não seja possível afirmar com certeza quem o escreveu.
As evidências a favor da autoria salomônica permitem outras interpretações. Vejamos:
- O versículo de abertura declara: “Cantares, que é de Salomão” (Cantares 1:1), mas o hebraico pode igualmente indicar que o livro é “para” Salomão (isto é, dedicado a ele).
- É possível que essa inscrição se refira apenas à primeira seção do livro, como ocorre em Provérbios 1:1 (ver “Introdução ao Livro de Provérbios”).
- Salomão é mencionado diversas vezes (Cantares 1:5; 3:7, 3:9, 3:11; 8:11-12), mas algumas referências parecem retratá-lo de forma mais distante. Curiosamente, Cantares 3:6-11 o elogia, enquanto Cantares 8:10-12 apresenta possíveis críticas a suas práticas políticas.
- A menção a Tizra (primeira capital do reino do Norte sob Jeroboão I, 930-909 a.C.), em paralelo com Jerusalém (Cantares 6:4), foi interpretada por alguns como indício de que o livro teria sido escrito após a divisão do reino. No entanto, essa comparação positiva entre as cidades pode indicar um período anterior à cisão, durante o reinado de Salomão, quando ainda havia unidade entre as tribos.
- Tentativas de situar o livro em uma data muito posterior, com base em argumentos linguísticos, não se mostraram convincentes.
Data e local da redação.
Considerando o conjunto de evidências disponíveis, é mais plausível que o livro tenha sido escrito em Judá, possivelmente em Jerusalém, por volta do século X a.C., durante ou logo após o reinado de Salomão. O conteúdo trata do amor romântico de forma condizente com a linguagem e os símbolos da realeza, embora seu uso não se restrinja aos círculos palacianos, sendo aplicável também ao contexto comum da aliança matrimonial.
Objetivo e características.
A palavra “Cântico” no título (Cantares 1:1) é o termo hebraico comum para uma melodia alegre, sem conotação religiosa específica. A expressão “cântico dos cânticos” significa “o mais excelente dos cânticos” (cf. “Rei dos reis” em Apocalipse 17:14), sinalizando desde o início que se trata de um cântico singular e de qualidade excepcional.
Com exceção do título, todo o livro é composto em poesia. Trata-se de uma obra poética de amor, com versos curtos, rítmicos, repletos de imagens vívidas e linguagem intensamente sensorial. O foco recai mais sobre sentimentos do que sobre fatos objetivos. Por exemplo, o livro não se propõe a verificar se a mulher descrita em Cantares 6:9 era de fato “perfeita” ou “única” em termos demonstráveis; trata-se da expressão sincera de afeto do amado por ela.
O Livro de Cantares é uma celebração lírica do amor, uma efusão de sentimentos de pessoas que experimentam as alegrias, dores e impulsos do amor humano. É um livro para aqueles que desejam aprender ou recordar como Deus honrou o amor entre marido e mulher.
Personagens e interpretação.
O livro parece apresentar dois protagonistas principais: uma camponesa (identificada como “sulamita” em Cantares 6:13) e um pastor (ver Cantares 1:7; 6:3). Salomão é mencionado em diversos momentos (1:5; 3:7, 9, 11; 8:11–12), mas não figura como o amado principal. Outros personagens incluem a mãe da moça, seus irmãos, vigias e as mulheres de Jerusalém.
A presença de tais personagens levou alguns estudiosos a interpretar o livro como um drama em que a jovem ama um pastor e rejeita Salomão, retratado como intruso. Outros, porém, consideram improvável que Salomão fosse retratado de forma negativa em uma obra por ele escrita ou dedicada a ele. Ademais, muitos leitores encontram dificuldade em identificar uma linha narrativa contínua e atribuir com segurança os discursos aos diferentes personagens.
Se a hipótese da rejeição de Salomão for correta, o livro pode ter sido escrito por ele mesmo, refletindo sobre uma experiência rara de recusa amorosa, algo incomum para quem possuía setecentas esposas e trezentas concubinas (1 Reis 11:3). Neste caso, o Cântico teria sido composto em sua velhice, como um lamento por um tipo de amor verdadeiro que ele já não conhecia. Por outro lado, se Salomão não é um intruso, talvez ele se apresente como tanto pastor quanto rei refletindo a tipologia de Cristo, que é Pastor e Rei de Sua noiva, a Igreja.
Unidade literária e estrutura.
