Introdução ao Livro de Provérbios.

Autor: Diversos autores, incluindo Salomão, Ezequias, Agur, Lemuel e outros.

Propósito: Oferecer um recurso didático voltado ao ensino da sabedoria, especialmente direcionado à formação dos jovens da família real, mas também aplicável a todas as demais famílias em Israel.

Data: Aproximadamente entre 960 e 686 a.C.

Verdades principais:

  • Deus é a fonte de toda sabedoria e a revelou aos seres humanos para que dela aprendam.
  • A verdadeira sabedoria só pode ser adquirida no contexto da reverência a Deus.
  • Os jovens necessitam da instrução de pais e mães experientes e sábios.
  • Os líderes do povo de Deus, em especial, devem ser educados nos caminhos da sabedoria.

Autoria.

O livro de Provérbios menciona diversos autores: Salomão (Pv 1:1; 10:1; 25:1), Ezequias (Pv 25:1), Agur (Pv 30:1) e Lemuel (Pv 31:1). Alguns estudiosos, porém, argumentam que certas seções atribuídas a Salomão podem ter sido escritas por outros em seu nome. No entanto, há pelo menos cinco razões sólidas para aceitar a autoria salomônica dos capítulos 1 a 24:

  1. Testemunho bíblico direto: Além das atribuições no próprio livro, outras Escrituras confirmam que Salomão compôs numerosos provérbios (cf. 1 Reis 4:29–34). A sabedoria incomparável de Salomão é amplamente reconhecida em passagens como 1 Reis 3:5–14; 5:7, 12; 10:1–9, 23–24; 11:41; 2 Crônicas 1:7–12; 9:1–8, 22–23. Sua dedicação à coleta e redação de provérbios é plenamente compatível com esse retrato.
  2. Similaridade com a literatura sapiencial antiga: O livro de Provérbios compartilha estrutura e conteúdo com obras sapienciais do Egito, Mesopotâmia e Levante, anteriores à época de Salomão. Por exemplo, a literatura sapiencial egípcia possui dois estilos: um com título e máximas (cf. Pv 24:23–34), e outro com título extenso (Pv 1:1), preâmbulo (Pv 1:2–9:18), título breve (Pv 10:1) e máximas (Pv 10:2–22:16). Tais paralelos apontam para uma composição durante a monarquia israelita. Destaca-se, nesse contexto, a semelhança entre Provérbios 22:17–24:22 e a “Sabedoria de Amenemope”, texto egípcio possivelmente contemporâneo a Salomão.
  3. Contato cultural e literário internacional: É plausível supor que a literatura de outras nações tenha chegado a Israel na época do intenso comércio internacional promovido por Salomão. Arquivos egípcios datados de cerca de 1350 a.C. contêm textos literários babilônicos usados por escribas em treinamento diplomático. Da mesma forma, é razoável imaginar que instruções sapienciais estrangeiras tenham alcançado Israel e que Salomão, homem de grande erudição, tenha se familiarizado com elas.
  4. Padrão comum na realeza do antigo Oriente Próximo: As atribuições a Salomão (Pv 1:1; 10:1; 25:1), Ezequias (Pv 25:1) e Lemuel (Pv 31:1) refletem práticas comuns entre os reis do antigo Oriente, que frequentemente patrocinavam a produção de literatura sapiencial. Muitos provérbios são dirigidos a reis e cortesãos ou proferidos por eles. A literatura sapiencial, nesse contexto, era usualmente cultivada em ambientes palacianos, tornando Salomão o candidato ideal para essa produção.
  5. Estilo literário característico: A estrutura em paralelismo binário (duas linhas) presente nos capítulos 1 a 24, e também nos capítulos 25 a 29, reforça a autoria salomônica. Esse estilo é recorrente em textos sapienciais e outros gêneros literários desde o terceiro milênio a.C. até o meio do primeiro milênio a.C. Após 500 a.C., o uso desse paralelismo começou a declinar, tanto na literatura egípcia quanto na aramaica.

