Tempo de leitura: 11 minutos.
Nota: As introduções de Esdras e Neemias são idênticas.
Autor: Desconhecido.
Propósito: Encorajar os que retornaram à Terra Prometida a prosseguir com a obra iniciada por Zorobabel, Esdras e Neemias.
Data: Aproximadamente entre 430 e 400 a.C.
Verdades Principais:
- Deus respaldou e abençoou Zorobabel, Esdras e Neemias em seus esforços para promover a restauração após o exílio.
- Esdras e Neemias ofereceram uma liderança fiel, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas durante o processo de restauração de Israel.
- O Templo e Jerusalém desempenharam um papel central na transmissão da bênção de Deus ao seu povo.
- O povo de Deus deve ser conduzido ao arrependimento e à santidade para experimentar plenamente as bênçãos divinas.
Autor.
O mesmo autor é responsável por compor os livros de Esdras e Neemias. Embora as traduções modernas os apresentem como obras distintas, originalmente formavam um único livro. Essa unificação é confirmada pela Bíblia Hebraica, pelo Talmude, pelos escritos de Josefo (c. 37-100 d.C.) e pelos manuscritos mais antigos da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento.
Orígenes (185-253 d.C.) foi um dos primeiros a separar Esdras e Neemias em dois volumes, separação essa que foi mantida por Jerônimo na Vulgata Latina (390-405 d.C.) e perpetuada pelas versões modernas da Bíblia.
Tradicionalmente, atribui-se a autoria de Esdras-Neemias, bem como de 1 e 2 Crônicas, ao próprio Esdras. No entanto, as diferenças de estilo e conteúdo entre Crônicas e Esdras-Neemias sugerem fortemente que tenham sido escritos por autores distintos (ver “Introdução ao Livro de 1 Crônicas”). Considerando o papel proeminente de Esdras na história de Israel e suas habilidades literárias, é plausível que ele tenha participado ativamente da redação da obra. Certamente, Esdras escreveu suas memórias (Esdras 7:27-9:15), assim como Neemias registrou as suas (Neemias 1; 7:5; 12:27-43; 13:4-31). A redação final de Esdras-Neemias provavelmente foi concluída entre 430 e 400 a.C.
Data e local da escrita.
Estudos mais recentes têm levantado questões sobre as interconexões entre os ministérios de Esdras e Neemias. Tradicionalmente, acredita-se que Esdras chegou a Jerusalém em 458 a.C., no “sétimo ano” de Artaxerxes I (Esdras 7:8), e que Neemias o teria seguido no “vigésimo ano” (445 a.C.; Neemias 2:1).
Alguns intérpretes, no entanto, argumentam que Esdras 7:8 se refere, na verdade, ao reinado de Artaxerxes II, o que situaria a chegada de Esdras em 398 a.C., ou seja, após a chegada de Neemias. Outros propõem emendas ao texto hebraico, sugerindo que “sétimo” deveria ser lido como “vigésimo sétimo” ou “trigésimo sétimo”, o que igualmente posicionaria a chegada de Esdras depois da de Neemias.
Apesar dessas interpretações alternativas, o conteúdo do livro favorece a visão tradicional, segundo a qual Esdras chegou antes de Neemias e que seus ministérios se sobrepuseram em parte. Ambos aparecem juntos na leitura pública da Lei (Neemias 8:9) e na cerimônia de dedicação do muro de Jerusalém (Neemias 12:26, 36).
Seguindo essa perspectiva tradicional, é provável que Esdras-Neemias tenha sido concluído entre 430 e 400 a.C., sendo que Esdras provavelmente escreveu durante seu trabalho de restauração em Jerusalém e regiões vizinhas.
Público original.
Esdras-Neemias foi escrito para a comunidade judaica residente em Jerusalém e nos arredores durante o período de restauração pós-exílica. Como o movimento inicial em direção à restauração havia começado cerca de um século antes, muitos dos leitores originais descendiam de famílias que já estavam estabelecidas na região há várias gerações.
No entanto, como a restauração se estendeu ao longo de um período prolongado, sob a liderança de Zorobabel, Esdras e Neemias, e atraiu um fluxo constante de judeus retornando do exílio, parte do público original também incluía recém-chegados à região de Jerusalém.
Embora o propósito principal da obra fosse encorajar e orientar os que já haviam retornado à terra, é provável que Esdras também desejasse motivar aqueles que ainda viviam na Babilônia a se juntar ao esforço coletivo de restauração nacional.
Objetivo e Características.
