Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 45.

Pergunta 45: Qual é o primeiro mandamento?

Resposta: O primeiro mandamento é: “Não terás outros deuses diante de mim” [1].

PROVA BÍBLICA.

[1] Êxodo 20:3; Deuteronômio 5:7.

Comentário.

Quando Deus entregou os Dez Mandamentos, ou Decálogo, a Moisés pela primeira vez em forma escrita, Ele os inscreveu em duas tábuas de pedra (Êx 31:18). Muitos estudiosos modernos acreditam que todos os dez mandamentos foram gravados em ambas as tábuas, tornando-as duplicatas, em vez de conterem seções diferentes do Decálogo. Essa teoria está alinhada com a prática do antigo Oriente Próximo, na qual ambas as partes de um pacto mantinham uma cópia das estipulações em um local seguro e “sagrado”. No caso da aliança que Deus fez com Israel, ambas as cópias das estipulações foram guardadas na Arca do Testemunho (Êx 25:21-22).

Independentemente dessa questão, há uma divisão lógica nos Dez Mandamentos que leva os teólogos a classificá-los em duas tábuas ou seções: a primeira, relacionada ao nosso dever para com Deus, e a segunda, ao nosso dever para com o próximo. O historiador judeu Flávio Josefo, refletindo o entendimento comum de sua época, atribui cinco mandamentos a cada tábua. Já Calvino (Institutas, 2.8.12) e o Catecismo Maior de Westminster (perguntas 102 e 122) preferem a divisão em quatro mandamentos na primeira tábua e seis na segunda. Outros, como Lutero e a Igreja Católica Romana, adotam uma divisão de três mandamentos na primeira tábua e sete na segunda. No entanto, essa abordagem incorpora o segundo mandamento (como o entendemos) dentro do primeiro e, de maneira inconsistente, divide o décimo mandamento em dois: “Não cobiçarás a casa do teu próximo” e “Não cobiçarás a mulher do teu próximo, etc.”. Essa divisão favorece, pelo menos no contexto católico romano, o uso de imagens no culto, pois faz com que o segundo mandamento – “Não farás para ti imagem de escultura, etc.” – passe a se referir à adoração de outros deuses, e não ao modo de culto ao Deus vivo e verdadeiro.

O Primeiro Mandamento nos ensina que Deus é o único e verdadeiro objeto do nosso culto. Nos tópicos seguintes, cada um dos mandamentos será exposto considerando três aspectos: primeiro, o que ele nos ordena fazer; segundo, o que ele nos proíbe fazer; e terceiro, quais razões ou motivos sustentam sua observância.

Esse mandamento estabelece a base para toda a lei moral, pois reconhecer o Senhor como o único Deus verdadeiro é o princípio fundamental da piedade e da obediência. A Escritura ensina que o homem foi criado para glorificar a Deus e desfrutá-Lo para sempre (Sl 73:25-26; BCW 01). No entanto, desde a Queda, a humanidade tem inclinação para desviar-se desse propósito, buscando satisfação em ídolos, sejam eles imagens visíveis, riquezas, prazeres ou até mesmo a própria vontade. O primeiro mandamento exige uma devoção exclusiva ao Senhor, não apenas externamente, mas de todo o coração, alma e entendimento. No contexto reformado, essa verdade reforça a centralidade da Sola Fide e da Sola Gratia, pois somente pela fé e pela graça de Deus podemos adorá-Lo corretamente, sem confiar em méritos próprios ou em qualquer outro mediador além de Cristo (1Tm 2:5).

Além disso, a exclusividade da adoração a Deus implica uma rejeição de qualquer forma de sincretismo religioso ou compromisso com doutrinas que diminuam Sua glória. A história da Igreja mostra que sempre houve uma luta contra a tentação de misturar o culto divino com práticas humanas, algo contra o qual os reformadores se posicionaram firmemente. João Calvino advertiu que o coração humano é uma “fábrica de ídolos”, constantemente buscando substituir Deus por criações da mente e da cultura. Assim, obedecer ao primeiro mandamento não significa apenas evitar a idolatria externa, mas também rejeitar qualquer confiança em algo além da suficiência de Cristo e da autoridade das Escrituras. Dessa forma, o verdadeiro culto ao Senhor deve ser conforme Sua Palavra, sem acréscimos ou invenções humanas, pois somente Ele é digno de toda adoração, honra e glória pelos séculos dos séculos (Ap 4:11).

Perguntas.

1. Qual a importância de Deus ter entregue os Dez Mandamentos a Moisés em tábuas de pedra?

2. Por que alguns estudiosos acreditam que ambas as tábuas continham os dez mandamentos completos?

3. Como a prática dos pactos no antigo Oriente Próximo ajuda a entender a duplicação das tábuas?

4. Quais são as diferentes maneiras de dividir os Dez Mandamentos entre as duas tábuas?

5. Como a divisão adotada pela Igreja Católica Romana influencia sua compreensão do segundo mandamento?

6. De que maneira o Primeiro Mandamento estabelece a base para toda a lei moral?

7. Como o conceito reformado de Sola Fide e Sola Gratia se relaciona com a adoração verdadeira a Deus?

8. O que João Calvino quis dizer ao afirmar que o coração humano é uma “fábrica de ídolos”?

9. De que formas práticas os cristãos podem evitar tanto a idolatria externa quanto a interna?

10. Como o verdadeiro culto a Deus deve ser fundamentado na autoridade das Escrituras?


Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 45 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2022, 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em Abril de 2025. Publicado originalmente em 10 de abril de 2022].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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