Introdução ao Livro de Jó.

Autor: Desconhecido.

Propósito: Investigar os limites e os usos apropriados da sabedoria proverbial tradicional diante do sofrimento de uma pessoa justa.

Data: Aproximadamente entre 970 e 586 a.C.

Verdades Principais:

  • Deus tem propósitos por trás de todo sofrimento, embora esses propósitos, em grande parte, nos permaneçam ocultos.
  • A sabedoria proverbial convencional pode ser útil em muitas situações, mas mostra-se insuficiente diante do sofrimento dos justos.
  • Os que sofrem de forma justa devem, com humildade, unir seus lamentos às declarações da bondade e da justiça de Deus.
  • A sabedoria humana é limitada e deve sempre começar com o temor do Senhor e a obediência aos seus mandamentos.

Autor.

Embora o livro contenha muitos discursos de Jó, não há evidências de que ele seja seu autor. O mais provável é que um poeta israelita anônimo, possivelmente um sábio, tenha escrito a obra. Esse autor provavelmente utilizou materiais oriundos de fontes orais e escritas da época patriarcal. Sua identidade como israelita é indicada pelo uso do nome de aliança de Deus, Javé (Senhor).

Data e local da escrita.

Não se sabe ao certo quando o autor viveu e escreveu. Embora o prólogo situe os acontecimentos do livro no período patriarcal, é provável que a forma final da obra tenha sido composta durante ou logo após a era de Salomão (aproximadamente entre 970 e 586 a.C.), na região que mais tarde seria conhecida como Palestina. A descoberta de fragmentos do livro de Jó entre os Manuscritos do Mar Morto descarta a hipótese de uma redação no período pós-exílico ou posterior.

Objetivo e características.

Entre os livros sapienciais do Antigo Testamento (Jó, Provérbios, Eclesiastes), o livro de Jó se destaca, ao lado de Eclesiastes, por explorar os limites e os usos apropriados da sabedoria proverbial tradicional. Essa sabedoria, presente sobretudo em Provérbios, descreve os ideais da vida e oferece diretrizes para lidar com as situações comuns da experiência humana. No entanto, pode ser mal interpretada ou aplicada de forma inadequada, como se os princípios ideais fossem universalmente válidos.

Por exemplo, Provérbios 22:29 afirma: “O homem hábil… servirá diante de reis; não servirá diante de homens obscuros.” Esse provérbio descreve como a vida deveria ser em um mundo ideal, e às vezes de fato é, mas ignora a realidade de que muitas pessoas talentosas permanecem desconhecidas. Existem circunstâncias que exigem reflexão mais profunda do que a oferecida pela sabedoria proverbial. Isso é especialmente verdadeiro no que se refere ao sofrimento dos justos.

O livro de Jó confronta a confiança ingênua na sabedoria tradicional ao tratar das tensões entre o sofrimento humano e a bondade e justiça de Deus. Ele apresenta três possíveis explicações para o sofrimento dos justos:

1. Deus não seria justo e bom. Os fiéis sofrem porque Deus seria, pelo menos em parte, mau. Essa hipótese é rejeitada enfaticamente pelo livro, que afirma a bondade de Deus tanto no prólogo quanto no epílogo. O prólogo destaca a fidelidade de Jó mesmo em meio ao sofrimento (Jó 1:1-2:13), e no epílogo (Jó 42:7-17), Deus honra sua confiança, restaurando-o.

2. Deus não seria soberano. O sofrimento estaria fora de seu controle. Essa ideia também é rejeitada. O livro de Jó reafirma a onipotência divina e sua soberania sobre todas as coisas (Jó 37:14-24; 42:2).

3. Deus é bom e soberano, mas seus caminhos são insondáveis. Os seres humanos, como criaturas finitas, não têm capacidade de compreender completamente os desígnios de Deus (Jó 28). O primeiro capítulo oferece ao leitor um vislumbre do que está em jogo: um desafio entre Deus e Satanás, no qual a fé de Jó é posta à prova. Contudo, Jó desconhecia completamente esse cenário, como ocorre com a maioria dos que sofrem. Mesmo o leitor é deixado com perguntas, como: “Como Satanás entrou no céu?” e “Por que Deus permitiu a prova?”.

Apesar dessas perguntas, o livro mostra que Deus acolhe os lamentos sinceros de seu povo (Jó 36:14-15). Os justos devem equilibrar suas queixas com humildade e reverência (ver Jó 28:28).

Essa compreensão se desenvolve gradualmente ao longo do livro. O prólogo fornece uma perspectiva celestial (Jó 1:1-2:13): Deus escolheu Jó como seu servo sofredor, por meio do qual alcançaria um triunfo espiritual. “Observaste o meu servo Jó?” (Jó 1:8; 2:3). Satanás o acusou de ser fiel apenas por causa das bênçãos recebidas (Jó 1:9-11), e assim Jó recebeu a duvidosa honra de ser testado para provar que serviria a Deus mesmo em meio à dor e à perda.