Esdras-Neemias é uma narrativa histórica que apresenta o trabalho de Zorobabel, Esdras e Neemias sob uma perspectiva bastante positiva. Ao destacar principalmente os aspectos favoráveis de sua liderança, o livro visa encorajar os que retornaram do exílio a prosseguirem na obra de restauração iniciada por esses líderes.
Além disso, pelo menos três outras preocupações centrais, intimamente relacionadas entre si, são recorrentes ao longo do livro. Esses temas fundamentais já estão presentes no registro inicial do decreto de Ciro (Esdras 1:2-4): (1) a autorização divina para o programa de restauração, (2) a importância da reconstrução da casa de Deus e (3) o papel essencial de todo o povo de Deus nesse processo.
O edito de Ciro destaca duas vezes a origem divina da restauração. Primeiramente, afirma-se que Ciro emitiu seu decreto porque “o Senhor moveu o coração de Ciro” (Esdras 1:1). Em seguida, o próprio Ciro reconhece que sua ordem procede do Deus dos céus (Esdras 1:2). À medida que o relato avança, o Senhor continua legitimando as ações dos que retornaram: eles voltaram porque o Senhor tocou seus corações (Esdras 1:5), Esdras obteve êxito porque a mão bondosa de Deus estava sobre ele (Esdras 7:9), e o apoio de Artaxerxes ao projeto de restauração foi atribuído à intervenção divina (Esdras 7:27).
Ciro determinou o retorno do exílio com o objetivo específico de reconstruir “um templo… em Jerusalém, em Judá” (Esdras 1:2) e de levar ofertas “para o templo de Deus em Jerusalém” (Esdras 1:4). A reconstrução do templo e da cidade de Jerusalém foi um elemento central da restauração (ver “Introdução ao Livro de 1 Crônicas”). O livro enfatiza, portanto, a conclusão do templo (Esdras 6:13-18) e a edificação e dedicação dos muros da cidade (Neemias 12:27-47). Aos leitores que viveram após essas realizações iniciais, o texto oferece encorajamento para preservar e continuar a orientação do povo de Deus em relação ao templo e à cidade santa.
O decreto de Ciro não se dirigia apenas a líderes específicos, mas a todo o povo de Deus. Ele declarou que “qualquer pessoa do povo [de Deus]” (Esdras 1:3) e “o povo de qualquer lugar” (Esdras 1:4) poderia retornar. As longas listas de nomes de pessoas muitas vezes desconhecidas reforçam a ideia de que toda a comunidade de Israel estava envolvida no processo de restauração (Esdras 2:3-70; repetido em Neemias 7:8-73). As reformas conduzidas por Esdras e Neemias não foram restritas a um grupo seleto, mas planejadas para transformar toda a comunidade dos que haviam retornado (Esdras 10:1-44; Neemias 13:1-31). O livro destaca que o processo de restauração exigia a santificação de todo o povo de Deus, a fim de que a nação pudesse experimentar as bênçãos divinas.
Esdras-Neemias é uma obra composta por diversos documentos que foram habilmente reunidos em uma narrativa coesa e poderosa. As listas desempenham um papel de destaque e incluem: (1) os utensílios do templo (Esdras 1:9-11); (2) os primeiros retornados do exílio (Esdras 2:3-70; Neemias 7:8-73); (3) os líderes que acompanharam Esdras (Esdras 8:2-14); (4) os envolvidos em casamentos mistos (Esdras 10:18-43); (5) os que reconstruíram o muro (Neemias 3:1-32); (6) os que selaram a aliança (Neemias 10:1-27); (7) os novos residentes de Jerusalém e arredores (Neemias 11:1-36); e (8) os sacerdotes e levitas que retornaram com Zorobabel (Neemias 12:1-26).
Também é significativa a inclusão de correspondência oficial. Essas cartas foram preservadas em seu idioma original, o aramaico, que era a língua da diplomacia internacional naquele contexto histórico. Entre elas estão: (1) a carta de Reum a Artaxerxes (Esdras 4:11-16); (2) a resposta de Artaxerxes (Esdras 4:17-22); (3) a carta de Tatenai a Dario (Esdras 5:7-17); (4) o memorando sobre o decreto de Ciro (Esdras 6:2-5); (5) a resposta de Dario a Tatenai (Esdras 6:6-12); e (6) a carta de Artaxerxes em favor de Esdras (Esdras 7:12-26). Além disso, o texto inclui o decreto de Ciro (Esdras 1:2-4), as memórias de Esdras (Esdras 7:27-9:15) e as memórias de Neemias (Neemias 1:1-7:5; 12:27-43; 13:4-31).
Cristo em Esdras-Neemias.
