A observância religiosa da Páscoa.

Por Rev. Donald Beaton.

Nos últimos anos, tem havido uma tendência notável na Escócia para a observância dos antigos festivais da igreja, como o Natal e a Páscoa. Isso se deve, sem dúvida, à influência dos costumes ingleses e à lamentável ignorância dos princípios da Reforma. Hoje, não há um Paulo em nossa terra para nos advertir contra os encantos de Roma e nos exortar a permanecer firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, sem nos deixarmos prender novamente ao jugo da servidão.

É quase desnecessário dizer que os reformadores tinham boas razões para rejeitar esses festivais religiosos, e devemos ser extremamente cautelosos ao dar-lhes qualquer apoio.

A Páscoa, como a maioria sabe, é um festival anual realizado em comemoração à ressurreição de Cristo. Ela é considerada a festa mais importante do calendário eclesiástico. O nome aparece uma vez no Novo Testamento, em Atos 12:4. No entanto, se os tradutores fossem consistentes, teriam traduzido a palavra grega to pascha como “Páscoa judaica”, como fizeram em outros lugares. A referência em Atos é à Páscoa judaica, e não ao que hoje conhecemos como Páscoa cristã.

Na verdade, o próprio nome “Easter” (Páscoa em inglês) mostra que sua origem não é cristã. Como aponta o Dr. Skeat, o termo vem de Eastre, uma deusa anglo-saxã cujas festividades ocorriam durante o equinócio da primavera (por volta de 21 de março). Alexander Hislop, em seu livro Two Babylons, argumenta que o nome tem alguma conexão com Astarote, mencionada na Bíblia como a “Rainha dos Céus”. De qualquer forma, ele demonstra uma série de coincidências notáveis que apontam para a origem pagã de muitos costumes ligados à Páscoa.

O período de quarenta dias de jejum conhecido como Quaresma, que antecede a Páscoa, ainda é observado pelos “Yezidis”, ou adoradores do diabo do Curdistão, que parecem tê-lo herdado de seus antigos senhores, os babilônios. Segundo Humboldt, os pagãos do México também tinham um período de jejum semelhante na primavera. No Egito, conforme relata Wilkinson, havia uma festa de quarenta dias em homenagem a Osíris, o grande deus mediador. Esses exemplos, entre outros, demonstram que esse período de jejum era comum entre os pagãos.

A Igreja de Roma, seguindo sua política habitual, que tem sido tão desastrosa para a pureza do cristianismo, conciliou os pagãos introduzindo muitas de suas festas e costumes na Igreja Cristã. É claro que Roma tenta justificar a Quaresma apontando para os quarenta dias de jejum de Cristo no deserto, mas é preciso uma imaginação bastante fértil para associar esse jejum diretamente à sua ressurreição. A Quaresma não existia na Igreja primitiva. “Deve-se saber”, escreve Cassiano no século V, “que a observância dos quarenta dias não existia enquanto a perfeição da Igreja primitiva permaneceu intacta” (Giesler, vol. II, p. 42).

Além disso, os pães doces da Sexta-feira Santa e os ovos coloridos da Páscoa também indicam uma origem pagã. Os pães são resquícios do culto à deusa caldeia Astarote, a “Rainha dos Céus”. Jeremias menciona esse costume ao dizer: “Os filhos ajuntam a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazer bolos à Rainha dos Céus” (Jeremias 7:18).

O ovo tinha um significado sagrado entre os druidas e era considerado símbolo de sua ordem. No Egito e na Grécia, os ovos eram usados em ritos religiosos e pendurados nos templos. Hyginus menciona, em suas Fábulas, um grande ovo babilônico “de tamanho maravilhoso”, que teria caído do céu no rio Eufrates. Os peixes o levaram até a margem, onde as pombas pousaram sobre ele e chocaram-no. Deste ovo teria saído Vênus, que mais tarde foi chamada de deusa da Síria – ou seja, Astarote. Assim, o ovo tornou-se um dos símbolos escolhidos para seu culto.

Alguns defendem a observância da Páscoa como uma substituição da antiga festa judaica da Páscoa. No entanto, esse argumento é insustentável, pois no Novo Testamento, essa celebração foi substituída pelo sacramento da Ceia do Senhor. Além disso, quando analisamos a história da Igreja, percebemos que a Páscoa não tem base apostólica. Sócrates, um dos primeiros historiadores da Igreja, escreve: “Já foi dito o suficiente para demonstrar que a celebração da festa da Páscoa surgiu mais pelo costume do que por qualquer mandamento de Cristo ou de seus Apóstolos” (Hist. Ec. v. 22).

O Cônego Venables, em seu artigo sobre a Páscoa na Enciclopédia Britânica, é igualmente claro:

  • “Não há vestígios da celebração da Páscoa como um festival cristão no Novo Testamento ou nos escritos dos Pais Apostólicos. A santidade de tempos ou lugares especiais era uma ideia completamente estranha à mentalidade dos primeiros cristãos, que estavam profundamente absorvidos nos próprios eventos, sem se preocupar com seus aspectos externos”.

Esse testemunho, vindo de um dignitário da Igreja da Inglaterra, deveria ter algum peso.

A ausência da celebração da Páscoa no Novo Testamento e nos escritos apostólicos é razão suficiente para que a Igreja moderna não lhe dê importância.

Para aqueles que ainda não estão convencidos e usam a velha desculpa “qual o mal em observar um dia para comemorar a ressurreição de Cristo?”, a única resposta possível é: se essa observância fosse realmente importante, estaria ordenada no Novo Testamento. Sua ausência nas Escrituras é a maior evidência contra ela. A Igreja já possui um dia separado por uso apostólico para lembrar a ressurreição de Cristo: o domingo, o Dia do Senhor. Se os cristãos desejam manter viva essa verdade, têm cinquenta e dois domingos ao longo do ano para fazê-lo.

É muito melhor fazer isso do que comprometer nosso cristianismo comemorando a ressurreição em um dia de origem duvidosa, para dizer o mínimo, e carregado de cerimônias de origem claramente pagã.


Por: Donald Beaton ©️ Free Presbyterian Magazine. Fonte: The Religious Observance of Easter. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Abril de 2025.

Autor: O Rev. Donald Beaton (1872-1953) foi um proeminente ministro da Igreja Presbiteriana Livre da Escócia e editor revista Free Presbyterian Magazine de 1921 a 1949. Muito antes de se tornar editor, ele contribuiu com uma série de artigos sobre algumas das mulheres piedosas da Igreja Escocesa, que anteriormente haviam sido publicados em um periódico da época, The Protestant Woman.


A observância religiosa da Páscoa está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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