Introdução ao Livro de 1 Samuel.

Tempo de leitura: 15 minutos.

Autor: Desconhecido

Propósito: Demonstrar que a dinastia de Davi permaneceu como a esperança futura de Israel, apesar das maldições que ele e sua casa trouxeram sobre a nação.

Data: 930-538 a.C.

Verdades principais:

  • Deus desejava que seu povo tivesse o rei que Ele escolhesse.
  • Deus preparou cuidadosamente o caminho para o rei de Sua escolha.
  • Deus estabeleceu a casa de Davi como a linhagem real perpétua.
  • Apesar da fragilidade do Reino de Davi, a esperança do povo de Deus ainda permanecia em sua descendência.

Autor.

Os livros de Samuel eram originalmente uma única obra, posteriormente dividida em duas partes. O texto não apresenta uma indicação clara sobre sua autoria. É provável que a associação do nome de Samuel ao livro reflita apenas o papel central que ele desempenha nos primeiros capítulos. No entanto, Samuel já é descrito como idoso em 1 Samuel 8:1 e sua morte é relatada em 1 Samuel 25:1, o que ocorre muito antes de vários eventos narrados em 1 e 2 Samuel. Além disso, 1 Crônicas 29:29 menciona Samuel e seus sucessores proféticos, Natã e Gade, vinculando-os a certas fontes escritas. Algumas dessas fontes podem ter sido incorporadas à composição da história de Israel à medida que o texto tomou sua forma final.

Data e local da escrita.

O livro de Samuel fornece algumas pistas sobre sua data de composição final. O autor utilizou diversas fontes proféticas e registros reais para compor sua narrativa. A data mais antiga plausível pode ser inferida pelo fato de o livro se referir às “últimas palavras de Davi” (2 Samuel 23:1), isto é, suas declarações finais antes de sua morte.

Outro indicativo de datação está em 1 Samuel 27:6, que menciona que Ziclague permaneceu sob o domínio dos “reis de Judá”. Isso sugere que o livro reconhece a divisão do reino entre Judá e Israel, ocorrida em 930 a.C. Caso essa referência reflita um contexto posterior à divisão, o livro não poderia ter sido escrito antes desse período. Se Samuel foi composto nessa época, ele teria reafirmado a esperança na linhagem de Davi, mesmo diante das dificuldades causadas pela monarquia dividida.

A data mais provável para a composição final é o período do retorno do exílio, por volta de 538 a.C. O autor de Crônicas utilizou Samuel como uma de suas principais fontes (ver “Introdução a 1 Crônicas: Autor”). Além disso, o livro de Reis parece dar continuidade à narrativa do trono de Israel exatamente onde Samuel termina (ver 2 Samuel 23:1-7; 1 Reis 1:1). Em 1 Reis 2:27, há uma referência direta ao cumprimento da profecia de 1 Samuel 2:27-36, sugerindo que Samuel foi escrito antes de Reis, que é datado entre 561 e 538 a.C. (ver “Introdução a 1 Reis: Data e Lugar da Escrita”). Se Samuel foi finalizado nesse período, sua mensagem reforçaria a esperança na linhagem de Davi, apesar das consequências do exílio, resultante em grande parte da desobediência dos descendentes reais de Davi.

A determinação exata das datas para muitos eventos narrados em 1 e 2 Samuel é incerta. No entanto, há um consenso geral de que Davi consolidou seu governo sobre as tribos de Israel pouco antes de 1000 a.C., assumindo o reinado de Judá por volta de 1010 a.C. e o de Israel por volta de 1003 a.C. Estima-se que sua vida tenha se estendido aproximadamente de 1040 a 970 a.C.

Objetivo e Características.

O título do livro variou ao longo dos séculos. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) agrupa 1 e 2 Samuel junto com 1 e 2 Reis sob a denominação de “Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Livros dos Reinos” (ou “Reinados”). De maneira semelhante, a Vulgata (a tradução latina da Bíblia) se refere a esses livros como “Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Reis”. A maioria das versões modernas, no entanto, segue a tradição hebraica, que distingue entre os livros de Samuel e os de Reis. Até o século XV, a tradição hebraica tratava 1 e 2 Samuel como um único livro.

