Tempo de leitura: 13 minutos.
Autor: Moisés, Davi, Salomão, os filhos de Corá, os filhos de Asafe, Etã, o ezraíta, além de diversos autores anônimos.
Data: Aproximadamente entre 1440 e 400 a.C.
Propósito: Reunir uma coletânea de cânticos de adoração destinados a Israel, apropriados para uma ampla variedade de circunstâncias e experiências da vida.
Verdades Principais:
- Deus é digno de todo louvor.
- Deus protege e resgata os justos em tempos de necessidade.
- Deus abençoa os obedientes e julga os desobedientes.
- A revelação de Deus deve ser o fundamento da adoração.
- A adoração verdadeira expressa uma ampla gama de emoções, moldadas pelas experiências da vida.
Autoria e títulos.
Título do livro.
O título presente nas versões em português, Salmos, deriva da antiga tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta. Esse mesmo título é utilizado no Novo Testamento (cf. Lucas 20:42; 24:44; Atos 1:20). O termo grego pode ser traduzido como “Cânticos” e corresponde ao hebraico mizmor, derivado de uma raiz verbal que significa “cantar” ou “tocar um instrumento”, frequentemente encontrado nos títulos individuais dos salmos.
O título hebraico do livro é “Livro de Louvores”, o que é notável, considerando que os salmos de lamentação superam, em número, os hinos de louvor. Contudo, a maioria dos lamentos termina com uma expressão de confiança no Senhor. Além disso, ao longo do livro há uma transição progressiva dos lamentos para os cânticos de louvor.
Títulos individuais dos salmos.
Muitos, embora não todos, os salmos iniciam com títulos. No entanto, nos manuscritos hebraicos padrão, os títulos são frequentemente o primeiro versículo do salmo, estando também presentes na Septuaginta. Por isso, esses títulos são considerados parte do texto inspirado ou, no mínimo, provenientes de uma tradição antiga.
Os títulos podem ser classificados em cinco categorias principais: autoria, histórico, notações musicais, gênero e instruções litúrgicas. Um exemplo interessante ocorre em Habacuque 3, que apresenta um salmo com títulos antes e depois do corpo do poema. Os títulos de autoria e gênero aparecem no início (Hc 3:1), enquanto as instruções sobre o uso musical (“ao mestre de música”, Hc 3:19) e a instrumentação (“com instrumentos de corda”, Hc 3:19) surgem no final. Isso indica que, nos Salmos, títulos semelhantes podem ter pertencido originalmente ao salmo anterior.
Títulos de autoria.
A maioria dos títulos vincula o salmo a um indivíduo ou grupo específico, por meio de uma preposição hebraica que pode indicar dedicação (“a Davi”), tema (“a respeito de Davi”) ou autoria (“de Davi”). Em um dos poucos títulos que fornecem um contexto mais abrangente (Sl 18:1-50), é evidente que o autor é o próprio Davi.
Davi é, de longe, o autor mais citado. A maioria dos seus salmos se encontra nos dois primeiros livros do Saltério (ver seção sobre “Estrutura”), com uma pequena coleção também presente no final (Sl 138-145). A tradição que associa Davi à composição de salmos é amplamente confirmada nas Escrituras (cf. 1 Sm 16:14-23; 2 Sm 1:17-27; 2 Sm 22 com Sl 18; 2 Sm 23:1; 2 Cr 6:31; 15:16; 16:7; Am 6:5), deixando pouca margem para contestação quanto à sua autoria nos salmos que levam seu nome.
Outros autores mencionados nos títulos incluem Moisés (Sl 90), Salomão (Sl 72), os filhos de Corá (Sl 42-49; 84-85; 87-88), os filhos de Asafe (Sl 50; 73-83) e Etã, o ezraíta (Sl 89). Já os salmos sem atribuição de autoria (como o Sl 1) são frequentemente chamados de “salmos órfãos”.
Títulos históricos.