A revelação de Cristo é um elemento marcante no livro de Esdras-Neemias. Essa obra aponta para Cristo de, pelo menos, cinco maneiras distintas:
(1) A atuação de Esdras e Neemias fundamenta-se nos esforços iniciais de Zorobabel – descendente de Davi e representante da linhagem real – durante a primeira fase da restauração do povo de Deus (Ag 1-2; Zc 1-8). Embora os feitos de Zorobabel tenham sido limitados, ele faz parte da genealogia de Jesus (Mt 1:12-16), que viria a receber, de modo definitivo, as promessas feitas à casa de Davi após o exílio.
(2) As descrições idealizadas de Zorobabel, Esdras e Neemias como líderes piedosos antecipam a obra de Cristo. Assim como esses homens dedicaram suas vidas a conduzir o povo de Deus às suas bênçãos, Cristo guia o seu povo às bênçãos supremas e eternas. Tal como Cristo confrontou o pecado em Israel (Mt 23), Esdras e Neemias também repreenderam e corrigiram a iniquidade entre os israelitas (Ed 9; 10:10-14; Ne 1:6-7; 9:1-3, 26-38; 13:15-27). À semelhança de Cristo (Jo 17:6-26), eles se identificaram com o povo e intercederam por ele em oração (Ed 9:6-15; Ne 1:4-11).
(3) O destaque dado à reconstrução e ao funcionamento adequado do templo em Jerusalém aponta profeticamente para Cristo. O templo ocupa um lugar central na fé cristã. Cristo não apenas purificou o templo terreno (Mt 21:12-13; Jo 2:13-17), mas também se apresentou como o verdadeiro Templo (Jo 2:19-22). Ele estabeleceu a igreja como templo do Deus vivo (1Co 3:16-17; 2Co 6:16) e, atualmente, exerce seu ministério no santuário celestial (Hb 9:11-12, 24). Na consumação dos séculos, Cristo trará a nova Jerusalém à terra e será, com o Pai, o próprio Templo da cidade santa (Ap 21:22). Temas como santidade, sacrifícios, oração, perdão, sacerdócio e a presença divina, todos associados ao templo em Esdras-Neemias, encontram seu cumprimento pleno em Cristo.
(4) As reformas morais promovidas por Esdras e Neemias também têm seu cumprimento em Cristo. Assim como eles convocaram o povo da aliança ao arrependimento e à obediência à lei, Cristo chamou os seus seguidores à fidelidade à Palavra de Deus (Mt 5:17-19). Por meio de sua morte e ressurreição, e mediante o poder do Espírito Santo, Cristo purifica os que nele creem e os conduz a uma vida de santidade (1Jo 1:7-9), preparando-os para herdar as bênçãos do Reino (Mt 25:34-40; Rm 6; 1Pe 3:9-12).
(5) Durante sua breve permanência em Jerusalém, Esdras reestruturou a identidade de Israel em torno da Torá, conferindo-lhe uma forma de fé capaz de sobreviver aos séculos seguintes. A partir de então, a marca do verdadeiro judeu não seria mais territorial ou nacional, mas o compromisso com a lei. Essa centralidade da Torá permitiu superar limitações étnicas e geográficas do passado. Essa reconfiguração da fé judaica lançou as bases para muitos aspectos da fé cristã. Elementos como o culto, a organização da igreja, a vida comunitária e o esforço missionário da igreja primitiva foram, em grande parte, moldados pelas transformações iniciadas no ministério de Esdras.
Perguntas.
1. Qual era o propósito principal do livro de Esdras-Neemias para o povo que retornou do exílio?
2. Como o livro destaca a atuação divina no processo de restauração do povo de Israel? Cite exemplos.
3. Por que é significativo que Esdras e Neemias tenham oferecido liderança fiel durante o período de reconstrução?
4. De que maneira o templo e a cidade de Jerusalém são apresentados como centrais para a vida espiritual do povo de Deus?
5. Quais argumentos sustentam a autoria tradicional de Esdras-Neemias e por que essa autoria é questionada por alguns estudiosos?
6. Como o livro demonstra que a restauração não foi apenas obra de líderes, mas de todo o povo de Deus?
7. Explique as diferentes interpretações a respeito da data de chegada de Esdras a Jerusalém. Qual delas o texto favorece?
8. Qual é a importância das listas e documentos oficiais incluídos em Esdras-Neemias? O que eles revelam sobre o conteúdo e estrutura do livro?
9. Como o edito de Ciro evidencia a origem divina do projeto de restauração?
10. De que forma o livro de Esdras-Neemias antecipa ou aponta para a revelação de Cristo, segundo a introdução?
Fonte:
PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.
Fonte: Overview of the Book of Ezra. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Maio de 2025.

Introdução ao Livro de Esdras está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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