Foi durante a segunda metade do século XI a.C., uma época em que os impérios do antigo Oriente Próximo ainda não estavam em sua plenitude, que Deus transformou Israel de uma confederação tribal frouxamente unida em uma monarquia centralizada. Embora a instituição da monarquia tenha representado um desenvolvimento político e religioso significativo, ela não era uma ideia nova em Israel. Um princípio fundamental da fé israelita era que o próprio Senhor era o soberano de Israel, o grande Rei (cf. 1 Sam. 8:7; 12:12; Nm. 23:21; Sl. 5:2; Ml. 1:14). No entanto, os livros iniciais da Bíblia contêm várias indicações de que, conforme a vontade divina, Israel teria, um dia, um monarca humano (Gn. 49:10; Nm. 24:7, 17-19; cf. Gn. 17:6, 16; 35:11). Em Deuteronômio 17:14, Moisés antecipa um momento em que Israel, já estabelecido na terra prometida, desejaria ter um rei, e dá instruções para regular a realeza assim que a monarquia fosse instituída (cf. 1 Sam. 15-20; 1 Sam. 28:36). Esse período de tempo é o foco do livro de Samuel.

Por conseguinte, o narrador do livro de Samuel tinha pelo menos dois propósitos principais. O primeiro era registrar um relato histórico verdadeiro sobre o nascimento e o desenvolvimento inicial da monarquia israelita. Embora essa história seja seletiva e avaliativa, ela é historicamente precisa. O segundo propósito está relacionado à maneira como o narrador seleciona e avalia os eventos históricos, o que revela seus complexos objetivos teológicos. O ponto central desses interesses teológicos é a teologia da realeza davídica. O livro registra a ascensão, os sucessos e os fracassos do governo de Davi, mas o faz para ensinar uma teologia da realeza, com o intuito de beneficiar as gerações futuras que seriam lideradas pelos filhos reais de Davi.

Assim como Josué, Juízes e 1 e 2 Reis, a teologia de 1 e 2 Samuel é profundamente influenciada por Deuteronômio (veja “Introdução aos Livros Históricos”). As ênfases de Deuteronômio nas bênçãos e maldições da aliança, na centralização da adoração e da autoridade, na condenação da idolatria, na exigência de retidão dos reis e no papel dos profetas formam o pano de fundo teológico que orienta o livro de Samuel. Ao aplicar a teologia de Deuteronômio ao desenvolvimento inicial da monarquia em Israel, o autor de Samuel explicou o que os futuros reis deveriam aprender com os sucessos e fracassos de Davi e por que, apesar das maldições da aliança que a casa de Davi trouxe sobre a nação, a dinastia davídica permaneceu como a esperança de Israel.

Esses propósitos teológicos raramente são expressos de maneira explícita no livro de Samuel. Como acontece na maioria das narrativas do Antigo Testamento, a abordagem de Samuel é altamente dramática. Os personagens agem e interagem diante dos leitores, como se estivessem em um palco. Em vez de o narrador expor diretamente a interpretação dos eventos, os próprios personagens revelam o significado das ações, desafiando os leitores a refletirem e exercerem discernimento moral.

Seguindo essa abordagem dramática, Samuel foi escrito de forma concisa, com o narrador empregando uma variedade de técnicas sofisticadas para expressar suas avaliações teológicas:

  1. Palavras-chave – certos termos são repetidos para enfatizar conceitos teológicos.
  2. Caracterizações comparativas ou contrastantes – por exemplo, Saul e Jônatas em 1 Samuel 13–14 e Davi e Urias em 2 Samuel 11.
  3. Repetição com variação – como nas duas confissões de Saul em 1 Samuel 15:24-25, 30.
  4. Analogia narrativa – um personagem funciona como substituto simbólico de outro, como Nabal representando Saul em 1 Samuel 25.

A atenção a esses elementos literários permite ao leitor obter uma compreensão teológica mais profunda.

Dado o conteúdo denso e complexo de 1 Samuel, é útil estruturar seu enredo em quatro partes principais (mais um apêndice), que narram as trajetórias entrelaçadas de Samuel, Saul e Davi.

1 Samuel 1–7 apresenta os eventos que antecederam a ascensão de Saul, o primeiro rei de Israel. A primeira metade dessa seção (1 Sam. 1–3) relata o nascimento de Samuel (1 Sam. 1:1-28). O capítulo 2 se inicia com o cântico de louvor de Ana pelo nascimento de seu filho (1 Sam. 2:1-10). Tanto esse cântico quanto as composições poéticas de Davi (2 Sam. 22–23) servem como moldura para os livros de Samuel, introduzindo temas centrais para sua teologia: a soberania e a santidade de Deus, a inversão divina das circunstâncias humanas, a libertação operada por Deus e a futilidade de confiar na força humana. Até mesmo a realeza é antecipada nesse cântico, por meio da referência ao “ungido” do Senhor, seu rei (1 Sam. 2:10).

