Um chamado à Reforma.

Tempo de leituras: 11 minutos.

Por Johannes G. Vos.

A reforma da igreja, segundo as Escrituras, permanece incompleta enquanto estamos na terra.

Ecclesia reformata semper reformanda est (“A igreja, tendo sido reformada, precisa continuar a ser reformada”). Isso ocorre porque as Escrituras são um padrão absoluto e perfeito, enquanto a igreja, em qualquer estágio de sua história, continua imperfeita, marcada pelo pecado e pelo erro.

Esse processo de reforma deve prosseguir até o fim dos tempos. Em nenhum momento a igreja pode se deter e afirmar: “Cheguei ao fim; daqui não passarei!”. Somente a igreja triunfante no céu poderá declarar isso.

Ao longo desse processo de reforma, existem certos marcos históricos e progressos notáveis. Os grandes credos e confissões históricas da igreja, por exemplo, representam esses marcos de avanço. A Confissão de Fé de Westminster, por exemplo, é um símbolo de progresso genuíno na reforma da igreja até o momento em que foi formulada.

Jamais devemos considerar esse processo como concluído, seja em nossos dias ou em qualquer ponto da história terrena da igreja. Devemos continuamente deixar para trás o que já foi alcançado e avançar em direção ao que está adiante, buscando aquilo para o qual Cristo nos chamou. A doutrina, a adoração, o governo, a disciplina, as atividades missionárias, as instituições educacionais, as publicações e a vida prática da igreja – tudo isso precisa ser reformado progressivamente de acordo com as Escrituras.

A reforma sempre foi e continuará sendo um processo gradual. Os zelosos podem tentar realizar tudo de uma só vez, mas apenas se verão confrontados com uma barreira intransponível. Deus opera por meio de um processo histórico – gradual e contínuo – e precisamos nos alinhar com o modo de trabalhar divino.

A reforma bíblica da igreja é fruto da submissão ao Espírito Santo que fala nas Escrituras.

Não é apenas necessário aprofundar o estudo das Escrituras, além dos marcos estabelecidos no passado; é essencial também que a igreja pratique uma autocrítica contínua. Os padrões subordinados da igreja devem ser regularmente examinados e reexaminados à luz das Escrituras. Isso decorre de nossa confissão de que somente as Escrituras são infalíveis. Se apenas as Escrituras são infalíveis, tudo mais deve ser constantemente testado e corrigido segundo sua autoridade.

Não somente os padrões oficiais, mas também a vida da igreja, seus programas, atividades, instituições e publicações precisam passar por uma autocrítica rigorosa à luz das Escrituras. Tudo deve ser constantemente avaliado à luz da Palavra de Deus. Essa autocrítica coletiva é o equivalente eclesiástico ao autoexame individual ao qual Deus nos chama em sua Palavra.

Esse processo, contudo, não é fácil. A autocrítica da igreja exige esforço, inteligência, aprendizado, sacrifício, grande humildade, abnegação e uma honestidade absoluta. Exige também uma lealdade radical às Escrituras, uma fidelidade que está disposta a ir até o fim para obedecer à Palavra de Deus.

Esse exame constante pode ser desconfortável e até doloroso. Como o personagem Cristão no livro O Peregrino, de John Bunyan, a igreja pode se desviar e precisar refazer seus passos com humildade e contrição até retomar o caminho do Rei. Esse processo pode, por vezes, contrariar interesses ou compromissos de grupos específicos, pois expõe aspectos que talvez não estejam totalmente em conformidade com a Palavra de Deus e que, portanto, necessitam de correção.

Por essas razões, a autocrítica é frequentemente negligenciada e até combatida. Aqueles que a promovem são, muitas vezes, vistos como extremistas ou desordeiros. Entretanto, foram exatamente esses processos de autocrítica que possibilitaram as grandes reformas do passado. Homens como Martinho Lutero,1 João Calvino,2 John Knox,3 Andrew Melville,4 Richard Cameron5 e James Renwick6 eram movidos pelo julgamento de Deus em sua Palavra e não se deixaram intimidar por opiniões contrárias.

