Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 31.

Pergunta 31: O que é vocação eficaz?

Resposta: Vocação eficaz é a obra do Espírito Santo[1] pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria[2], iluminando nosso entendimento pelo conhecimento de Cristo,[3] e renovando a nossa vontade,[4] ele nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no evangelho.[5]

PROVAS BÍBLICAS.

Provas 01:

  • 1Tessalonicenses 2.13: Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes.
  • 2Timóteo 1.8–9: Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos.

Prova 02:

  • Atos dos Apóstolos 2.37: Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?

Prova 03:

  • Atos dos Apóstolos 26.18: Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.

Prova 04:

  • Ezequiel 36.25–27: Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis .

Provas 05:

  • Filipenses 2.13: Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.
  • João 6.37: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.
  • João 6.44–45: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim.

Comentário.

É amplamente reconhecido que Deus chama os homens à salvação de duas maneiras: por meio do chamado externo de sua Palavra ou providência e do chamado interno de seu Espírito. O chamado externo é mencionado em passagens como a Grande Comissão (Mt 28.19) e na Parábola do Banquete de Casamento (Mt 22), onde aqueles que foram chamados se recusaram a vir. Ele consiste na apresentação do Evangelho aos pecadores, acompanhada de uma exortação sincera ao arrependimento e à fé em Cristo, para que recebam o perdão dos pecados e a vida eterna.

É importante observar, contudo, que, embora a apresentação do Evangelho e a ordem de arrependimento e fé sejam dirigidas a todos — tanto eleitos quanto réprobos (cf. Mt 22.9) —, o chamado externo, como um ato gracioso de Deus, é, estritamente falando, feito somente aos eleitos. Calvino destaca isso ao afirmar que “a pregação do Evangelho flui da fonte da eleição” e que ela implica tanto “o chamado dos eleitos quanto a cegueira e o endurecimento dos ímpios” (Institutas da Religião Cristã 3.24.1).1 Explicando Mateus 22.14 (“Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”), ele esclarece: “Há dois tipos de chamado. O primeiro é aquele pelo qual Deus convida todos, igualmente, por meio da pregação externa da Palavra — até mesmo aqueles para quem ela se torna um cheiro de morte (cf. 2Co 2.16) e ocasião de maior condenação. O segundo é um chamado especial, que ele geralmente concede apenas aos crentes, iluminando seus corações pelo Espírito Santo, de modo que a Palavra pregada habite neles” (Institutas da Religião Cristã 3.24.8).2

Portanto, há, na realidade, apenas um chamado gracioso e salvador, direcionado exclusivamente aos eleitos, que compreende duas partes: a pregação externa (ou leitura) e a iluminação interna. A pregação externa, que pode ser genericamente chamada de “chamado externo”, é também ouvida pelos réprobos, mas, como afirmou Calvino, serve apenas como um cheiro de morte.

O chamado externo, entretanto, é sempre ineficaz, a menos que o Espírito Santo opere uma obra de graça no coração do ouvinte. Diferentemente da visão arminiana, essa obra não ocorre sempre que a Palavra é pregada. Quando o Espírito Santo atua, no entanto, o chamado torna-se invariavelmente eficaz.

O aspecto interno do chamado é conhecido como chamado eficaz. Ele, segundo a confissão reformada, visa “persuadir-nos e capacitar-nos a abraçar Jesus Cristo, oferecido gratuitamente no Evangelho”. As Escrituras descrevem essa obra como “atrair” o pecador a Cristo e como fazê-lo agir de acordo com a boa vontade de Deus (Fp 2.13). Este chamado eficaz compreende três aspectos:

1. Convencer-nos do pecado e da miséria: sensibilizando o coração e despertando a consciência enquanto ouvimos a Palavra, especialmente a Lei pregada (At 2.37; Rm 3.20), além de persuadir-nos da terrível ira de Deus contra o pecado;

2. Iluminar nossas mentes no conhecimento de Cristo: abrindo os olhos para contemplar Cristo e reconhecendo que somente ele é capaz e disposto a salvar (Jo 3.3; At 26.18; Jo 6.37; Hb 7.25);

3. Renovar nossas vontades: concedendo-nos uma nova disposição (Ez 36.26-27) que nos faz achar Cristo irresistível.

Os dois primeiros aspectos referem-se à obra do Espírito Santo em nossa mente, enquanto o terceiro diz respeito à transformação da vontade, operada no coração e na disposição do pecador.

O chamado eficaz, por sua natureza, resulta em transformação genuína e duradoura na vida do pecador. Diferentemente do chamado externo, o chamado interno não depende da resposta humana, mas da ação soberana de Deus. Ele molda o coração do pecador para responder de maneira positiva ao Evangelho, movendo a mente e a vontade em direção a Cristo. Esse processo evidencia a supremacia da graça divina, que age para garantir a salvação dos eleitos de forma irresistível e definitiva.

Além disso, o chamado eficaz é uma manifestação direta do plano eterno de Deus em conduzir seus eleitos à glória. O apóstolo Paulo destaca que aqueles que Deus predestinou, também chamou, justificou e glorificou (Rm 8.30). Essa cadeia de eventos, conhecida como a “cadeia dourada da salvação”, assegura que o chamado eficaz é parte inseparável da obra redentora de Deus. Assim, ele é mais do que um convite; é a concretização do decreto eterno de Deus, que não pode ser frustrado ou anulado.

Por fim, o chamado eficaz reflete o amor incomparável de Deus por seu povo. Enquanto o chamado externo proclama a mensagem do Evangelho a todos, o chamado interno demonstra o cuidado pessoal de Deus em alcançar seus eleitos de forma íntima e poderosa. É nesse chamado que o pecador experimenta a graça transformadora, passando da morte espiritual para a vida em Cristo (Ef 2.4-5). Essa obra interna, operada pelo Espírito Santo, é a essência do novo nascimento, sem o qual ninguém pode ver o Reino de Deus (Jo 3.3).

Conclusão.

O chamado de Deus para a salvação é uma expressão de sua soberania e graça. O chamado externo proclama a mensagem do Evangelho a todos, enquanto o chamado interno garante que os eleitos sejam efetivamente conduzidos à fé em Cristo. Essa distinção destaca a supremacia da ação divina na obra da salvação, assegurando que, do início ao fim, ela depende inteiramente de Deus. Por meio do chamado eficaz, os eleitos são convencidos de seu pecado, iluminados no conhecimento de Cristo e renovados em sua vontade, experimentando o poder transformador do Evangelho. Assim, a salvação é, em sua totalidade, uma obra da graça divina, para a glória exclusiva de Deus.

Perguntas.

1. Qual é a diferença entre o chamado externo e o chamado interno de Deus, conforme descrito no texto?

2. Segundo Calvino, como o chamado externo está relacionado à eleição divina? Explique com base no texto.

3. Quais são os três aspectos do chamado eficaz mencionados no texto, e como eles se relacionam com a obra do Espírito Santo no pecador?

4. O que é a “cadeia dourada da salvação”, descrita pelo apóstolo Paulo em Romanos 8.30, e como ela ilustra o chamado eficaz?

5. De que maneira o chamado eficaz reflete o amor incomparável de Deus por seu povo, e qual é o impacto dessa obra na vida do pecador?


Notas de Rodapé.

1 CALVINO, Juan, Institución de la Religión Cristiana. 2 Tomos. 7ª ed. Rijswijk, Zuid-Holland: FEliRe, 2013, p. 762.

2 Ibid., p. 770.


Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 31 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2022, 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em Novembro de 2024. Publicado originalmente em 02 de Janeiro de 2022].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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