O restante do capítulo 2 narra a decadência da casa sacerdotal de Eli, introduzindo outro tema crucial do livro: a rejeição divina e suas causas. O capítulo 3 reforça essa rejeição, agora explicitada pelas palavras do Senhor ao jovem profeta Samuel, que, a partir desse momento, assumiria seu papel como homem de Deus na transição para a monarquia.

1 Samuel 4:1–7:1 compõe o que é frequentemente chamado de “narrativa da arca”. Esses capítulos destacam de maneira impressionante o poder do Senhor, primeiramente ao resistir à tentativa de Israel de manipular a arca como uma fonte de poder mágico e, em seguida, ao demonstrar sua soberania ao devastar as cidades filisteias em uma espécie de marcha triunfal. Já em 1 Samuel 7:2–17, encontra-se um clímax para as seções anteriores, pois o poder de Deus em libertar Israel e derrotar seus inimigos se manifesta por meio do profeta Samuel.

Nesse contexto, a pecaminosidade da demanda do povo por um governante humano (1 Sam. 8–12) torna-se ainda mais evidente. O problema não estava no fato de Israel ter um monarca, pois a instituição da realeza já era antecipada havia muito tempo. A questão central era o desejo do povo por um rei “como todas as outras nações” (1 Sam. 8:5), o que implicava uma rejeição do verdadeiro Rei, o próprio Deus (1 Sam. 8:7). Apesar da insensatez e da afronta desse pedido, Deus permitiu que tivessem um rei, desde que estivessem cientes dos riscos de abusos inerentes à monarquia e que o próprio rei não buscasse autonomia, mas permanecesse submetido à autoridade divina.

É justamente nesse ponto que o primeiro rei de Israel, Saul, se mostrou inadequado. Apresentado em 1 Samuel 9:2 como um homem impressionante e de grande estatura – presumivelmente o tipo de líder que o povo idealizava – , logo se torna evidente que lhe faltavam as qualidades necessárias para governar Israel com êxito. Sua principal deficiência foi a recorrente desobediência à palavra do Senhor, conforme relatada por Samuel. Embora os episódios mais conhecidos de sua desobediência estejam em 1 Samuel 13 e 15, já em 1 Samuel 10 encontra-se uma indicação inicial de sua inadequação.

Na ocasião da unção de Saul, Samuel lhe deu três sinais como confirmação. Após o cumprimento do terceiro, Saul deveria “fazer tudo o que sua mão encontrasse para fazer” (1 Sam. 10:7), e então retornar a Gilgal para aguardar instruções adicionais sobre a batalha contra os filisteus, conforme a ordem posterior de Samuel (1 Sam. 10:8). Caso Saul seguisse essas diretrizes, demonstraria sua disposição de se submeter ao governo de Deus e confirmaria sua aptidão para a realeza. Além disso, sua ascensão ao trono seguiria um padrão triplo: designação (por unção), demonstração (por um ato de coragem – “tudo o que sua mão encontrasse para fazer”, 1 Sam. 10:7) e confirmação (pelo reconhecimento do povo e do profeta).

No entanto, Saul hesitou em obedecer à ordem de 1 Samuel 10:7 e precipitou o processo de ascensão ao trono. Sua vitória sobre os amonitas (1 Sam. 11) satisfez o povo, mas o discurso de Samuel em 1 Samuel 12 revela que, pelo menos em sua percepção, Saul ainda não havia demonstrado a verdadeira aptidão para governar como rei de Israel.

Em 1 Samuel 13, foi Jônatas, e não Saul, quem realizou a ação que deveria ter sido conduzida por Saul, desafiando os filisteus. Reconhecendo, ao que parece, que a ordem de 1 Samuel 10:7 havia sido cumprida – embora por meio de Jônatas – Saul desceu imediatamente a Gilgal (conforme 1 Sam. 10:8) para aguardar a chegada de Samuel. Contudo, diante da demora de Samuel, Saul decidiu oferecer os sacrifícios pré-batalha por conta própria, alegando que a situação militar exigia uma ação imediata. No entanto, assim que Saul iniciou os sacrifícios, Samuel chegou. Após ouvir as justificativas de Saul, o profeta declarou que ele havia agido de maneira insensata e que, por essa razão, seu reino não perduraria.

