Introdução ao Livro de Números.

Autor: Moisés

Propósito: Convocar a segunda geração do êxodo a servir a Deus como um exército santo na conquista da Terra Prometida, evitando os erros do passado e permanecendo fiel às diretrizes divinas.

Data: c. 1406 a.C.

Verdades Principais:

  • Deus preparou completamente seu povo para servi-lo e obter sucesso na conquista da Terra Prometida.
  • A primeira geração falhou porque foi ingrata pela graça recebida e temeu o poder dos cananeus.
  • Deus levantou uma nova geração para conquistar a terra, mas eles também precisavam permanecer fiéis ao Senhor para alcançar a vitória.

Autor.

Assim como o restante do Pentateuco, o livro de Números foi escrito por Moisés, embora algumas porções possam ter sido acrescentadas posteriormente. Para uma discussão mais aprofundada sobre a autoria do Pentateuco e de Números, consulte a Introdução ao Pentateuco.

Data e Local da Escrita.

O livro pode ser datado do período entre o fim da peregrinação pelo deserto e a morte de Moisés, por volta de 1406 a.C. Ele começa com os preparativos para a jornada pelo deserto e termina com a preparação para a entrada em Canaã (Nm 22:1; 26:3, 63; 31:12; 33:48, 50; 34:15; 35:1; 36:13).

Números foi escrito para a geração de israelitas nascidos no deserto, enquanto aguardavam nas planícies de Moabe, diante de Jericó. Moisés os encorajou a perseverar na fé e na obediência, em contraste com seus pais, que falharam nesse compromisso. Enquanto se preparavam para conquistar Canaã, este livro os convocava a avançar como o exército santo do Senhor.

Objetivo e Características.

O título deste livro na Bíblia Hebraica deriva da quinta palavra do primeiro versículo, traduzida como “no deserto” — uma descrição apropriada do conteúdo da obra. Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego (a Septuaginta), seus livros receberam nomes gregos. Neste caso, adotou-se Arithmoi, ou “Números”, termo que se refere especificamente às listas de homens aptos para o combate.

Pelo menos três temas são fundamentais para a mensagem de Números. O primeiro é a misericórdia e a fidelidade de Deus para com seu povo. O livro descreve como Deus dirigiu os israelitas em sua jornada pelo deserto, confortando-os em meio às dificuldades, tratando de seus medos e exercendo juízo somente após demonstrar grande paciência. As falhas do povo — inclusive as de líderes como Arão, Miriã e Moisés — contrastam com a perfeição do Deus da aliança, que permanece sempre fiel.

O segundo tema central é o poder soberano de Deus para cumprir seus propósitos. Números relata o fracasso completo da primeira geração e o julgamento severo que ela recebeu. No entanto, também transmite esperança à segunda geração do êxodo, mostrando que Deus continuava conduzindo a história para o cumprimento de sua promessa: levar Israel à Terra Prometida. Mesmo quando seu povo falha, os propósitos de Deus não falham.

O terceiro tema essencial de Números é a responsabilidade do povo de Deus em permanecer fiel ao chamado que recebeu. O livro termina de forma abrupta, com a segunda geração se preparando para entrar na terra prometida, sem relatar as batalhas que enfrentaram após cruzar o Jordão. Seu propósito é convocar essa nova geração a avançar na conquista como o exército santo do Senhor.

Uma das questões mais debatidas na interpretação de Números é o grande número de soldados listados (ver Nm 1; 26). Se tomados literalmente, esses números indicariam uma população total superior a dois milhões de pessoas. No entanto, isso levanta dificuldades arqueológicas, especialmente quando comparado ao tamanho das cidades cananeias da época. Além disso, outros dados numéricos, como o número de primogênitos registrado em Números 3:43, parecem desproporcionais em relação a essa estimativa populacional.

