Introdução aos Livros Poéticos e Sapienciais.

Os Livros Poéticos e Sapienciais do Antigo Testamento podem ser abordados em duas categorias distintas: (1) a poesia do Antigo Testamento e (2) a sabedoria do Antigo Testamento.

Seção 1: Poesia do Antigo Testamento.

A Bíblia Hebraica classifica apenas Jó, Salmos e Provérbios como livros poéticos. Já na organização da maioria das Bíblias em inglês, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos também são incluídos nessa categoria. Nenhuma dessas classificações, no entanto, é completamente satisfatória. Por exemplo, o Cântico dos Cânticos é escrito inteiramente em poesia, mas é excluído da lista hebraica; já Eclesiastes, apesar de conter uma mistura de prosa e poesia, é incluído na tradição inglesa.

O que une esses cinco livros é o fato de não serem nem históricos nem proféticos em sentido estrito. Como quatro deles são compostos inteiramente em poesia e um parcialmente, tornou-se comum agrupá-los sob o rótulo de livros poéticos. Além disso, a poesia está presente em diversas partes do Antigo Testamento, e os princípios discutidos aqui se aplicam sempre que ela aparece.

A poesia bíblica se distingue da prosa em pelo menos quatro aspectos principais:

  1. Regularidade das estruturas rítmicas;
  2. Uso frequente de figuras de linguagem;
  3. Forte dependência de imagens;
  4. Expressão intensa de emoções.

Embora a prosa também possa conter esses elementos, é na poesia que eles se manifestam de maneira mais marcante.

Estrutura rítmica.

Uma das marcas mais evidentes da poesia hebraica é o paralelismo, ou seja, a relação próxima entre dois versos, em que o segundo complementa, enfatiza ou contrasta com o primeiro. A estrutura básica segue o padrão: “A, e, além disso, B”.

Por exemplo, comparemos os dois relatos sobre Jael e Sísera em Juízes:

  • Em Juízes 4:19 (prosa):
    “Tenho sede”, disse ele; “Por favor, dá-me água”. Ela abriu um odre de leite, deu-lhe de beber e o cobriu.
  • Em Juízes 5:25 (poesia):
    Verso A: “Ele pediu água, ela lhe deu leite;”
    Verso B: “Numa tigela própria para nobres ela lhe trouxe leite coalhado.”

Nesse trecho poético, o paralelismo intensifica o impacto do texto. O segundo verso acrescenta riqueza sensorial e emocional, chamando atenção para o detalhe do leite coalhado servido em uma tigela digna de nobres, revelando a astúcia de Jael ao tratar o inimigo como realeza para tranquilizá-lo e, assim, deixá-lo vulnerável.

Figuras de linguagem.

A poesia bíblica também se vale com frequência de figuras de linguagem, ou seja, formas indiretas de comunicar uma verdade, utilizando convenções conhecidas entre autor e leitor. São comuns: hipérboles, metáforas, símiles, simbolismo, metonímias, sinédoques, ironias e sarcasmos.

Por exemplo:

  • Salmo 1:3 usa a comparação com uma árvore frutífera para ilustrar a bênção daqueles que meditam na Lei de Deus: “Ele é como árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo.”
  • Salmo 34:10 traz uma hipérbole para expressar a suficiência que vem de Deus: “Os leões podem passar necessidade e fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes faltará.”

A interpretação da poesia exige atenção a essas figuras, pois uma leitura literal e rígida pode levar a conclusões incorretas.

Imagens.

Imagens poéticas são formas de expressar ideias por meio de experiências sensoriais e mentais. Embora a prosa também utilize a imaginação, a poesia bíblica é ainda mais dependente do poder visual e emocional das palavras.

Exemplos:

  • Salmo 42:7 retrata aflição por meio da imagem de uma cachoeira impetuosa:
    “Um abismo chama outro abismo ao rugir das tuas cachoeiras; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim.”
  • Salmo 23:2 apresenta a proteção divina por meio de paisagens serenas:
    “Ele me faz repousar em pastos verdejantes e me conduz a águas tranquilas.”