Menos salmos contêm títulos de cunho histórico em comparação aos de autoria (cf. Sl 3; 7; 18; 30; 34; 51; 52; 54; 56; 57; 59; 60; 63; 142). A autenticidade desses títulos é discutida entre estudiosos. Embora não haja evidência textual clara de que foram acrescentados posteriormente, alguns apontam possíveis inconsistências entre o título e o conteúdo do salmo (como no Sl 30) ou entre o título e os relatos históricos correspondentes (cf. Sl 56 e 1 Sm 21:10-15), sugerindo que sua inclusão possa ter ocorrido em uma fase editorial posterior. Por outro lado, argumenta-se que, se esses títulos fossem realmente adições posteriores, esperar-se-ia que os editores tivessem garantido maior harmonia entre título e conteúdo. Por exemplo, por que associar o Salmo 30 à dedicação do Templo, se o salmo não o menciona?
História e composição dos Salmos.
Os títulos históricos podem oferecer pistas sobre a origem dos salmos, mas são de utilidade limitada para sua interpretação. Embora um salmo possa ter sido composto em resposta a um evento específico, o autor geralmente evitava referências explícitas no corpo do texto. Assim, o título do Salmo 3 menciona a fuga de Davi de Absalão, mas o salmo começa de forma genérica: “Ó Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!”, e não: “Ó Senhor, Absalão se levantou contra mim!”. Isso se deve ao propósito litúrgico dos salmos, voltados para uso comunitário, de modo que expressassem emoções e temas com os quais o povo pudesse se identificar.
Ainda assim, esses títulos fornecem um vislumbre do processo de composição e oferecem ilustrações históricas das mensagens dos salmos. Por exemplo, o Sl 51 ganha profundidade quando lido à luz do pecado de Davi com Bate-Seba. Porém, a aplicação prática dos salmos não depende da reconstrução exata de seu contexto histórico – abordagem comum em comentários mais antigos.
Títulos de gênero.
Diversos termos nos títulos indicam o gênero literário dos salmos. Muitos deles são difíceis de compreender com precisão. Alguns termos são amplos e recorrentes, como mizmor (“salmo”, ver Sl 139) e shir (“cântico”). Outros são raros e de significado incerto, como shiggaion (ver Sl 7). Em certos casos, dois termos aparecem juntos em um único título (cf. Sl 30).
Apesar do interesse por essas designações antigas, as categorias de gênero utilizadas hoje são definidas com base no tom e no conteúdo dos salmos, mais do que nos títulos originais.
Notações musicais.
Alguns termos de gênero também funcionam como instruções musicais, como mizmor e shir. Outros termos, frequentemente obscuros, também aparecem, muitos dos quais podem indicar a destinação do salmo ao culto formal (por exemplo, “Ao mestre de música”; ver Sl 140). Alguns títulos parecem fazer referência a melodias conhecidas na época.
Outro termo musical recorrente fora dos títulos é a palavra Selá (Selah). Embora seu significado exato seja desconhecido, presume-se que tenha função musical ou litúrgica.
Instruções de adoração.
Alguns salmos contêm, em seus títulos, indicações específicas sobre seu uso no culto israelita. Os exemplos mais notáveis são os “Cânticos dos degraus” (Sl 120-134) e o salmo “Salmo e cântico para o dia o sábado” (Sl 92), que mostram como certos salmos estavam integrados ao calendário e à prática litúrgica do povo de Israel.
Estrutura.
Durante o período do Antigo Testamento, desde os dias de Moisés (Sl 90) até o período pós-exílico (Sl 126), novos salmos foram gradualmente adicionados ao livro de louvores. A estrutura resultante é complexa e não segue um princípio organizacional evidente em toda a obra. No entanto, algumas características marcantes merecem destaque.
