Introdução ao Livro de Deuteronômio.

Tempo de leitura: 9 minutos.

Autor: Moisés

Propósito: Incentivar a renovação da aliança mediada por Moisés, à medida que Israel se preparava para entrar na Terra Prometida sob a liderança de Josué.

Data: c. 1406 a.C.

Verdades Principais:

  • Os israelitas, acampados nas planícies de Moabe, aprenderiam a importância da lealdade à aliança por meio das experiências da geração anterior.
  • As leis entregues por Moisés foram estabelecidas para o benefício do povo de Deus, guiando-os em sua jornada rumo à Terra Prometida sob a liderança de Josué.
  • A fidelidade à aliança resultaria em bênçãos, enquanto a desobediência traria maldições.
  • Os israelitas deveriam renovar seu compromisso com a aliança tanto antes de entrarem na Terra Prometida quanto após sua posse.

Autor.

Embora Deuteronômio, assim como o restante do Pentateuco, seja substancialmente obra de Moisés, é evidente que algumas partes foram adicionadas posteriormente, como o relato de sua morte em Deuteronômio 34. Além disso, certos trechos podem ter passado por edições posteriores. No entanto, o livro deve ser lido no contexto da época de Moisés. Veja “Introdução ao Pentateuco”.

Data e Local da Escrita.

Deuteronômio foi escrito, em grande parte, nas planícies de Moabe por volta de 1406 a.C., enquanto os israelitas se preparavam para entrar na Terra Prometida. No entanto, sua redação provavelmente só foi concluída nos dias de Josué, quando elementos como o relato da morte de Moisés (Dt 34) podem ter sido acrescentados. Veja “Introdução ao Pentateuco”.

Público Original.

Moisés escreveu para a segunda geração do Êxodo. Seus pais, incrédulos, haviam perecido no deserto como punição divina (Nm 32.10-13), mas Deus preservou seus filhos para garantir a continuidade de seu povo santo e cumprir as promessas feitas aos patriarcas. Como Moisés não recebeu permissão para conduzi-los à Terra Prometida (Dt 1.37-38), reafirmou a Lei de Deus para orientá-los na renovação da aliança sob a liderança de Josué. Veja “Introdução ao Pentateuco”.

Objetivo e Características.

Com o fim da primeira geração do Êxodo, Moisés precisava exortar a nova geração a evitar os pecados de seus pais e a comprometer-se com a Lei, para que pudessem desfrutar das bênçãos futuras. Deuteronômio consiste principalmente em três grandes discursos e um compêndio legal, apresentados por Moisés ao final de sua vida. O livro registra as exortações de Moisés à nação, convocando o povo a renovar sua aliança com Deus, tanto antes quanto depois de entrar na Terra Prometida.

Observa-se que o conteúdo de Deuteronômio guarda semelhança com os principais elementos dos antigos tratados do Oriente Próximo. Tratados entre reis soberanos (suseranos) e seus vassalos geralmente seguiam um padrão estruturado, e o livro reflete esse modelo bem documentado:

  1. Preâmbulo (Dt 1.1-4)
  2. Prólogo histórico (Dt 1.5-4.43)
  3. Estipulações (Dt 4.44-26.19)
  4. Ratificação (Dt 27.1-30.20)
  5. Sucessão de liderança (Dt 31.1-34.12)

Alguns estudiosos atribuem grande importância a essas semelhanças, embora as seções de Deuteronômio apenas se aproximem desse modelo.

Deuteronômio é melhor compreendido como uma coletânea de discursos reunidos em sua forma atual. O primeiro discurso (Dt 1.5-4.43) relembra as experiências de Israel sob a liderança de Moisés. O livro não detalha o confronto de Moisés com Faraó ou os milagres das dez pragas que levaram à libertação do povo, mas faz alusão ao Êxodo em diversas ocasiões (cinco vezes no primeiro discurso – Dt 1.27, 30; 4.20, 34, 37).

Moisés recorda o cuidado providencial e milagroso de Deus ao conduzir Israel do Egito até Horebe e narra a derrota espiritual e militar do povo em Cades-Barneia. Nessa seção, há referências a eventos descritos em Números. Assim como nesse livro, Deuteronômio menciona pouco sobre os 40 anos de peregrinação no deserto. A narrativa destaca a jornada ao redor de Edom rumo à Transjordânia, além da derrota de Siom e Ogue, registrada com mais detalhes do que em Números. Também é descrita a alocação de terras na Transjordânia para as tribos de Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés (cf. Nm 32).

A narrativa se encerra com a menção ao apelo pessoal de Moisés para entrar em Canaã, o qual Deus rejeitou (cf. Nm 27.12-23). Moisés conclui seu discurso com exortações à fidelidade ao Senhor.

A primeira parte do segundo discurso (Dt 4.44-11.32) consiste em uma série de exortações e tem início com os Dez Mandamentos. Embora esses mandamentos tenham sido proclamados diretamente pela voz de Deus, o restante da lei foi transmitido por meio de Moisés. Deuteronômio 6–11 apresenta os princípios fundamentais que norteiam um relacionamento de aliança com Deus.