Essas imagens tornam a experiência espiritual mais vívida e reflexiva para o leitor.

Expressão emocional.

A poesia do Antigo Testamento é notável por sua capacidade de expressar e evocar uma ampla gama de emoções humanas. Ela lida com alegria e dor, louvor e lamentação, amor e ódio quase nenhuma emoção é deixada de fora.

Veja:

  • Salmo 130:1-2 expressa um lamento profundo:
    “Das profundezas clamo a ti, Senhor! Senhor, ouve a minha voz; estejam atentos os teus ouvidos às minhas súplicas por misericórdia.”
  • Salmo 57:7-8 reflete o júbilo extasiado do salmista:
    “Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme! Cantarei e entoarei louvores. Desperta, minha alma! Despertai, harpa e lira! Acordarei a aurora!”

O leitor da poesia bíblica deve estar sensível a essas emoções e permitir que sua própria alma seja moldada pela intensidade dos sentimentos expressos. A poesia convida à reflexão e à transformação interior à luz das verdades divinas.

Seção 2: Sabedoria do Antigo Testamento.

Enquanto a seção anterior trata da literatura poética, esta seção apresenta brevemente a literatura sapiencial das Escrituras.

Três dos cinco livros poéticos compõem os chamados livros de sabedoria do Antigo Testamento: Jó, Provérbios e Eclesiastes. Embora passagens sapienciais também apareçam em outros livros, sua presença é limitada. Grande parte desses livros é composta por poesia e exibe as características anteriormente mencionadas. No entanto, os livros sapienciais se distinguem dos demais livros poéticos de diversas maneiras.

Características da Sabedoria.

Os livros de sabedoria apresentam pelo menos três características distintivas:

  1. A palavra sabedoria e seus sinônimos, como entendimento, ocorrem com mais frequência neles do que em outros livros.
  2. Eles compartilham um modo comum de revelação: baseiam-se predominantemente em observações da vida, em vez de visões ou audições sobrenaturais.
  3. Como sua inspiração provém da observação contemporânea da criação e da experiência humana, esses livros não se concentram tanto na história da salvação. Pouca atenção direta é dada aos grandes eventos redentores da história de Israel.

Definição de Sabedoria.

A sabedoria pode ser compreendida em dois níveis:

  • No nível mais superficial, sabedoria refere-se a habilidades práticas, como estratégias de sobrevivência (Pv 30:24-28), habilidades técnicas (Êx 28:3; 36:1) e competências administrativas e judiciais (Dt 1:15-18; 1Rs 3:1-28).
  • Em um nível mais profundo, a sabedoria está enraizada na ordem criada. As Escrituras indicam que Deus trouxe a sabedoria à existência antes do restante da criação. Essa sabedoria sustenta todos os relacionamentos naturais e sociais (Pv 3:19-20; 8:22-31). Compreender essa ordem criada torna alguém verdadeiramente sábio. Os sábios nas Escrituras comunicam essa sabedoria cósmica sob a inspiração do Espírito de Deus (Ec 12:9-12; Pv 25:2).

Embora a observação cotidiana tenha papel central no processo de obtenção da sabedoria, ela não se dissociava do compromisso religioso. Os sábios que contribuíram para os livros sapienciais baseavam-se regularmente nos ensinamentos de Moisés e Davi para orientar suas interpretações da experiência. Por exemplo, o prólogo de Provérbios declara: “Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel” (Pv 1:1). Salomão escreveu como rei da aliança de Israel, trazendo não apenas olhos atentos ao mundo e à conduta humana, mas também um coração piedoso, fundamentado em revelações anteriores. Até mesmo Agur, um sábio prosélito de Massa, afirmou que encontrou sabedoria unicamente no contexto da fé de Israel. Citando Davi (Sl 18:30) e Moisés (Dt 4:2), ele declarou:

“Cada palavra de Deus é pura;
ele é um escudo para os que nele se refugiam.
Não acrescentes nada às suas palavras,
para que ele não te repreenda e te mostre mentiroso” (Pv 30:5-6).

Sabedoria Didática e Reflexiva.

