Tempo de leitura: 14 minutos.
Nota: As introduções de 1 Reis e 2 Reis são idênticas.
Autor: Desconhecido.
Propósito: Demonstrar a justiça do exílio, afirmar a esperança contínua na casa de Davi e conclamar o povo ao arrependimento, a fim de que Israel pudesse retornar do exílio.
Data: Aproximadamente entre 560 e 550 a.C.
Verdades Principais:
- Apesar da gravidade do exílio de Israel e Judá, Deus foi plenamente justo em sua ira, devido à repetida e grave apostasia da nação.
- As promessas de Deus à casa de Davi permaneceram válidas, mesmo diante dos fracassos dos seus descendentes.
- Deus conclamou seu povo exilado ao arrependimento de seus pecados.
- A restauração do exílio foi oferecida a Israel, desde que houvesse arrependimento sincero.
Autor.
Os livros de 1 e 2 Reis formavam originalmente uma única obra, cujo autor permanece anônimo. Há evidências de que se tratava de um compilador de fontes históricas, provavelmente ativo durante o exílio babilônico.
Data e local da redação.
O Segundo Livro dos Reis encerra-se com o relato de Joaquim, o último rei de Judá, recebendo tratamento favorável do rei da Babilônia durante o exílio (2 Reis 25:27-30). Como a narrativa termina nesse ponto, sem mencionar o retorno do povo do exílio em 538 a.C., é razoável inferir que a redação final da obra tenha ocorrido por volta da metade do exílio babilônico, entre 560 e 550 a.C.
Contudo, nem todo o conteúdo do livro remonta ao período do exílio. O autor teve acesso a diversas fontes, tanto reais quanto proféticas. Três dessas fontes são mencionadas explicitamente: o livro dos anais de Salomão (1 Reis 11:41), o livro dos anais dos reis de Israel (1 Reis 14:19) e o livro dos anais dos reis de Judá (1 Reis 14:29). Além disso, várias declarações ao longo do texto indicam que determinadas ações ou instituições permaneceram “até hoje” (cf. 1 Reis 9:21; 12:19; 2 Reis 8:22), embora já tivessem desaparecido ou cessado na época da redação final. Tais observações refletem a perspectiva das fontes utilizadas.
Por fim, os dois últimos capítulos de 2 Reis se destacam pela cronologia minuciosa dos eventos, com registro de dias, meses e anos. Isso levou alguns estudiosos a sugerirem que já existia, antes do exílio, uma versão anterior da obra, que teria servido de base para a forma canônica que conhecemos hoje. Se for esse o caso, ainda assim, o livro apresenta uma perspectiva coesa e unificada.
Objetivo e Características.
O livro de Reis narra a história e o declínio da monarquia em Israel, desde os últimos dias do reinado de Davi (c. 970 a.C.) até o exílio na Babilônia, quase quatro séculos depois (c. 586 a.C.). Os livros de 1 e 2 Reis formam uma unidade dentro de um conjunto maior de livros – Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis – tradicionalmente chamados de Profetas Anteriores e, mais recentemente, reconhecidos como parte da História Deuteronomista (ou Deuteronômica). Como esses livros se encadeiam naturalmente, é apropriado reconhecê-los como uma composição coesa.
Originalmente, 1 e 2 Reis constituíam um único livro. Nos manuscritos hebraicos mais antigos, assim como ocorre com 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Crônicas, 1 e 2 Reis aparecem como uma única obra literária. No entanto, na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento), na Vulgata (tradução latina) e na maioria das versões modernas, essa obra foi dividida em dois livros. Essa divisão é artificial e se deve, principalmente, à limitação do espaço físico nos antigos rolos de pergaminho, e não a critérios de conteúdo. Isso é evidenciado, por exemplo, pela sobreposição dos reinados de Acazias (1 Reis 22:51-53; 2 Reis 1:1-18) e Josafá (1 Reis 22:41-50; 2 Reis 3:1-27), bem como pela presença do ministério profético de Elias em ambos os livros (1 Reis 1-19; 2 Reis 1-2).
Reis como História.
Uma característica marcante do autor é seu zelo por registrar, com riqueza de detalhes, aspectos diversos do passado de Israel. Esse interesse genuíno por datas, personagens e instituições do período monárquico é evidente na descrição minuciosa dos preparativos para a construção do templo (1 Reis 5), de suas dimensões (1 Reis 7:-12), e dos móveis e utensílios nele colocados (1 Reis 7:13-51). Esse mesmo cuidado se reflete na apresentação dos reinados individuais, nos quais o autor não apenas informa a duração dos governos em ambos os reinos, mas também sincroniza os reinados paralelos entre Israel e Judá.