Data e local da escrita.

O rei Salomão (ver “Introdução: Autor”) começou a reinar por volta de 970 a.C., podendo ter exercido co-regência com Davi (ver nota sobre 1 Reis 2:11). Supondo que Salomão tenha governado por alguns anos antes de o Senhor lhe conceder sabedoria (cf. 1 Reis 2–3) — e considerando ainda um período para o estudo e compilação de seus provérbios — uma data inicial plausível para as seções atribuídas a ele é por volta de 960 a.C. Já o rei Ezequias reinou até aproximadamente 687/686 a.C., o que estabelece a data mais tardia para as partes do livro organizadas sob sua administração. Lemuel, por sua vez, é uma figura desconhecida, o que impede o uso de sua menção para determinar uma data precisa de composição.

O contexto da corte real deve ser entendido como o cenário primário da escrita de Provérbios, o que o distingue do ambiente em que seus ensinos foram disseminados. Ao contrário de outras obras sapienciais do antigo Oriente Próximo, Provérbios não designa explicitamente um destinatário ou grupo social no título. Presume-se, portanto, que o livro tenha sido escrito para um público amplo, com a expectativa de que suas máximas fossem ensinadas nos lares piedosos. Salomão almejava transmitir sua sabedoria aos jovens de Israel, colocando seus provérbios na boca de pais tementes a Deus (Pv 1:8), tal como Moisés havia instruído quanto ao ensino da Lei no contexto doméstico (Dt 6:7–9).

As referências ao pai e ao(s) filho(s) no prólogo devem ser tomadas literalmente. A literatura sapiencial egípcia, por exemplo, é sempre dirigida aos filhos do autor, nunca a estudantes externos. A presença da mãe como figura de ensino — tanto da Lei Mosaica quanto da sabedoria salomônica — também reforça o ambiente doméstico (ver Êx 20:12; Lv 19:3; Dt 5:16; 6:6–9; 21:18–21; Pv 4:3; 6:20; 10:1; 15:20; 23:22, 24–25; 29:15; 31:1, 26–28; Lc 2:51; 2 Tm 1:5; 3:14). O uso de Provérbios na educação familiar encontra forte apoio em Provérbios 4:1–9, onde a família piedosa — incluindo avô, pai, mãe e filho — é retratada como responsável por transmitir a herança espiritual.

Objetivo e características.

Enquanto os livros históricos narram o desenvolvimento do Reino de Deus por meio das alianças com Israel, a literatura sapiencial bíblica raramente menciona explicitamente a eleição de Israel ou suas alianças, e quase não faz referência a eventos históricos da fé israelita. Ainda assim, integra-se perfeitamente à fé histórica de Israel por meio do apelo ao “temor do Senhor” (cf. Dt 6:5; Js 24:14; Pv 1:7). “Senhor” é o nome que expressa o compromisso pessoal de Deus com Israel (Gn 12:8; Êx 3:15; 6:2–8). Temê-Lo significa submeter-se à Sua vontade revelada — seja por meio de Moisés, seja por meio de Salomão — confiando que Ele cumprirá Suas promessas de vida aos fiéis e Suas ameaças de juízo aos infiéis. Moisés, Salomão e os profetas tinham o mesmo propósito: estabelecer o governo de Deus.

Embora complemente a teologia histórica do Antigo Testamento, Provérbios se concentra mais na vida cotidiana do que em eventos históricos; mais no ordinário do que no extraordinário; mais no indivíduo (sem ignorar seus relacionamentos sociais) do que na coletividade nacional; mais na experiência pessoal do que na tradição sagrada.

Infelizmente, Provérbios é frequentemente mal interpretado como uma fórmula de sucesso, saúde, felicidade e riqueza para quem seguir seus ensinamentos (ver Pv 3:1–10 e “Introdução aos Livros Poéticos e Sapienciais“). Embora relacione a sabedoria à prosperidade, muitos de seus benefícios são descrições do curso natural da vida. Pessoas sóbrias, por exemplo, tendem a prosperar mais que os bêbados (Pv 23:29–35); os de temperamento calmo têm melhores resultados do que os impulsivos (Pv 15:18; 19:19; 22:24; 29:22); os diligentes geralmente colhem mais benefícios do que os preguiçosos.