Enquanto o prólogo revela o plano celestial, os Diálogos mostram a perspectiva terrena (Jó 3:1-27:23). Como tantos que sofrem, Jó desconhecia os bastidores divinos. Ele entrou em conflito com a aplicação equivocada da sabedoria proverbial feita por seus amigos, que insistiam que todo sofrimento é consequência direta do pecado (cf. João 9:2). Para eles, a aflição de Jó era proporcional à sua culpa. Estavam errados. Aplicaram mal as Escrituras até o próprio Jó caiu nessa armadilha. Por isso, nem ele nem seus amigos devem ser vistos como fontes teológicas absolutas. Suas falas são válidas apenas quando concordam com o restante das Escrituras; quando não, devem ser rejeitadas.

Confrontando seus conselheiros insensíveis, Jó disse coisas das quais depois se arrependeria (Jó 42:5-6). Embora estivesse convicto de que seus amigos estavam errados, ele mesmo não conseguia encontrar uma explicação para o sofrimento dos justos enquanto os ímpios prosperavam (Jó 12:6).

Como os salmistas, Jó lamentava diante de Deus em linguagem de disputa judicial. Ele lutava em oração, expressando dúvidas e medos com sinceridade. Seu relacionamento com Deus era vivo, ao contrário de seus amigos, cuja fé estava reduzida a clichês religiosos e julgamentos apressados (Jó 13:4-5; 16:2; 19:21). Jó não era arrogante ao clamar por justiça; mesmo considerando Deus como seu adversário, ele confiava que o Senhor lhe providenciaria um vindicador, um defensor, um redentor (Jó 16:19-21; 19:23-27).

Essa esperança se concretizou quando Deus respondeu a Jó a partir da tempestade (Jó 38:1-41:34). Jó não foi repreendido por algum pecado oculto, mas foi humilhado por buscar excessivamente sua própria justificação e não a de Deus (Jó 38:2; 42:2-3). Ele jamais soube exatamente por que sofreu, apenas compreendeu que sua dor estava sob a vontade soberana de Deus e que o Senhor esperava sua confiança e fidelidade.

Após ver a Deus com os “olhos da fé” e se arrepender no pó e na cinza, Jó passou a entender as boas novas: Deus reina soberanamente e, ao final, recompensa aqueles que permanecem fiéis a Ele em meio à aflição.

Cristo em Jó.

O livro de Jó antecipa a pessoa e a obra de Cristo de diversas maneiras. A conexão mais direta entre Cristo e esse livro está no fato de que ele é “a sabedoria de Deus” (1Co 1.24) e que nele “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3). Essa identificação de Cristo com a sabedoria se dá tanto por ele ser o Logos eterno, por meio de quem “todas as coisas foram feitas” (Jo 1.3), quanto por ser o Messias encarnado, sobre quem repousa “o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de poder, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor” (Is 11.2).

Aquilo que Jó e seus amigos buscavam, entendimento e sabedoria,  encontra-se plenamente em Cristo. Quando tentamos encontrar sabedoria fora dele, estamos fadados a tropeçar na tolice deste mundo (1Co 3.19). Em união com Cristo, homens e mulheres recebem sabedoria, pois a graça concedida aos que creem é derramada “com toda a sabedoria e entendimento” (Ef 1.8). A verdadeira sabedoria começa com a fé em Cristo e flui da graça que recebemos ao segui-lo e confiar nele. Por isso, qualquer crente que “tem falta de sabedoria… peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tg 1.5). Ainda assim, ao contrário do espírito contencioso que marcou os diálogos entre Jó e seus amigos, “a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera” (Tg 3.17).

Em segundo lugar, o livro de Jó ressalta a limitação humana em compreender a sabedoria divina. Para nós, ela pode ser resumida em dois princípios: temer a Deus e obedecer aos seus mandamentos (cf. Jó 28.28). Esse ensino se realiza em Cristo, pois a sabedoria de Deus manifesta-se na submissão reverente e obediente a ele.

Em terceiro lugar, Jó expressa, em vários momentos, a necessidade desesperada que a humanidade tem de um mediador entre si e Deus (cf. Jó 5.1; 9.33; 16.20; 19.25; 33.23). A condição da humanidade caída é tão trágica que precisamos de alguém que tenha acesso ao trono divino para interceder por nós. Por nós mesmos, somos impotentes. Cristo satisfaz essa necessidade como o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5).

Em quarto lugar, Jó, como um homem justo cuja fidelidade a Deus foi posta à prova pelo sofrimento, antecipa a obra de Cristo em sua provação. Cristo, no entanto, superou amplamente a justiça de Jó, pois era completamente sem pecado. Ele enfrentou a tentação no deserto e, em toda a sua humilhação, permaneceu irrepreensível (Hb 4.15). Por isso, quando os crentes falham em manter-se íntegros no sofrimento, podem ter a certeza de que Cristo padeceu em seu lugar, e que sua justiça e recompensa lhes são imputadas pela graça de Deus.


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book of Job. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Junho de 2025.


Introdução ao Livro de Jó está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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