Introdução ao Livro de Eclesiastes.

Autor: Salomão ou um sábio anônimo pertencente à corte real.

Propósito: Demonstrar que uma vida analisada exclusivamente sob uma perspectiva humana e realista leva inevitavelmente ao pessimismo; e, por outro lado, oferecer esperança por meio da obediência humilde e da fidelidade a Deus até o julgamento final.

Data: Entre 930 e 586 a.C.

Verdades principais:

  • Quando a existência é vista apenas à luz dos esforços e percepções humanas, ela parece vazia, sem sentido e desesperançada.
  • Os seres humanos são incapazes de compreender plenamente a sabedoria divina que governa e sustenta todas as coisas.
  • Reconhecendo suas limitações, os fiéis alcançarão uma visão piedosa da vida ao renovarem sua reverência a Deus e sua lealdade aos Seus mandamentos.
  • No julgamento final, Deus corrigirá todas as distorções e anomalias da vida, julgando com justiça tanto o bem quanto o mal.

Autoria.

Tradicionalmente, atribui-se a autoria de Eclesiastes ao rei Salomão. O personagem denominado “Pregador” (ou “Mestre”, dependendo da tradução), mencionado em Eclesiastes 1:1, é fortemente associado a Salomão por suas credenciais: descendência davídica (Ec 1:1), reinado em Jerusalém (Ec 1:12), sabedoria incomparável (Ec 1:16) e riqueza extraordinária (Ec 2:4-9). Essa identificação levou alguns intérpretes a situar a escrita do livro durante o período de apostasia de Salomão (cf. 1 Reis 11:1-43), ou em um momento posterior, no qual ele teria refletido com arrependimento sobre seus erros passados.

Apesar da evidente influência do pensamento salomônico, não é possível afirmar com certeza que Salomão seja o autor do livro. Diferente de Provérbios, que atribui explicitamente muitos de seus provérbios a Salomão, Eclesiastes nunca menciona seu nome diretamente. A expressão “filho de Davi” (Ec 1:1) pode igualmente ser traduzida como “descendente de Davi”, ou até mesmo como uma referência a um oficial da corte davídica.

Há ainda outros elementos que sugerem uma autoria distinta. Por exemplo, a frase “eu era rei” (Ec 1:12), no pretérito, soa estranha vindo de alguém que permaneceu rei até sua morte. Além disso, a afirmação de que outros reis governaram em Jerusalém antes dele (Ec 1:16) parece improvável, embora não impossível.

O conteúdo do livro também levanta dúvidas quanto à autoria salomônica. Ele reflete sobre temas como as frustrações da vida (Ec 1:2-8), a inevitabilidade da morte (Ec 3:1-15), a injustiça (Ec 4:1-3), a opressão por governantes estrangeiros (Ec 5:7; 5:9-19) e o sofrimento causado por autoridades (Ec 8:9). Essas experiências são difíceis de harmonizar com a posição privilegiada que Salomão ocupava.

Diante disso, é plausível que, após o reinado de Salomão, um sábio da corte tenha compilado, editado e estruturado reflexões de natureza sapiencial, algumas possivelmente oriundas do próprio Salomão , acrescentando introduções e conclusões (Ec 1:1; 12:9-14) que enquadram o conteúdo. É importante lembrar, contudo, que, como todos os sábios da corte real de Jerusalém, esse autor se baseou profundamente na tradição salomônica da sabedoria (cf. Pv 25:1, referente aos sábios de Ezequias).

Data e local da escrita.

A associação de Eclesiastes com a corte davídica torna Jerusalém o local mais provável de sua composição. No entanto, a data do livro permanece incerta. Se Salomão for de fato o autor, o texto deve ser datado do século X a.C. Por outro lado, a referência ao “filho de Davi” (Ec 1:1) pode indicar que o livro foi escrito após o fim da monarquia em Jerusalém (586 a.C.). Assim, o intervalo mais plausível para a datação do livro vai de 930 a 586 a.C.

Objetivo e Características.