A história mostra que, quando a igreja se dispôs a se olhar sinceramente à luz das Escrituras, alcançou seu melhor, influenciando o mundo com novo vigor. Em contraste, quando a igreja se recusou a esse autoexame, tornou-se fraca, estagnada, decadente e ineficaz.

A autocrítica denominacional fundamentada nas Escrituras é, portanto, um dever. Mas será que é levada a sério hoje? Quantos realmente zelam, preocupam-se e, até mesmo, toleram essa prática?

Há uma tendência natural em cada igreja de considerar seu estado atual como correto e adequado. Dessa forma, o que é mera prática se fortalece como princípio, enquanto questões de princípio são tratadas como meros costumes, com autoridade apenas da tradição ou popularidade. Esse apego ao status quo obstrui o progresso genuíno na reforma da igreja, pois o status quo é sempre aquém do que a Palavra de Deus exige.

O status quo precisa ser continuamente confrontado e corrigido, pois, por melhor que pareça, ainda carrega o pecado e precisa ser transformado. A complacência em relação ao estado atual da igreja é um dos maiores pecados dos nossos dias, entristecendo o Espírito Santo e impedindo a igreja de progredir verdadeiramente em sua reforma. Uma igreja estagnada pelo conformismo está em risco de retroceder ou, na melhor das hipóteses, de girar em círculos, sempre voltando ao ponto inicial.

Deus nos chama a buscar a reforma da igreja em nossos dias.

As igrejas da América, em geral, parecem ter seguido um ciclo repetitivo ao longo de sua história: períodos de queda seguidos por reavivamentos, que, por sua vez, cedem lugar a novas quedas, e assim por diante. Esse padrão, em vez de refletir verdadeiro progresso, resulta em uma espécie de estagnação, onde, no máximo, se alcança a saída de um problema para cair em outro. Nada é mais frequente do que essa estagnação na igreja, e nada é mais difícil do que submeter qualquer aspecto de sua estrutura ou prática a um exame sincero e à reforma à luz da Palavra de Deus.

O verdadeiro progresso consiste em construir sobre os fundamentos sólidos estabelecidos no passado. Contudo, ele não deve se deixar conter pelos erros e imperfeições herdados das gerações anteriores. O único controle legítimo sobre o progresso é a própria Escritura. A reforma genuína da igreja é uma reforma fundamentada na Escritura, limitada por ela e jamais a ultrapassando.

As agências, publicações e instituições da igreja devem apenas refletir as opiniões da igreja como elas realmente são, de forma neutra? Ou deveriam adotar uma posição firme baseada nos padrões oficiais da igreja e sustentá-la perante o público? Talvez, mais que isso, devam liderar uma autocrítica denominacional fundamentada nas Escrituras, abrindo novos caminhos à luz da Palavra?

Essas são questões complexas e profundas, frequentemente ignoradas ou contornadas. Em geral, prefere-se considerar o status quo como algo normal. Ou, se não o status quo atual, ao menos as realizações passadas são vistas como um ideal. Muitas vezes, imagina-se que se voltássemos aos “bons tempos” e mantivéssemos aquele padrão, tudo estaria em perfeita ordem.

Mas será que estaria? Em que ponto paramos? Estamos em 1959.7 Como podemos justificar não termos avançado além de nossos antecessores na compreensão das Escrituras? Como podemos dizer que a reforma da igreja foi concluída em 1560, em 1638, ou mesmo em 1950? Desde então, o que temos feito? Enterramos nosso talento (Mt 25.14-30)?

É fácil admitir que há males na igreja que precisam de correção. No entanto, a tendência é crer que, se voltássemos a uma base sólida de uma ou duas gerações atrás, estaríamos onde deveríamos estar. Mas isso não seria cumprir nosso dever dado por Deus. Nossos antepassados reformaram a igreja em sua época; Deus nos chama a reformá-la em nossa época. Não podemos descansar sobre os méritos deles. Devemos lutar pela fé, por nós mesmos, fundamentados na Palavra de Deus.