O livro está repleto de informações cronológicas. O autor, por exemplo, data a construção do templo em 480 anos após o Êxodo (ver 1 Reis 6:1). Além de indicar a duração dos reinados de Davi e Salomão, fornece dados explícitos sobre os mandatos de todos os reis de Judá e Israel. Durante o período do Reino Dividido, o início de cada reinado é associado ao ano correspondente do rei reinante no outro reino. No caso dos reis de Judá, o autor também inclui a idade com que subiram ao trono e o nome de suas mães.
A forma como o autor organiza e periodiza a experiência monárquica de Israel demonstra sua intenção de oferecer um relato ordenado e significativo da história nacional. Começando com a caracterização da monarquia unificada sob Salomão (1 Reis 1-11), ele descreve cuidadosamente sua divisão (1 Reis 12:1-25) e o surgimento de duas entidades políticas distintas: Israel, ao norte, e Judá, ao sul. A seguir, apresenta uma narrativa paralela – ainda que independente – da história de cada reino, até a queda do Reino do Norte, em 722 a.C. (2 Reis 17:1-41). Essa alternância constante entre os reinos de Israel e Judá pode causar certa confusão, mas é essencial para o propósito do autor: retratar a história conjunta de todas as tribos israelitas.
Registrar por escrito a história de dois reinos coexistentes apresentou desafios significativos. Para organizar eventos simultâneos de maneira compreensível, o autor optou por alternar entre as narrativas do norte e do sul. Essa alternância segue um padrão que pode ser observado na tabela abaixo:
| Reino | Período | Referência |
| Israel | 930–909 a.C. | 1 Reis 12:25–14:20 |
| Judá | 930–869 a.C. | 1 Reis 14:21–15:24 |
| Israel | 909–853 a.C. | 1 Reis 15:25–22:40 |
| Judá | 869–848 a.C. | 1 Reis 22:41–50 |
| Israel | 853–841 a.C. | 1 Reis 22:51 – 2 Reis 8:15 |
| Judá | 848–841 a.C. | 2 Reis 8:16–29 |
| Israel | 841–814 a.C. | 2 Reis 9:1–10:36 |
| Judá | 841–796 a.C. | 2 Reis 11–12 |
| Israel | 814–782 a.C. | 2 Reis 13:1–25 |
| Judá | 796–767 a.C. | 2 Reis 14:1–22 |
| Israel | 793–753 a.C. | 2 Reis 14:23–29 |
| Judá | 792–740 a.C. | 2 Reis 15:1–7 |
| Israel | 753–732 a.C. | 2 Reis 15:8–31 |
| Judá | 750–715 a.C. | 2 Reis 15:32–16:20 |
| Israel | 732–722 a.C. | 2 Reis 17:1–6 |
Esse padrão indica que o autor mudava de um reino para o outro sempre que o reinado de um monarca se estendia além do fim do reinado do último rei mencionado no outro reino. Por exemplo, Peca, de Israel, reinou de 740 a 732 a.C. (2 Reis 15:27-31), período que ultrapassou o primeiro ano de Jotão, rei de Judá (750-735 a.C.; 2 Reis 15:32-38). Assim, o autor passou a narrar os acontecimentos em Judá. Em seguida, Acaz, sucessor de Jotão, governou de 735 a 715 a.C. (2 Reis 16), ultrapassando o fim do reinado de Peca. Por isso, o autor retorna a Israel para tratar do reinado de Oseias, de 732 a 722 a.C. (2 Reis 17:1-6).
Ao retratar o reino dividido, o escritor bíblico destaca diferenças significativas entre os dois reinos. Enquanto a monarquia em Judá manteve relativa estabilidade, com o trono sempre ocupado por descendentes de Davi, o Reino do Norte foi marcado por instabilidade e sucessivas dinastias. Ao longo de cerca de 200 anos, nove famílias diferentes e vinte reis governaram Israel. Em contraste, o Reino do Sul foi liderado por uma única dinastia – a casa de Davi – também com vinte reis, ao longo de aproximadamente três séculos e meio. O autor encerra sua narrativa sobre o Reino do Norte com um extenso comentário sobre suas principais falhas (2 Reis 17:7-23), passando então a descrever os últimos 150 anos da história de Judá.