O título “Eclesiastes” deriva das traduções da Vulgata (latim) e da Septuaginta (grego) para o termo hebraico Qoheleth, possivelmente com o sentido de “líder da assembleia”.

Eclesiastes trata de como o povo de Deus deve viver em meio às dificuldades, frustrações e enigmas da existência. O livro não é uma apologia dirigida a ímpios ou rebeldes, mas sim um conselho sábio para aqueles que conhecem os caminhos do Senhor, mas se sentem perplexos diante das aparentes contradições da vida. Nesse aspecto, aproxima-se do livro de . Enquanto os discursos de buscam compreender a sabedoria divina diante do sofrimento do justo, Eclesiastes adota uma abordagem mais filosófica e existencial, tratando da condição humana de maneira geral.

O autor também desafia os limites da sabedoria proverbial tradicional (ver Ec 12:9), confrontando as expectativas de justiça e prosperidade frequentemente associadas à sabedoria com a realidade dura de um mundo decaído, governado por uma sabedoria divina insondável. Ao mesmo tempo, o livro encoraja à fidelidade a Deus em meio às perplexidades que muitos enfrentam.

Ao final, a conclusão de Eclesiastes ecoa a de : apesar da nossa incapacidade de compreender plenamente os desígnios de Deus, a resposta correta e sábia do ser humano é: “Teme a Deus e guarda os Seus mandamentos” (Ec 12:13; cf. Jó 28:28). Ou seja, devemos submeter-nos à vontade divina, reconhecendo Sua suprema sabedoria e bondade, mesmo quando a vida parece contraditória, até mesmo para aqueles que O temem.

Estrutura e desenvolvimento.

As palavras do Pregador são organizadas em três grandes ciclos (Ec 1:3-3:8; 3:9-6:7; 6:8-12:7), cada um introduzido por questões semelhantes: “Que proveito tem o homem…?” (Ec 1:3), “Que proveito tem o trabalhador…?” (Ec 3:9), e “Que vantagem tem o sábio…?” (Ec 6:8). Cada ciclo se inicia com uma introdução (Ec 1:3-11; 3:9-21; 6:8-12), seguida de seções variadas e estruturadas de modo a provocar reflexão. As palavras são utilizadas de forma multifacetada, construindo unidades literárias que reforçam os temas centrais e convidam à meditação.

Apesar da repetição de tópicos e expressões, há um progresso claro no pensamento ao longo do livro. O autor entrelaça os temas do trabalho e da sabedoria. O primeiro ciclo apresenta três pares de seções (Ec 1:12-15 e 1:16-18; 2:1-11 e 2:12-17; 2:18-26 e 3:1-8), levando à conclusão de que, embora o esforço e a sabedoria proporcionem certo grau de satisfação, tudo é finalmente anulado pela inevitabilidade da morte.

Os temas emparelhados de trabalho e sabedoria são então aprofundados nos dois ciclos seguintes. O segundo ciclo (Ec 3:9-6:7) explora o trabalho humano em contraste com as obras perfeitas e duradouras de Deus, aconselhando o desfrute das bênçãos simples que Ele oferece, mesmo em meio à opressão. O terceiro ciclo (Ec 6:8-12:7) trata da limitação da sabedoria humana diante dos caminhos incompreensíveis de Deus, incentivando o leitor a viver com alegria e diligência, ainda que a retidão e o esforço nem sempre sejam recompensados nesta vida.

Mensagem central.

A conclusão do autor de que a morte torna vãos todos os esforços humanos para alcançar sabedoria e permanência (Ec 1:14, 17; 2:11, 17) não deve ser interpretada, como pensaram alguns intérpretes antigos, como uma rejeição da vida em sociedade ou da atividade cultural. Ao contrário, o livro exorta o povo de Deus a desfrutar a vida apesar de sua aparente futilidade e incertezas, e a trabalhar com vigor e propósito (Ec 9:7-10). Essa visão realista entende a vida como um dom de Deus (Ec 3:13; 5:19) aos que O temem e obedecem aos Seus mandamentos (Ec 5:1-7; 12:13-14).