Alguns comentaristas tentam justificar, ou ao menos minimizar, as ações de Saul e consideram a reação de Samuel excessivamente rigorosa. No entanto, à luz do significado da ordem dada em 1 Samuel 10:7-8 – que servia como um teste para determinar a aptidão de Saul como rei – essas interpretações devem ser rejeitadas. Tanto nesta primeira rejeição de Saul quanto na segunda, registrada em 1 Samuel 15, seus atos específicos de desobediência não foram meras infrações pontuais, mas evidências de sua incapacidade fundamental de se submeter às exigências da realeza teocrática.

Após sua rejeição definitiva em 1 Samuel 15, Saul já não era mais o rei legítimo aos olhos de Deus, embora tenha permanecido no trono por alguns anos. Foi então que Deus voltou sua atenção para outro: Davi, “um homem segundo o seu coração” (1 Sam. 13:14). Os capítulos de 1 Samuel 16 a 31 narram a progressiva deterioração emocional e psicológica de Saul—agravada por seu temor a Davi, a quem reconhecia como o escolhido de Deus para sucedê-lo. Depois de inúmeras tentativas fracassadas de tirar a vida de Davi, Saul acabou por tirar a sua própria. Enquanto isso, Davi foi conduzido de forma providencial, ainda que indireta, rumo ao trono. Desde sua unção em 1 Samuel 16, o relato de sua ascensão é marcado por repetidas afirmações de que “o Senhor estava com ele” (1 Sam. 16:18).

Cristo em 1 e 2 Samuel.

Cristo contrasta com os muitos líderes pecadores de Israel apresentados nesses livros. Mais do que isso, Ele é o herdeiro do trono de Davi, e a trajetória de Davi não apenas preparou o caminho, mas também antecipou a pessoa e a obra de Cristo.

Tanto Davi quanto Jesus receberam sanção profética – Davi por meio de Samuel (1 Sam. 3:20; 16:13) e Jesus por João Batista (Mat. 14:5; João 1:29-31; 5:31-35). O Espírito do Senhor veio sobre ambos (1 Sam. 16:13; Mar. 1:9-11), e ambos realizaram feitos poderosos (1 Sam. 17:1-58; Mat. 11:4-5). Assim como Davi esteve envolvido na guerra santa contra os inimigos de Israel (1 Sam. 17:1-58), Cristo realizou a maior batalha espiritual, trazendo a reconciliação pelo sangue da cruz (Cl. 1:20).

Ambos foram perseguidos por reis invejosos – Davi por Saul (1 Sam. 18:9) e Jesus por Herodes (Mat. 2:16) – e receberam advertências para fugirem a fim de preservar suas vidas (1 Sam. 20:1-42; Mat. 2:13-15). Também foram rejeitados por seu próprio povo sem justa causa (1 Sam. 23:12; João 19:15) e, no exílio, aprenderam a depender inteiramente de Deus.

Além disso, ambos intercederam pelo povo de Deus – Davi em momentos críticos da história de Israel (2 Sam. 21; 24) e Jesus em Sua oração sacerdotal (João 17). Por fim, ambos foram altamente exaltados por Deus – Davi como o grande rei de Israel (2 Sam. 23:1-8) e Cristo como o Rei supremo, cujo domínio se estende sobre toda a criação (Is. 52:13; Fp. 2:9).

Dessas e de muitas outras formas, a vida de Davi prefigurou as realizações de Cristo, seu descendente e cumprimento supremo das promessas davídicas.

Perguntas.

1. Qual é o propósito principal do livro de 1 Samuel?

2. Por que a linhagem de Davi permaneceu como a esperança de Israel, apesar das dificuldades enfrentadas?

3. Quais são as principais verdades destacadas na introdução ao livro de 1 Samuel?

4. O que a ausência de uma indicação clara de autoria nos livros de Samuel sugere sobre sua composição?

5. Quais evidências no texto indicam que o livro foi escrito após a divisão do reino em 930 a.C.?

6. Como o livro de 1 Samuel demonstra a relação entre a teologia de Deuteronômio e a monarquia israelita?

7. Quais eram os dois principais propósitos do autor ao registrar a história da monarquia em Israel?

8. De que forma o livro de 1 Samuel emprega técnicas literárias para enfatizar seus temas teológicos?

9. Como o livro estrutura sua narrativa para apresentar a transição entre os períodos de Samuel, Saul e Davi?

10. De acordo com a introdução, qual é o papel do leitor ao interpretar os eventos narrados em 1 Samuel?


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book 1 Samuel. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Março/2025.


Introdução ao Livro de 1 Samuel está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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