O valor histórico do livro de Reis não deve ser subestimado. Ao compor um relato coerente e significativo do passado da nação, o autor bíblico prestou um serviço inestimável a todos os que desejam compreender esse período marcante da história de Israel.
Reis como Teologia.
Além de seu interesse pelo passado de Israel, o livro de Reis é também uma obra teológica: uma reflexão sobre os caminhos de Deus com o povo que Ele libertou da “fornalha de ferro” do Egito para ser sua “própria herança” (1 Reis 8:51-53). Ao elaborar uma história teológica, o autor extrai lições do passado que serviriam ao povo de Deus tanto no presente quanto no futuro. Alguns princípios centrais sustentam a perspectiva teológica do livro:
(1) O povo como eleito de Deus – Um ponto central da teologia de Reis é a afirmação de que Israel (e, mais tarde, Judá) não era, por si só, superior às demais nações. Os israelitas não escolheram a Deus primeiro; foi Deus quem, segundo sua graça insondável, os separou de todas as nações (1 Reis 8:53). A santidade do povo não decorre de méritos próprios, mas da eleição divina (1 Reis 8:51, 53; Dt 7:6; 26:18-19).
Há também em Reis uma ênfase na solidariedade entre todas as tribos de Israel. O autor demonstra preocupação por todo o povo, inclusive pelo Reino do Norte, mesmo criticando severamente seus monarcas pela idolatria disseminada. Ele reconhece essas tribos como parte do povo da aliança e demonstra constante interesse por sua história. Mesmo após o exílio do Reino do Norte pelos assírios, o autor não abandona o interesse por seu destino, elogiando, por exemplo, Josias por reformar a região de Samaria.
(2) A palavra profética – Os profetas ocupam papel central na narrativa da monarquia israelita. O autor enfatiza sua missão como porta-vozes da palavra de Deus, exigindo lealdade total e indivisa ao Senhor, e se opondo a alianças políticas e religiosas que comprometessem os princípios da fé israelita. Essa fidelidade à aliança frequentemente colocava os profetas em confronto com reis e rainhas dispostos a ceder à influência dos povos vizinhos. Embora a narrativa se concentre nos ministérios de Elias e Eliseu, o autor também menciona outros profetas, como Natã (1 Reis 1:22), Aías (1 Reis 11:26–39; 14:1–18), Semaías (1 Reis 12:21–24), Micaías (1 Reis 22:8–28), Jonas (2 Reis 14:25), Isaías (2 Reis 19:1–7; 20:14) e Hulda (2 Reis 22:14–20).
(3) Um só Deus, um só santuário – De acordo com o livro de Reis, Javé é o Senhor do cosmos e soberano sobre os reinos da terra (2 Reis 19:15–16). Ele lidera seu povo nas batalhas, ouve suas orações no templo, acolhe seus sacrifícios e demonstra cuidado especial pelos pobres, viúvas e órfãos. A devoção exclusiva a Deus é uma marca da aliança (1 Reis 18:21, 39).
Associado à fé em um único Deus está o compromisso com um único santuário central de adoração em Israel (Dt 12:1–32). A construção do templo por Salomão representa um marco fundamental na história de Israel, e por isso o autor dedica amplo espaço à sua preparação e edificação, detalhando suas dimensões e mobiliário.
Essa ênfase em um só Deus e um só templo implica a rejeição de toda idolatria e da adoração em outros locais. A decadência espiritual durante o período do reino dividido não se caracterizou por uma rejeição absoluta de Javé, mas por uma forma sincrética de adoração que misturava o culto ao Senhor com práticas de divindades estrangeiras. Essa influência foi particularmente forte no Reino do Norte, onde práticas cananeias foram adotadas e incentivadas pelos reis. Judá também foi afetado por esse sincretismo. O autor aponta a idolatria como uma das principais causas do exílio de Israel e Judá (2 Reis 17:7, 16, 19; 21:3–5).
O apoio fiel ao templo de Jerusalém é outro critério de avaliação dos reis. Dos oito reis do sul elogiados no livro, apenas Ezequias e Josias receberam reconhecimento por sua devoção incomparável a Javé (2 Reis 18:5; 23:25). Ezequias destacou-se por remover os altos de Judá e por sua confiança firme em Deus diante da invasão de Senaqueribe (2 Reis 18:3–7). Josias foi exaltado por sua reforma do templo e por mudanças religiosas abrangentes tanto em Judá quanto em Israel (2 Reis 22:2; 23:25). No Reino do Norte, apenas Jeú recebeu alguma forma de elogio, por ter eliminado o culto a Baal (2 Reis 10:30).