A tradição antiga divide o Saltério em cinco livros, em paralelo simbólico aos cinco livros de Moisés. Cada livro termina com uma doxologia e apresenta outras características que o distinguem dos demais. Além disso, há agrupamentos menores de salmos unidos por autoria comum (como os Salmos 73-83, atribuídos aos filhos de Asafe), por uso litúrgico (como os Salmos 120-134, os cânticos de peregrinação), ou por tema (como os Salmos 93 e 96-100, com forte ênfase na realeza de Deus). Parece também que os Salmos 1 e 2 foram intencionalmente posicionados como uma introdução ao Saltério, funcionando como uma porta de entrada para o santuário poético dos salmos. Da mesma forma, os Salmos 146-150 formam um fecho grandioso, uma poderosa doxologia final repleta de louvor.
Gêneros.
O Saltério contém 150 composições poéticas distintas, cada uma com beleza e força próprias. Apesar dessa diversidade, muitas dessas canções compartilham características que permitem sua classificação em gêneros literários. As notas a seguir referem-se a essas principais categorias:
1. Hinos de Louvor: Esses salmos são facilmente reconhecíveis pelo louvor exuberante que prestam ao Senhor. Deus é celebrado tanto por quem Ele é quanto por suas ações poderosas e misericordiosas. Estruturalmente, esses hinos geralmente incluem um convite ao louvor, a exposição de motivos para esse louvor e uma confissão de fé. (Cf. Sl 8; 24; 29; 33; 47; 48).
2. Lamentos (ou Petições): Os lamentos representam o extremo oposto dos hinos em termos emocionais. Neles, o salmista expõe com sinceridade suas aflições diante de Deus revelando angústia, medo, amargura ou indignação. Os pedidos mais comuns incluem súplicas por livramento, refúgio ou justiça contra os inimigos. Normalmente, esses salmos incluem: invocação a Deus, exposição da queixa, expressão de confiança, petição e, muitas vezes, um voto de louvor. Quando apropriado, contêm também confissão de pecado. Não é incomum que um lamento inclua trechos com tom de louvor, dada sua estrutura flexível. (Cf. Sl 25; 39; 51; 86; 102; 120).
3. Salmos de Ação de Graças: Esses salmos eram apropriados após uma resposta divina ao clamor do salmista. Formam uma tríade com os hinos e os lamentos: o salmista louva quando se sente em comunhão com Deus, lamenta quando essa comunhão é interrompida, e agradece quando ela é restaurada. (Cf. Sl 18; 66; 107; 118; 138).
4. Cânticos de Confiança: Embora a confiança em Deus seja tema recorrente em muitos salmos, alguns são completamente dominados por esse sentimento. Geralmente são curtos e utilizam metáforas vívidas para expressar a segurança do salmista em Deus. (Cf. Sl 23; 121; 131).
5. Salmos de Realeza: A realeza é um conceito central nos salmos, tanto na figura divina quanto na figura do rei humano, especialmente Davi. Alguns salmos enfatizam de tal maneira a realeza de Deus (Sl 24; 47; 95) ou do rei davídico (Sl 20; 21; 45) que se destacam dentro do conjunto.
6. Salmos de Sabedoria: Apesar de estarmos acostumados a associar a sabedoria bíblica a livros como Provérbios, Jó e Eclesiastes, alguns salmos refletem claramente esse gênero. Trazem temas como o contraste entre o justo e o ímpio, típico da literatura sapiencial. O Salmo 1 é um exemplo notável. Outros exemplos incluem os Salmos 37 e 49. Para considerações específicas sobre a interpretação desses salmos, veja “Introdução aos Livros Poéticos e Sapienciais“.
Estilo e recursos poéticos.
A poesia é uma forma literária que valoriza a maneira como a mensagem é comunicada, estimulando não apenas o raciocínio, mas também a imaginação e a emoção. Frases como “O Senhor é meu pastor” (Sl 23:1) não apenas informam, mas evocam imagens poderosas e provocam sentimentos profundos. Para um aprofundamento nos elementos interpretativos da poesia bíblica, consulte “Introdução aos Livros Poéticos e Sapienciais”.
Paralelismo: Este é o recurso mais frequente na poesia hebraica. Ele estabelece conexões entre palavras ou frases, ampliando e aprofundando o significado do texto. Para uma explicação detalhada e exemplos, veja a seção dedicada na introdução mencionada acima.