Ao longo da história da interpretação bíblica, estudiosos que defendem a veracidade das Escrituras adotaram pelo menos cinco principais explicações para essa questão:

  1. Interpretação literal: Os números são tomados como registros exatos, apesar das aparentes dificuldades.
  2. Erro de transmissão textual: Acredita-se que os números tenham sido alterados ao longo da história da cópia dos manuscritos.
  3. Uso técnico do termo “mil” (hebraico: eleph): Sugere-se que a palavra possa designar unidades menores, em vez de representar exatamente mil pessoas.
  4. Reinterpretação do termo “mil” como “chefes”: Propõe-se que eleph possa referir-se a líderes ou grupos militares, e não a um número absoluto.
  5. Uso de hipérbole: Os números seriam intencionais exageros literários, compreendidos pelos leitores da época como uma forma de enfatizar a graça extraordinária de Deus para com Israel.

Cristo em Números.

O livro de Números apresenta um retrato histórico que aponta para Cristo de pelo menos cinco maneiras principais.

Primeiro, de forma ampla, ao descrever Israel se preparando para a guerra santa em Canaã, falhando e retomando os preparativos, o livro lembra os cristãos dos estágios finais da guerra santa por meio da qual Cristo conquistará os novos céus e a nova terra. A batalha final começou com sua morte e ressurreição (Cl 2:15; Hb 2:14-15) e continua hoje por meio da pregação do Evangelho pela Igreja (At 15:15-17; Ef 6:10-18). Por fim, quando Cristo retornar, essa guerra será concluída de forma definitiva (Ap 19:11-21; 21:1-5).

Em segundo lugar, o constante apelo à fidelidade do povo de Deus em Números aponta para duas realidades fundamentais: a salvação concedida pela perfeita obediência de Cristo (2Co 5:19) e o chamado para que seus seguidores vivam em santidade (Hb 12:14).

Terceiro, Cristo também é revelado por meio de diversos tipos presentes em Números. A obra redentora de Cristo é simbolizada, por exemplo, na tipologia da novilha vermelha (Nm 19; Hb 9:13), na água extraída da rocha (Nm 20:11; 1Co 10:4) e na serpente de bronze levantada no deserto, que trouxe vida aos que olhavam para ela (Nm 21:4-9; Jo 3:14-15).

Quarto, a profecia sobre as conquistas de Davi, que derrotaria os inimigos de Israel (Nm 24:15-19), prefigura Cristo. Como o grande Filho de Davi, ele será universalmente reconhecido como o supremo Rei de todos.

Por fim, a centralidade do Tabernáculo também aponta para Cristo. Em sua primeira vinda, Jesus veio para habitar [lit. “tabernacular”] entre a humanidade (Jo 1:14). Por meio de sua morte e ressurreição, ele abriu o caminho para que todos os que creem tenham acesso direto à presença de Deus (Mc 15:38; Hb 6:19; 10:20). O apóstolo Paulo ensinou que a Igreja é o templo de Deus e que cada cristão, individualmente, também é sua morada (1Co 3:16; 6:19-20; Ef 2:19-22). No segundo advento, a habitação de Deus com a humanidade será plena, e não haverá mais necessidade de um templo, pois o próprio Senhor Deus e o Cordeiro serão o Templo (Ap 21:3, 22).

Perguntas.

1. Qual era o propósito do livro de Números para a segunda geração do êxodo?

2. Quais foram os principais erros da primeira geração que impediram sua entrada na Terra Prometida?

3. Quais são os três temas centrais do livro de Números? Explique brevemente cada um.

4. O que a estrutura e o conteúdo do livro de Números revelam sobre a fidelidade e a misericórdia de Deus?

5. Como a preparação do povo de Israel para a conquista de Canaã se relaciona com a missão da Igreja hoje?

6.Quais são as cinco explicações possíveis para os números aparentemente elevados da população israelita no deserto?

7. De que forma o conceito de “guerra santa” em Números aponta para a batalha espiritual dos cristãos hoje?

8. Quais são alguns dos tipos de Cristo encontrados no livro de Números? Escolha um e explique seu significado.

9. Como a profecia sobre as conquistas de Davi (Nm 24:15-19) se conecta com a realeza de Cristo?

10. De que maneira a centralidade do Tabernáculo no Antigo Testamento aponta para a habitação de Deus entre os crentes no Novo Testamento?


Fonte:

PRATT, Richard, ed. NIV Spirit of the Reformation Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2003.

Fonte: Overview of the Book of Numbers. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Janeiro/2025.


Introdução ao Livro de Números está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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