Pergunta 29: Como participamos da redenção comprada por Cristo?
Resposta: Participamos da redenção comprada por Cristo pela aplicação eficaz dela a nós pelo seu Espírito Santo [1].
PROVAS BÍBLICAS.
[1] Tito 3:4-7.
Comentário.
A obra de Deus na redenção do homem envolve todas as três Pessoas da Trindade. Cabe a Deus Pai eleger e decretar a salvação dos eleitos (cf. BCW 20). Ao Filho compete garantir a redenção e a justificação, por meio de sua obediência ativa em favor dos eleitos e de sua expiação vicária (cf. BCW 21-28). Já a obra do Espírito Santo é aplicar os benefícios da redenção conquistada por Cristo aos eleitos, como veremos nas perguntas subsequentes.
É fundamental entender essa divisão econômica tripla na obra redentora do Deus Trino. Uma ênfase excessiva na obra decretiva do Pai pode levar a uma visão unilateral de justificação eterna, ignorando que, antes da aplicação orgânica da redenção, os eleitos estão sob a ira de Deus (Ef 2.3). Da mesma forma, concentrar-se exclusivamente na obra redentora de Cristo no tempo, sem reconhecer que a justificação foi eternamente planejada de maneira soberana e irrevogável, tende a criar uma ruptura entre o Antigo e o Novo Testamento, gerando uma doutrina de salvação pelas obras para os santos do Antigo Testamento. Já uma ênfase desmedida na obra do Espírito Santo na justificação pode promover uma visão arminiana, que atribui a fé e as boas obras como causas da justificação, frequentemente resultando na doutrina da graça resistível.
James Buchanan expõe essas dificuldades ao afirmar que um dos erros é o dos antinomianos, que entendem a justificação como anterior e independente da regeneração pelo Espírito Santo, às vezes confundindo-a com a eleição eterna de Deus ou com a obra redentora de Cristo, como se não houvesse diferença entre o propósito eterno de salvar e sua execução no tempo, ou entre a obtenção e a aplicação real da redenção às almas. O outro erro surge entre papistas e alguns de seus seguidores protestantes, que consideram a justificação dependente não apenas da obra de Cristo, mas também da obediência pessoal. Essas dificuldades, segundo Buchanan, só podem ser resolvidas ao voltar ao propósito eterno de misericórdia de Deus para com os pecadores, que abrange tanto a redenção por Cristo quanto a regeneração pelo Espírito Santo.
A perspectiva reformada fundamenta-se na unidade e harmonia da Trindade na obra redentora. O Pai, o Filho e o Espírito Santo operam de maneira distinta, mas sempre em uníssono, visando à salvação dos eleitos e à glorificação de Deus. O Pai, como soberano, elege os que receberão a vida eterna; o Filho encarna e realiza a redenção por meio de sua obediência e sacrifício; e o Espírito Santo aplica essa redenção ao regenerar e santificar os eleitos, capacitando-os a uma vida de comunhão com Deus. Essa harmonia assegura que a salvação é integralmente obra de Deus, onde cada Pessoa da Trindade contribui de modo essencial e inseparável.
Esse entendimento reforça a doutrina da salvação exclusivamente pela graça, excluindo méritos humanos. Na visão reformada, a fé dos eleitos é fruto direto da regeneração realizada pelo Espírito Santo, que transforma os corações e os capacita a responder ao chamado de Deus. A aplicação da redenção, portanto, não é uma colaboração entre o homem e Deus, mas uma ação soberana de Deus que concede fé e arrependimento como dons. Isso elimina qualquer possibilidade de que a salvação dependa de obras humanas, exaltando a suficiência da graça divina que opera de modo livre e eficaz na vida dos eleitos.
Além disso, a doutrina reformada sublinha a perseverança dos santos, assegurando que aqueles a quem Deus elegeu e Cristo redimiu serão preservados pela ação contínua do Espírito Santo. Esse processo de santificação demonstra o pacto de Deus com o seu povo, garantindo que a obra iniciada será completada. A perseverança não depende da força humana, mas do poder de Deus, que sustenta seus eleitos até o fim. Assim, a segurança e a certeza da salvação repousam no caráter imutável de Deus e em suas promessas, levando os crentes a uma vida de gratidão e adoração, confiantes de que “aquele que começou a boa obra” é fiel para completá-la (Fp 1.6).
Perguntas para reflexão e estudo.
1. Como a obra da redenção de Deus reflete a unidade e harmonia entre as três Pessoas da Trindade?
2. De que maneira o conceito reformado de justificação evita os erros tanto do antinomianismo quanto do arminianismo?
3. Qual é a importância da “divisão econômica tripla” na obra de redenção, e como ela ajuda a entender o papel específico de cada Pessoa da Trindade?
4. Por que, segundo a teologia reformada, a salvação não depende de méritos ou obras humanas?
5. Como a doutrina da perseverança dos santos traz segurança e consolo para os crentes?

Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 29 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2021, 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
[Nota do Editor: Artigo atualizado em Novembro de 2024. Publicado originalmente em 19 de Dezembro de 2021].
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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