Acrósticos: Outro recurso importante é o acróstico, em que as letras iniciais de cada linha ou estrofe seguem uma sequênciam, muitas vezes do alfabeto hebraico. O Salmo 119 é o exemplo mais conhecido: é composto por 22 estrofes, cada uma iniciada por uma letra diferente do alfabeto hebraico, e todas as linhas dentro da estrofe começam com essa mesma letra. Os acrósticos também podem formar palavras ou enfatizar unidade textual.
Teologia dos Salmos.
Assim como a formação do Saltério se estendeu por todo o período do Antigo Testamento, sua teologia também é ampla e abrangente, refletindo a totalidade da revelação veterotestamentária. Martinho Lutero referiu-se aos Salmos como “uma pequena Bíblia e o resumo do Antigo Testamento”.
Contudo, as verdades teológicas nos Salmos não são apresentadas de forma sistemática ou abstrata. Elas são transmitidas de maneira vivencial, enraizadas nas experiências do povo de Deus e expressas no contexto da fé da aliança. A teologia do Saltério nasce da vida em comunhão com Deus, marcada por louvor, lamento, gratidão, confiança e sabedoria, e revela a profundidade da relação entre Deus e seu povo.
Cristo nos Salmos.
Os leitores cristãos reconhecem corretamente a presença de Cristo em todo o Saltério. Todo o Antigo Testamento, incluindo os Salmos, aponta para a pessoa e a obra de Jesus Cristo, antecipando tanto o seu primeiro advento quanto sua segunda vinda, conforme revelado no Novo Testamento.
O próprio Jesus e os autores do Novo Testamento citaram extensivamente os Salmos para expressar aspectos cruciais da missão do Messias. Por exemplo, Jesus se apropriou do Salmo 22 ao clamar na cruz (Mt 27:46), e também aplicou o Salmo 110 à sua exaltação (Mt 22:41-46). Os Salmos, portanto, não apenas descrevem, mas também são interpretados à luz de Cristo.
Para o cristão, Jesus é o verdadeiro objeto de adoração presente no Saltério. Os salmos são orações e cânticos dirigidos a Deus, e como Jesus Cristo é a segunda pessoa da Trindade, ele também é destinatário legítimo desses louvores, súplicas e ações de graças. Ele é, ao mesmo tempo, o cantor (Hb 2:12) e o tema dos cânticos. Os crentes podem entoar louvores a Cristo (nos hinos), recorrer a ele em suas aflições (nos lamentos), agradecê-lo pelas respostas à oração (nas ações de graças), rememorar sua obra redentora (nos salmos de recordação), reconhecê-lo como Rei soberano (nos salmos de realeza), confiar plenamente nele (nos salmos de confiança) e considerá-lo a perfeita encarnação da sabedoria divina (nos salmos de sabedoria).
Até mesmo os salmos imprecatórios, que contêm maldições e clamores por justiça, encontram cumprimento em Cristo. Esses salmos expressam o anseio pela vindicação dos justos e pelo juízo divino sobre os ímpios (cf. Sl 69:22-29). No contexto veterotestamentário, essas orações estavam ligadas ao papel de Israel como instrumento da guerra santa, sob a direção de Deus. Com a vinda de Cristo, que assumiu sobre si o juízo de Deus, a natureza da batalha do povo de Deus foi transformada: ela agora é espiritual, travada contra “as forças espirituais da maldade, nas regiões celestiais” (Ef 6:12).
Quando Cristo retornar em glória, o tempo da misericórdia terá fim, e as imprecações dos salmos se concretizarão plenamente sobre todos os inimigos de Deus. Assim, até mesmo esses salmos, muitas vezes difíceis de interpretar, são compreendidos corretamente à luz da cruz e da consumação final da justiça divina.
Fonte:
PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.
Fonte: Overview of the Book of Psalms. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Junho de 2025.

Introdução ao Livro dos Salmos está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe um comentário