Introdução ao Livro de 2 Samuel.

Autor: Desconhecido.

Propósito: Demonstrar que a dinastia de Davi permaneceu como a esperança futura de Israel, apesar das maldições que Davi e sua casa trouxeram sobre a nação.

Data: 930-538 a.C.

Verdades Principais:

  • Deus desejava que seu povo tivesse o rei escolhido por ele.
  • Deus preparou cuidadosamente o caminho para o rei de sua escolha.
  • Deus estabeleceu a casa de Davi como a linhagem real para sempre.
  • Apesar da fragilidade do reino de Davi, a esperança do povo de Deus permaneceu em sua descendência.

Autor.

Os livros de Samuel originalmente formavam uma única obra, que mais tarde foi dividida em duas partes. O texto não apresenta uma indicação clara de autoria. A associação do nome de Samuel ao livro provavelmente reflete o papel significativo que ele desempenhou nos primeiros capítulos. No entanto, Samuel já é descrito como idoso em 1 Samuel 8:1 e sua morte é registrada em 1 Samuel 25:1, o que ocorreu muito antes de diversos eventos narrados em 1 e 2 Samuel.

Além disso, 1 Crônicas 29:29 menciona Samuel e seus sucessores proféticos, Natã e Gade, como fontes de registros escritos, algumas das quais podem ter sido incorporadas ao desenvolvimento da história de Israel ao longo do tempo.

Data e Local da Escrita.

O livro de Samuel oferece diversas pistas sobre sua data de composição final. O autor utilizou fontes proféticas e registros reais para compilar sua narrativa. A referência às “últimas palavras de Davi” (2 Samuel 23:1), que correspondem às suas declarações oficiais antes da morte, sugere que o livro foi escrito posteriormente a esses eventos.

Além disso, 1 Samuel 27:6 menciona que Ziclague permaneceu sob o domínio dos “reis de Judá”, uma provável alusão à divisão do reino em 930 a.C. Se esse for o caso, a obra não poderia ter sido concluída antes da separação de Judá e Israel, que resultou dos fracassos de Davi e sua dinastia. Caso tenha sido escrito nesse período, o livro reforçava a esperança na continuidade da linhagem davídica, apesar dos desafios da monarquia dividida.

A hipótese mais plausível é que a redação final tenha ocorrido após o retorno do exílio babilônico, por volta de 538 a.C. O autor de Crônicas utilizou Samuel como uma de suas principais fontes (ver “Introdução a 1 Crônicas: Autor”). Além disso, o livro de Reis dá continuidade à narrativa do trono de Israel a partir do ponto em que Samuel encerra sua história (ver 2 Samuel 23:1-7; 1 Reis 1:1). A citação de 1 Samuel 2:27-36 em 1 Reis 2:27 também indica essa relação cronológica. Dessa forma, Samuel provavelmente foi escrito antes de Reis, cuja datação varia entre 561 e 538 a.C. (ver “Introdução a 1 Reis: Data e Lugar da Escrita”). Caso tenha sido redigido nesse período, o livro reafirmava a esperança na linhagem de Davi, mesmo diante do exílio, que foi, em grande parte, consequência da desobediência dos descendentes do rei.

É difícil estabelecer datas precisas para muitos dos eventos descritos em 1 e 2 Samuel. Há, no entanto, um consenso geral de que Davi consolidou seu governo sobre todas as tribos pouco antes de 1000 a.C. (sobre Judá por volta de 1010 a.C. e sobre Israel em aproximadamente 1003 a.C.). Sua vida abrangeu o período entre cerca de 1040 e 970 a.C.

Objetivo e Características.

Com a morte de Saul (1 Samuel 31:1-13), o caminho estava aberto para que Davi assumisse o trono sem precisar levantar a mão contra o ungido do Senhor. Em 2 Samuel 2:1–5:5, são registrados os passos que levaram Davi a se tornar rei, primeiro sobre Judá e, posteriormente, sobre todo Israel. Embora sua ascensão ao trono de Judá tenha ocorrido sem dificuldades, foi necessário o derramamento de sangue antes que ele pudesse governar sobre toda a nação. No entanto, as narrativas deixam claro que Davi não teve participação nas mortes de Abner, antigo general de Saul, e de Is-Bosete, filho sobrevivente do rei deposto, assim como também não foi responsável pela morte de Saul e Jônatas.

Com Davi reinando sobre um Israel unificado, 2 Samuel 5–10 apresenta os eventos, tanto políticos quanto teológicos, que consolidaram seu trono. Os capítulos 5 e 6 narram a escolha de uma nova capital por Davi, sua expressiva vitória sobre os filisteus – o arqui-inimigo de Israel, de quem Saul não conseguiu livrar o povo – e a transferência da arca de Deus para sua recém-estabelecida capital. No capítulo 7, é registrada a significativa promessa davídica (também chamada de “oráculo dinástico”), em que o Senhor, após recusar a oferta de Davi para construir o Templo (“casa”, no hebraico), promete, em vez disso, estabelecer para ele uma dinastia (“casa” no hebraico) que perduraria para sempre. Essa promessa representa tanto a continuidade quanto a especificação da aliança divina de bênção feita aos patriarcas e constitui um desenvolvimento fundamental na esperança messiânica, que encontra seu cumprimento final em Cristo. Os capítulos 8–10 resumem algumas das principais realizações de Davi, incluindo suas vitórias militares e sua fidelidade à aliança com Jônatas, expressa na bondade demonstrada a Mefibosete.