Dois tipos principais de sabedoria aparecem no Antigo Testamento:

1. Sabedoria didática ou proverbial, representada principalmente em Provérbios. Essa sabedoria era ensinada, em geral, no contexto familiar (Pv 1:8,10) e consistia em ditados, enigmas e parábolas (Pv 1:6). Essas formas breves e provocativas de ensino eram fáceis de memorizar e transmitiam sabedoria prática. Por meio delas, os jovens de Israel eram treinados a discernir o caminho certo em diversas situações da vida.

O valor da sabedoria proverbial está não apenas em seus ensinamentos diretos, mas também na consciência de que, em um mundo caído, a experiência nem sempre corresponde às máximas da sabedoria. Por exemplo, Provérbios 22:29 afirma:

“Viste um homem perito na sua obra?
Perante reis será posto;
não entre os de posição obscura.”

Embora isso aponte para uma verdade geral, sabemos por experiência que pessoas habilidosas nem sempre são reconhecidas ou promovidas. Esse provérbio visa incentivar o desenvolvimento de habilidades, gerando esperança de reconhecimento – não garantir recompensas automáticas. Muitas máximas de Provérbios operam nesse nível: oferecem aproximações do ideal e apontam para uma realidade futura, onde a justiça será plenamente restaurada (Pv 12:28; 14:32; 23:17-18; 24:19-20).

2. Sabedoria reflexiva, encontrada nos livros de Jó e Eclesiastes. Essa forma de sabedoria examina os limites da sabedoria didática, explorando as perplexidades da vida. Esses livros ajudam os leitores a evitar interpretações simplistas da sabedoria proverbial.

Jó investiga a utilidade da sabedoria proverbial no sofrimento. Onde está a justiça de Deus quando o justo sofre, e os ímpios usam a sabedoria para acusá-lo falsamente? Até que ponto os humanos podem compreender a sabedoria divina em meio à dor?

Eclesiastes, por sua vez, questiona a busca por contentamento e significado. Por que há tão pouca alegria no fruto do trabalho? Qual o sentido de acumular conhecimento ou riquezas se tanto justos quanto ímpios acabam perdendo tudo na morte?

Ambos os livros não rejeitam a sabedoria proverbial, mas a contextualizam. Primeiro, enfatizam que os seres humanos têm uma capacidade extremamente limitada para discernir a sabedoria de Deus – especialmente diante das anomalias da vida (cf. Jó 28; 40–42). Segundo, reforçam que até mesmo o conhecimento limitado da sabedoria exige constante temor do Senhor (Pv 1:7).

Jó 28:28 resume bem esse ponto:

“O temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é o entendimento.”

E Eclesiastes 12:13 conclui:

“Agora que tudo já foi dito, aqui está a conclusão: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, pois esse é o dever de todo ser humano.”

A sabedoria reflexiva ensina que reconhecer nossas limitações e nos submeter com reverência ao Senhor é o que verdadeiramente nos torna sábios.

Perguntas.

1. Quais são os principais critérios utilizados para classificar um livro como poético no Antigo Testamento?

2. Explique o que é paralelismo e como ele contribui para o estilo da poesia hebraica.

3. De que maneiras a poesia bíblica se diferencia da prosa? Cite pelo menos duas características.

4. Como as figuras de linguagem ajudam a transmitir verdades espirituais nos livros poéticos? Dê um exemplo.

5. Qual o papel das imagens na poesia bíblica e como elas afetam a experiência do leitor?

6. Por que a expressão emocional é tão marcante na poesia do Antigo Testamento?

7. Quais são os três livros principais que compõem a literatura sapiencial do Antigo Testamento?

8. Qual é a principal diferença entre a revelação nos livros sapienciais e nos livros históricos ou proféticos?

9. Explique a diferença entre sabedoria didática e sabedoria reflexiva com base nos exemplos dados no texto.

10. De que maneira os livros de Jó e Eclesiastes desafiam uma leitura simplista da sabedoria contida em Provérbios?


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Introduction to the Poetic and Wisdom Books. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Junho de 2025.


Introdução aos Livros Poéticos e Sapienciais está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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