Diante dessas complexidades, alguns estudiosos modernos sugeriram que o Cântico é uma antologia de poemas de amor com temas similares, e não um drama unificado. No entanto, essa divisão não é necessária nem proveitosa. O próprio texto fornece indícios de sua unidade: um refrão recorrente aparece quase idêntico em três passagens (2:7; 3:5; 8:4), dirigido às mulheres de Jerusalém, com a mensagem central: “Não despertem o amor antes que ele o queira.” Esse refrão fornece estrutura e suspense narrativo.
O casal enfrenta separações, hostilidade e obstáculos, mas o refrão aponta para a consumação inevitável do relacionamento. Ao final do livro, a união pública dos amantes caminhando até a casa dos pais (8:5) marca a conclusão da jornada amorosa. Seguem-se reflexões sobre a natureza do amor (8:6-7), culminando no clímax da obra. Um posfácio (8:8-14) encerra o livro retomando e resumindo seus principais temas.
Entre os anseios iniciais e a consumação final, há uma sequência central de sonhos (3:1; 5:2), onde a jovem imagina o casamento e a união sexual que o acompanha com elementos de erotismo, insegurança, perdas e esperanças.
Cristo em Cantares.
Existe uma longa tradição, tanto na teologia patrística quanto na reformada, de interpretar o Livro de Cantares à luz da relação entre Cristo e a Igreja. Essa abordagem traça analogias entre as experiências amorosas do casal descrito no livro e o relacionamento de Cristo com Seu povo redimido.
No Antigo Testamento, a imagem de Deus como Esposo e de Israel como Sua esposa é recorrente (por exemplo, Jeremias 2:2; Oséias 2:14-20). No Novo Testamento, essa tipologia é aprofundada com Cristo reivindicando a Igreja como Sua noiva (cf. Efésios 5:22-33). Nesse sentido, uma aplicação legítima de Cantares é enxergar o amor descrito entre os dois amantes como reflexo, ainda que imperfeito, do amor de Jesus por Sua Igreja.
Essa interpretação é, inclusive, o uso predominante de Cantares nos Padrões de Westminster, onde se destaca a dimensão espiritual do relacionamento entre Cristo e os redimidos.
Pelo menos três aspectos fundamentais desse amor são destacados e aplicáveis aos leitores contemporâneos:
- Autodoação: Cristo Se entrega voluntariamente por amor ao Seu povo, oferecendo-Se como sacrifício em nosso lugar.
- Desejo: Jesus deseja Seu povo com zelo; sente, de forma santa e intensa, tanto a dor da separação quanto o prazer da comunhão.
- Compromisso: Cristo permanece fiel à Igreja, comprometido com o Seu bem eterno, assim como um esposo amoroso cuida zelosamente de sua esposa.
Por sua vez, a Igreja encontra em Cristo abrigo, ternura e proteção. Ela O honra por Seu cuidado constante e vive para a glória dEle. Ambos, Cristo e a Igreja, anseiam pelo dia da consumação final, quando será celebrada a grande festa das bodas do Cordeiro, no retorno glorioso do Senhor (Apocalipse 19:7, 19:9).
Perguntas.
1. Qual é o propósito central de Cantares, conforme apresentado no texto?
2. Que argumentos sustentam e ao mesmo tempo desafiam a autoria salomônica do livro? Dê dois exemplos.
3. Como a expressão “Cântico dos cânticos” em 1:1 contribui para a compreensão do título e da natureza do livro?
4. Segundo o texto, que tipo de linguagem predomina na composição do livro, e qual é o seu principal foco temático?
5. Qual é a relevância da cidade de Tizra mencionada em Cantares 6:4 para a datação do livro?
6. Como o refrão repetido em Cantares 2:7; 3:5; e 8:4 ajuda a sugerir uma unidade literária ao livro?
7. Descreva duas possíveis interpretações do papel de Salomão na narrativa de Cantares.
8. Quais são os três aspectos centrais do amor de Cristo pela Igreja, conforme a interpretação cristológica tradicional do livro?
9. Segundo o texto, de que forma o amor humano descrito no Cântico pode refletir o relacionamento espiritual entre Cristo e a Igreja?
10. Como Cantares se encaixa dentro da tradição reformada, especialmente segundo os Padrões de Westminster?
Fonte:
PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.
Fonte: Overview Song of Solomon. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Julho de 2025.

Introdução ao Livro de Cantares está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe um comentário