Em 1º de julho de 1643, os delegados da Assembleia de Westminster se reuniram pela primeira vez. Cento e vinte e um teólogos, juntamente com trinta representantes leigos, encontraram-se nas imediações da Abadia de Westminster, em Londres. A Assembleia é amplamente conhecida pelo trabalho que realizou na elaboração de documentos confessionais da fé reformada. A Confissão de Fé de Westminster exerceu um profundo impacto espiritual ao longo dos anos sobre igrejas presbiterianas, congregacionais e diversas igrejas batistas. Seu Catecismo Menor foi memorizado por gerações ao longo de três séculos. Por isso, é apropriado que se faça uma pausa para recordar o 382º aniversário dessa notável assembleia.
A Assembleia de Westminster não foi um concílio eclesiástico típico. Seus delegados foram nomeados pelo Parlamento inglês, que também definiu sua pauta — fruto de anos de intensos debates e frustrações. De fato, a Assembleia esteve inserida no contexto da agitação política que sacudiu a Inglaterra na década de 1640. A guerra civil e a posterior execução do rei constituíram o pano de fundo histórico dessa reunião extraordinária.
Desde a convocação do Longo Parlamento, em 1640, a maioria puritana ali presente passou a confrontar o rei Carlos I com demandas por reformas políticas, econômicas e religiosas. Esse confronto culminou na guerra civil, iniciada em 1642. Após alguns sucessos iniciais do rei nos campos de batalha, sua posição enfraqueceu, e ele se rendeu, em 1646, às forças escocesas aliadas ao Parlamento inglês. O rei foi executado em janeiro de 1649 — apenas um mês antes da conclusão dos trabalhos da Assembleia. No século XVII, a religião não era confinada ao âmbito privado; ela possuía amplas implicações públicas.
Em agosto de 1643, a aliança entre puritanos ingleses e presbiterianos escoceses, firmada por meio da Liga e Aliança Solenes, acrescentou cinco teólogos e três leigos à Assembleia. Antes da chegada dos delegados escoceses, os trabalhos se concentravam na revisão dos Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, visando transformá-los em uma nova confissão. Com a chegada dos escoceses, esse projeto foi suspenso, e a atenção da Assembleia voltou-se para a questão mais controversa: o governo da Igreja.
Inicialmente, a Assembleia dedicou grande parte de seus esforços a esse tema. O Parlamento já havia abolido o episcopado em 1643. A pergunta que se impunha era: que forma de governo deveria substituí-lo? A maioria dos membros do Parlamento e da Assembleia era presbiteriana, mas havia uma minoria congregacionalista influente. Muitos esforços foram feitos para se alcançar um consenso entre essas duas posições, mas sem êxito. A Assembleia recomendou um sistema presbiteriano para a Inglaterra, mas o crescimento do poder congregacionalista dentro do exército, sob a liderança de Oliver Cromwell, acabou neutralizando essa proposta. O presbiterianismo triunfaria apenas na Escócia.
A seguir, a Assembleia voltou-se para a questão do culto. Desde o início, essa era uma preocupação central dos puritanos, que se incomodavam com a permanência, na Igreja da Inglaterra, de práticas e cerimônias herdadas do catolicismo romano sem respaldo bíblico. Desejavam um culto que refletisse a simplicidade bíblica das demais igrejas reformadas da Europa. Rejeitavam a imposição de um livro de orações que violasse a consciência cristã. Como resposta, a Assembleia elaborou o Diretório de Westminster para o Culto Público a Deus, um guia para o culto nas igrejas, que permanece como uma clara expressão do caráter profundamente centrado na Palavra de Deus do culto puritano.
O trabalho na Confissão de Fé teve início no verão de 1644. O primeiro rascunho foi concluído dois anos depois e aprovado pelo Parlamento em 1647. O esforço investido na redação foi imenso, mas o resultado foi igualmente grandioso. Em 33 capítulos, a totalidade da verdade cristã é resumida, iniciando-se com a doutrina das Sagradas Escrituras e culminando com o Juízo Final.
Concluído esse trabalho, a Assembleia passou à elaboração de um catecismo. Os catecismos, tradicionalmente utilizados como ferramentas de ensino e pregação, organizavam doutrinas em perguntas e respostas para facilitar a compreensão e a memorização. Costumavam seguir a estrutura do Credo dos Apóstolos, dos Dez Mandamentos e da Oração do Senhor. Westminster manteve essa tradição, embora tenha preferido abordar a doutrina cristã de forma mais abrangente, em vez de seguir a exposição do Credo.
No início de 1647, decidiu-se compor dois catecismos. O Catecismo Menor apresenta a doutrina em 107 perguntas e respostas curtas e objetivas, começando com a célebre indagação: “Qual é o fim principal do homem?”. A resposta: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre”. A partir desse ponto teocêntrico, o restante do catecismo revela as grandes obras e os caminhos de Deus.
O Catecismo Maior, quase cinco vezes mais extenso, contém 196 perguntas e respostas mais elaboradas, sendo muito mais abrangente que o Menor. Destinado ao uso com adultos, traz também conteúdo histórico e polêmico mais desenvolvido. Embora hoje seja relativamente negligenciado entre presbiterianos, o Catecismo Maior guarda preciosos ensinamentos.
Uma característica marcante dos Padrões de Westminster — a Confissão e os catecismos — é o destaque dado à doutrina da aliança. No século XVII, essa doutrina havia evoluído significativamente dentro da teologia reformada. A relação entre a aliança das obras, feita com Adão, e a aliança da graça, em Cristo, tornou-se fundamental para a compreensão bíblica e cristológica no pensamento reformado.
As maiores realizações da Assembleia de Westminster — seu diretório, confissão e catecismos — continuam disponíveis aos cristãos contemporâneos. Esses documentos oferecem uma compreensão profunda da Palavra de Deus e instruem o crente reflexivo. Embora sua leitura nem sempre seja fácil, suas formulações, muitas vezes densas, recompensam aqueles que se dedicam a compreendê-las. Os puritanos do século XVII estavam entre os mais diligentes, fiéis e profundos estudiosos das Escrituras na história da Igreja. Os Padrões de Westminster constituem uma síntese e um legado inestimável desse labor teológico.
Por: W. Robert Godfrey ©️ Westminster Seminary California. Todos os direitos reservados. Fonte: The Assembly at the Abbey. Tradução: Samuel Sousa Gomes. julho de 2025.
382 anos da Assembleia de Westminster está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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No corpo do texto diz 350° aniversário.
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Caro irmão Anderson,
Agradecemos pela observação. A coreção foi feita.
Abraços!
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