(4) Aliança e realeza – Duas alianças dominam a narrativa de Reis: a aliança mosaica e a aliança davídica. A conduta dos reis e do povo é avaliada à luz da aliança estabelecida no Sinai.
Ver a relação entre Deus e Israel como uma aliança implicava que nenhuma instituição humana possuía autoridade absoluta. Todas estavam sujeitas à soberania de Deus. Assim, embora a monarquia fosse instituída por Deus, seu poder era limitado. Tanto reis quanto povo estavam obrigados a obedecer à aliança. Cada rei era julgado segundo sua fidelidade à Torá (a lei de Deus).
O autor também valoriza os princípios da aliança davídica (2 Sm 7; Sl 89; 132), que estabelecia a dinastia de Davi como linhagem real permanente do povo de Deus. Embora reis individuais pudessem ser severamente punidos por violarem a aliança, a casa de Davi jamais seria extinta. O amor de Deus por Davi explica sua longa paciência com seus descendentes (cf. 1 Reis 15:4) e confere profundo significado à cena final do livro – a libertação de Joaquim da prisão na Babilônia – como um sinal de que Deus não havia abandonado a casa real de Davi (2 Reis 25:27–30).
Cristo em Reis.
A narrativa de Reis aponta para Cristo de diversas maneiras. Pelo menos dois temas centrais emergem ao longo do livro.
Em primeiro lugar, a história destaca a casa de Davi como o eixo da identidade e esperança de Israel. Todas as expectativas de vitória, restauração e salvação — inclusive o retorno do exílio — estavam fundamentadas na misericórdia de Deus demonstrada à dinastia davídica. O Novo Testamento ensina que Cristo é o grande Filho de Davi, por meio de quem Deus cumpriu todas as promessas feitas a Davi e à sua descendência (Mt 1:1-17; At 2:22-36).
Em segundo lugar, a realeza e a adoração no templo ocupam posição central nessa narrativa. Os reis de Israel e Judá foram avaliados principalmente com base em sua fidelidade ao templo de Jerusalém e à pureza da adoração ali estabelecida. Esse tema também encontra seu cumprimento em Cristo. O Novo Testamento ensina que ele é o sumo sacerdote eterno do povo de Deus (Hb 3:1; 4:14-15), cujo próprio sangue fez expiação pelos pecados (Hb 2:17; 9:25-28). Ele reúne seu povo como um templo vivo na terra (1Pe 2:4-5, 9), enquanto ministra no santuário celestial de Deus (Hb 6:19-20; 8:1-2; 9:24).
A exigência de fidelidade exclusiva à adoração no templo de Salomão corresponde ao chamado de Cristo para que seus seguidores confiem unicamente em sua mediação sacerdotal para a salvação (Jo 14:6; At 4:12). Ele ministra atualmente no santuário celestial e, por fim, substituirá o templo terrestre pela sua própria presença gloriosa na nova terra (Ap 21:22).
Perguntas.
1. Qual foi o propósito principal da redação dos livros de 1 e 2 Reis, segundo o texto?
2. Por que o exílio de Israel e Judá é apresentado como justo nas páginas de Reis?
3. Apesar dos fracassos dos reis, qual esperança continua viva na narrativa de Reis?
4. O que podemos inferir sobre a data de composição final de 1 e 2 Reis com base na história do rei Joaquim?
5. Quais são algumas das fontes mencionadas pelo autor de Reis, e o que isso revela sobre sua metodologia?
6. Por que os livros de 1 e 2 Reis foram divididos, mesmo sendo originalmente uma única obra?
7. Como o autor de Reis organizou a narrativa dos reinados paralelos de Israel e Judá? Dê um exemplo.
8. Quais são as principais diferenças entre os reinos do Norte (Israel) e do Sul (Judá) destacadas pelo autor?
9. De que maneira o livro de Reis combina história e teologia para instruir seu público?
10. Como a fidelidade de Deus à aliança com Davi é ilustrada, mesmo diante das falhas dos reis e do povo?
Fonte:
PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.
Fonte: Overview of the Book of 2 Kings. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Abril/2025.

Introdução ao Livro de 2 Reis está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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