O capítulo 6 registra o famoso Shema: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6.4), seguido da exortação a amar a Deus de todo o coração (Dt 6.5). Em seguida, há uma convocação à instrução, à lembrança e à obediência (Dt 6.6-25). Os capítulos subsequentes estão repletos de referências ao cuidado e aos juízos de Deus desde a saída do Egito, com alusões a passagens de Êxodo e Números. Esses relatos serviam como advertências para que os israelitas depositassem sua confiança no Senhor, em vez de dependerem de si mesmos. Essa seção culmina com a promessa de vitória nas futuras guerras para a conquista de Canaã.

A segunda parte do segundo discurso (Dt 12.1-26.19) apresenta uma série de leis que abrangem diferentes aspectos da vida em Israel. Entre essas regulamentações estão normas sobre a adoração ao Senhor, a alimentação pura, o tratamento de escravos e o perdão de dívidas, além de instruções sobre festas anuais, o papel dos juízes, a instituição das cidades de refúgio e diversas questões de conduta. A maior parte dessas leis encontra paralelos nos livros anteriores do Pentateuco.

O terceiro discurso (Dt 27.1-30.20) é uma exortação enfática para que Israel obedeça às leis do Senhor. Ele inclui as instruções para a cerimônia solene que deveria ocorrer no vale entre o Monte Ebal e o Monte Gerizim, próximo a Siquém, assim que Israel consolidasse sua presença em Canaã. Essa cerimônia remete à aliança estabelecida em Êxodo 20.1-24.8 e foi devidamente realizada por Josué (Js 8.30-35).

Alguns intérpretes argumentam que esse discurso, com suas orientações sobre o altar e a proclamação das bênçãos e maldições, serve, na verdade, como uma conclusão do discurso anterior, visto que segue o formato de um tratado de aliança. De qualquer forma, Moisés apresentou essas leis e exortações com grande ênfase na responsabilidade de Israel de ouvir e obedecer à lei do Senhor.

As seções finais do livro são igualmente significativas e impactantes (Dt 31.1-34.12). Elas incluem a nomeação de Josué como sucessor de Moisés; o cântico de Moisés, que exalta a grandeza de Deus e seu cuidado pelo povo da aliança (Dt 32); a bênção de Moisés às doze tribos, semelhante à bênção de Jacó a seus doze filhos (Gn 49); e o relato da morte de Moisés (Dt 34).

O título do livro tem origem na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, que o denominou Deuteronômio, ou “segunda lei”. No entanto, um significado mais preciso seria “repetição da lei”.

Cristo em Deuteronômio.

Moisés, como mediador da Antiga Aliança e fundador da teocracia de Israel, prefigurou Jesus Cristo, o Filho de Deus, que mediou a Nova (ou renovada) Aliança (Jr 31.31-34). Embora a substância moral das alianças seja a mesma, suas formas de administração diferem significativamente. Essa continuidade essencial é evidenciada na forma como Paulo relacionou sua mensagem do evangelho ao apelo de Moisés para que Israel renovasse a aliança.

Em Deuteronômio, a graça divina precede a resposta humana de fé, e a obediência é a evidência de uma fé genuína — um princípio igualmente presente no ensino do Novo Testamento. Ainda assim, Deuteronômio representa um estágio na revelação da aliança de Deus que prenuncia as realidades maiores da aliança de Cristo. A Antiga Aliança foi selada com o sangue de animais, enquanto a Nova e eterna Aliança foi ratificada com o sangue eficaz de Cristo (Jr 32.40; Hb 9.11-28). Moisés clamou por uma religião do coração (Dt 6.6; 30.6), mas essa aliança tornou-se obsoleta devido à fraqueza humana (Rm 8.3; Hb 8.13). Em contraste, Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, transforma o coração humano.

Cristo também é antecipado em Deuteronômio por meio de diversas figuras e temas. Ele é o Cordeiro da Páscoa (Dt 16.1-17) e o Profeta prometido. A ênfase de Deuteronômio na centralização do culto em um santuário (Dt 12) prefigura a visão do Novo Testamento sobre Cristo como o único que pode conceder a salvação. Os detalhes do sistema sacrificial apontam para o sacrifício supremo de Jesus. Além disso, a promessa da vida na terra prometida antecipa a esperança dos novos céus e da nova terra oferecida por Cristo a todos os que creem nele. Assim como Moisés convocou os israelitas à fidelidade para que herdassem a terra, Cristo nos chama à fidelidade a ele, para que possamos entrar no mundo vindouro e desfrutar de suas bênçãos eternas.

Pergunta.

1. Qual foi o principal propósito de Moisés ao escrever o livro de Deuteronômio?

2. Por que a fidelidade à aliança era crucial para os israelitas antes de entrarem na Terra Prometida?

3. Como Deuteronômio se assemelha aos tratados do Oriente Próximo?

4. Quem foi o público original do livro e por que essa geração era diferente da anterior?

5. De que maneira Moisés apontou para Cristo como mediador da Nova Aliança?

6. Como o livro de Deuteronômio reforça a importância da obediência à Lei de Deus?

7. O que é o Shema e qual sua relevância para a fé de Israel?

8. Quais foram os principais discursos registrados em Deuteronômio e qual era seu propósito?

9. Como as bênçãos e maldições em Deuteronômio refletem o princípio da aliança entre Deus e Israel?

10. Qual é a relação entre a graça divina e a obediência à Lei, segundo Deuteronômio e o Novo Testamento?


Introdução ao Livro de Deuteronômio está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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