A promessa feita em 2 Samuel 7 estabelece, de maneira inequívoca, que os propósitos de Deus para a casa de Davi são firmes e irrevogáveis. No entanto, isso não significa que Davi ou seus descendentes estariam imunes à perda de benefícios temporais caso caíssem em pecado. Os capítulos 11–20 descrevem o caos doméstico e político que se seguiu aos pecados de adultério e assassinato cometidos por Davi (2 Samuel 11:1-27). Quando confrontado pelo profeta Natã (2 Samuel 12:1-31), Davi demonstrou um arrependimento genuíno e recebeu o perdão imediato de Deus, mas as consequências de seu pecado permaneceram. Com sua autoridade comprometida – possivelmente devido a um sentimento de culpa —, Davi viu seus próprios erros serem refletidos no comportamento de seus filhos. Somente após enfrentar duas rebeliões, a de Absalão e a de Seba, filho de Bicri, seu governo recuperou alguma estabilidade.

Os capítulos 21–24, que funcionam como um epílogo, oferecem um fechamento temático ao livro de Samuel. Neles, são relatados eventos que ocorreram em diferentes momentos da vida de Davi. No centro dessa seção, encontram-se dois poemas nos quais Davi celebra as duas principais razões para sua bem-aventurança: (1) o Senhor foi seu libertador e (2) Deus fez com ele uma “aliança eterna” (2 Samuel 23:5). Esses poemas são enquadrados por duas listas dos guerreiros de Davi, os agentes humanos de suas vitórias. Além disso, esse epílogo contém dois relatos que mostram como a intercessão de Davi livrou Israel do julgamento divino, tanto pelo pecado de Saul quanto pelo seu próprio pecado. Esses capítulos deixaram para os leitores originais uma mensagem clara: apesar dos desafios e falhas de Davi e de seus descendentes, a esperança da aliança davídica permanecia viva para o povo de Deus.

Cristo em 1 e 2 Samuel.

Cristo contrasta com os muitos líderes pecadores de Israel mencionados nesses livros. Mais do que isso, Jesus é o herdeiro do trono de Davi, e a trajetória de Davi preparou o caminho e antecipou a pessoa e a obra de Cristo.

Tanto Davi quanto Jesus receberam sanção profética: Davi por meio de Samuel (1Sm 3:20; 16:13) e Jesus por João Batista (Mt 14:5; Jo 1:29-31; 5:31-35). O Espírito do Senhor veio sobre ambos (1Sm 16:13; Mc 1:9-11), e ambos realizaram obras poderosas (1Sm 17; Mt 11:4-5).

Ambos também estiveram envolvidos em uma batalha espiritual: Davi, contra os inimigos de Israel (1Sm 17), e Cristo, ao triunfar sobre o pecado e a morte (Cl 1:20). Foram rejeitados por reis invejosos (1Sm 18:9; Mt 2:16) e alertados para fugirem a fim de salvar suas vidas (1Sm 20; Mt 2:13-15). Rejeitados por seu próprio povo sem motivo justo (1Sm 23:12; Jo 19:15), aprenderam no exílio a confiar plenamente em Deus.

Ambos intercederam pelo povo de Deus (2Sm 21, 24; Jo 17) e foram altamente exaltados pelo Senhor (2Sm 23:1-8; Is 52:13; Fp 2:9). Dessa maneira, e em muitas outras, a vida de Davi prefigurou as realizações supremas de Cristo, seu descendente.

Perguntas.

1.Qual era o propósito principal dos livros de Samuel em relação à dinastia de Davi?

2. Por que a casa de Davi foi estabelecida como a linhagem real para sempre?

3. Como a esperança do povo de Deus permaneceu na descendência de Davi, apesar da fragilidade do reino?

4. O que indica que os livros de Samuel foram escritos após o retorno do exílio babilônico?

5. Como a promessa de Deus a Davi em 2 Samuel 7 contribuiu para a esperança messiânica?

6. Quais foram as principais realizações políticas e teológicas do reinado de Davi?

7. De que forma os pecados de Davi trouxeram consequências para sua casa e para Israel?

8. Como a trajetória de Davi aponta para Cristo e sua obra redentora?

9. Quais paralelos podem ser observados entre a vida de Davi e a vida de Jesus?

10. O que a intercessão de Davi e a de Cristo ensinam sobre o papel da mediação diante de Deus?


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book of 2 Samuel. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Abril/2025.


Introdução ao Livro de 2 Samuel está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Site desenvolvido com WordPress.com.

Acima ↑