Eclesiastes confronta a grande pergunta: como viver fielmente diante de Deus (Ec 6:12) em um mundo onde o Criador bom (Ec 3:11, 14) e o Juiz justo (Ec 3:17) permite que adversidades sobrevenham tanto aos justos quanto aos ímpios? Nem sempre os indivíduos recebem nesta vida o que parece ser seu merecido (Ec 7:13-14; 8:14; 9:1). A fé na sabedoria divina, mesmo quando não pode ser totalmente compreendida, deve ser exercida tanto diante da opressão (Ec 3:22-4:3) quanto diante da transitoriedade da vida e da certeza da morte (Ec 9:7-10).

Cristo em Eclesiastes.

O livro de Eclesiastes se relaciona com Cristo e o Novo Testamento de diversas maneiras.

Em primeiro lugar, na Sua primeira vinda, Cristo, que é a sabedoria de Deus (1 Co 1:24, 30), revelou essa sabedoria àqueles que O seguiram (Cl 1:9; 2:2-3; 3:16). Por meio da fé em Cristo, temos acesso à sabedoria divina (Tg 1:5), uma sabedoria que ultrapassa a compreensão dos crentes do Antigo Testamento. Assim como Eclesiastes conclama ao temor e à obediência (Ec 12:13), o Novo Testamento ecoa esses mesmos temas (At 6:7; 9:31; 2 Co 5:11; 9:13; 10:5; 2 Ts 1:8; 1 Pe 1:2; 2:17; Ap 14:7; 15:4; 19:5), chamando todos a abraçar o evangelho de Cristo como a verdadeira sabedoria de Deus (1 Co 1:21-24; Cl 1:9-12, 28; Tg 3:13-17).

Em segundo lugar, ainda que Cristo já tenha vindo, Eclesiastes nos lembra que os eleitos de Deus continuam a viver como peregrinos e estrangeiros neste mundo (1 Pe 1:1). Embora tenhamos sido perdoados e vivificados em Cristo, continuamos enfrentando as frustrações e tensões de um mundo caído, até que Ele venha pôr fim a esta presente era maligna. Enquanto isso, os enigmas da vida podem ser tão intensos que nem sabemos como orar adequadamente. No entanto, temos a confiança de que o Espírito de Cristo, que conhece perfeitamente a mente de Deus, intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8:18-23).

Em terceiro lugar, o Novo Testamento confirma que o julgamento final mencionado por Eclesiastes (Ec 12:14) ocorrerá quando Cristo retornar em glória (Ap 19:1–21). Nesse dia, a sabedoria de Deus, tantas vezes oculta e incompreensível aos olhos humanos, será plenamente revelada, e toda justiça será manifestada diante de todos.

Perguntas.

1. Quem é tradicionalmente apontado como autor do livro de Eclesiastes e por que essa autoria é debatida?

2. Qual é o propósito central do livro de Eclesiastes, segundo a introdução apresentada?

3. Entre quais datas é provável que o livro de Eclesiastes tenha sido escrito, e por que há incerteza quanto a isso?

4. De que maneira o livro de Eclesiastes se assemelha ao livro de Jó em relação aos temas abordados?

5. Qual é a mensagem final de Eclesiastes sobre como o ser humano deve viver diante das limitações da vida?

6. Como o livro de Eclesiastes está estruturado em termos de desenvolvimento literário e temático?

7. De que modo Eclesiastes aborda a questão da sabedoria humana em comparação com a sabedoria divina?

8. Quais aspectos da experiência humana são destacados como frustrantes ou paradoxais no livro de Eclesiastes?

9. Como o livro de Eclesiastes se conecta com o Novo Testamento e com a pessoa de Cristo, segundo o texto?

10 Qual é a relação entre o desfrute da vida, o trabalho e o temor de Deus em Eclesiastes?


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book of Ecclesiastes. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Julho de 2025.


Introdução ao Livro de Eclesiastes está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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