Além disso, muitos provérbios se equilibram mutuamente. Ainda que boa parte deles associe bênçãos aos justos e juízo aos ímpios, outros indicam que os ímpios prosperam e os inocentes sofrem. Por exemplo, Pv 10:2 afirma que os tesouros do ímpio são ganhos por meios corruptos, sugerindo que ele se beneficia às custas dos justos. No entanto, o versículo seguinte (Pv 10:3) mostra que o desejo dos ímpios será frustrado. Assim, o livro ensina que os ímpios prosperam por um tempo (Pv 10:2a), mas que, no fim, suas riquezas não os livrarão da morte (Pv 10:2b). Já os justos, mesmo que aflitos momentaneamente, serão preservados (Pv 10:3a).

Da mesma forma, os provérbios do tipo “melhor é” (por exemplo, “Melhor é o pouco com justiça do que grandes rendimentos com injustiça”, Pv 16:8) pressupõem a realidade de que, no presente, os ímpios podem desfrutar de maiores bênçãos materiais (cf. Pv 16:19; 17:1; 19:1, 22; 21:9, 19; 22:1; 25:24; 28:6; Sl 37:16; Ec 4:6). Para interpretar corretamente um provérbio, ele deve ser compreendido no contexto do livro como um todo, e não isoladamente.

Como manual de moral para encorajar os jovens à justiça, Provérbios naturalmente enfatiza a elevação dos justos, ainda que minimize as dificuldades que eles enfrentam. Por exemplo, a máxima “Ainda que o justo caia sete vezes, tornará a levantar-se, mas os ímpios são derrubados pela calamidade” (Pv 24:16) suaviza a dura realidade de que os justos, por vezes, são destruídos, em favor da esperança de restauração. Jó e Eclesiastes, por sua vez, tratam com mais realismo os sofrimentos dos justos antes de sua vindicação final.

Por fim, alguns provérbios ensinam claramente que os justos terão um futuro abençoado além da morte (cf. Pv 12:28; 14:32; 23:17). A imagem da “árvore da vida” em Provérbios representa simbolicamente a cura permanente que conduz à vida eterna (Pv 3:18; 11:30; 13:12; 15:4; cf. Gn 2:9; 3:24). A teologia da justiça presente no livro exige essa esperança. A cena inicial do pai instruindo seu filho em Pv 1 se assemelha à história de Caim e Abel: assim como Abel foi morto injustamente, também em Pv 1:10–19 o sangue inocente é derramado por pecadores gananciosos. Para que a justiça se cumpra — como Provérbios assegura (cf. Pv 3:31–35; 16:4–5) —, ela deve, necessariamente, ser realizada além dos limites da vida presente.

Cristo em Provérbios.

Assim como a Lei de Moisés, o livro de Provérbios também testifica de Cristo, revelando aspectos de Sua pessoa e obra. Na Lei, contemplamos a justiça e santidade daquele descendente de Abraão que herdaria as bênçãos da aliança de Deus e as mediaria a todas as nações. Em Provérbios — e na Literatura Sapiencial como um todo —, somos apresentados ao discernimento e à prática do verdadeiro discípulo sábio.

Somente o Senhor Jesus encarna plenamente essa sabedoria. Ele é o único que viveu de forma perfeita segundo o padrão de vida proposto por Provérbios. O livro, portanto, não apenas aponta para Cristo como a sabedoria de Deus encarnada (cf. 1 Co 1:24, 30; Cl 2:2–3), mas também delineia a imagem à qual todo o verdadeiro Israel será conformado, pela graça, mediante a fé: a semelhança de Jesus.


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book of Proverbs. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Julho de 2025.


Introdução ao Livro de Provérbios está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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