A verdadeira reforma busca a verdade e a honra de Deus acima de qualquer outra consideração.

Vivemos em uma era pragmática, impaciente com a verdade e focada principalmente em resultados práticos. É um tempo que valoriza os efeitos visíveis acima da integridade da verdade, acreditando facilmente que figos podem brotar de cardos, desde que veja algo que julgue ser um figo (Mt 7.16).

Em algumas ocasiões, quando alguém tenta trazer aspectos da igreja ao julgamento das Escrituras, ouve-se a objeção de que “o momento não é oportuno.” “Você pode estar certo”, dizem, “mas este é o momento apropriado para levantar essa questão?”. Contudo, precisamos entender que a verdade é sempre oportuna; a verdade nunca está fora de lugar. Se esperarmos o “momento certo” para apresentar a verdade, ele pode jamais chegar. Haverá sempre uma razão que alguém poderá invocar para adiar a reforma da igreja segundo a Palavra de Deus. Deus é o Deus da verdade; ele é luz, e não há nele trevas. Cristo é o Rei do reino da verdade; para esse fim nasceu, para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade ouve sua voz.

Uma pronta aceitação do status quo como algo normal é um dos maiores obstáculos à verdadeira reforma e ao progresso da igreja hoje. Essa atitude é pecaminosa porque ignora a real pecaminosidade do estado atual. Ela falha em reconhecer que o status quo necessita sempre de arrependimento, perdão pela graça divina e reforma contínua por parte da igreja. Não reconhece a verdade da afirmação de Agostinho: todo bem menor sempre carrega consigo um elemento de pecado.

Em última análise, essa aceitação complacente do status quo como norma resulta de uma visão distorcida de Deus, que ignora sua santidade e pureza, e de uma compreensão equivocada das Escrituras, que não percebe seu caráter absoluto como padrão da igreja.

Colocar a verdade e a honra de Deus acima de todas as coisas exige grande consagração moral. Assim como é verdade para a igreja, é verdade para o indivíduo: aquele que perder sua vida por amor a Cristo, a encontrará.

Perguntas para reflexão.

1. De que maneira você está contribuindo para a reforma contínua da igreja? Reflita sobre como você pode participar desse processo e identifique áreas onde sua comunidade de fé ainda precisa de reforma conforme as Escrituras.

2. Em que aspectos da vida e das práticas da igreja você vê a necessidade de autocrítica à luz das Escrituras? Pense em áreas específicas da doutrina, adoração, programas e publicações da igreja que precisam ser avaliadas e ajustadas ao padrão bíblico.

3. Quais desafios você enfrenta ao praticar a autocrítica e a busca por reforma na sua própria vida espiritual e na igreja? Avalie quais barreiras internas e externas, como o apego ao status quo, o impedem de aceitar mudanças que poderiam levar à transformação e santificação pessoal e coletiva.

4. Você está disposto a questionar o status quo da sua igreja, mesmo quando isso pode gerar desconforto ou resistência? Considere até que ponto você está comprometido com a verdade das Escrituras e preparado para enfrentar as dificuldades que a busca por reforma e fidelidade pode trazer.

5. Como você pode colocar a verdade e a honra de Deus acima de qualquer outra consideração na sua vida e na vida da igreja? Reflita sobre como viver e promover uma fé que priorize a glória de Deus em todas as coisas, sem permitir que interesses pragmáticos ou o medo do julgamento humano determinem a direção da fé e da prática.


Notas de rodapé.

1 Nota do Tradutor: Martinho Lutero (1483–1546): Teólogo alemão e uma figura central na Reforma Protestante. Ele é conhecido por desafiar a Igreja Católica com suas 95 Teses em 1517, questionando práticas como a venda de indulgências e defendendo a salvação pela fé.

2 Nota do Tradutor: João Calvino (1509–1564): Teólogo francês e líder reformador que teve grande influência na Suíça e em outras partes da Europa. Sua obra Institutas da Religião Cristã fundamentou a teologia reformada e organizou uma estrutura para igrejas protestantes.

3 Nota do Tradutor: John Knox (1514–1572): Reformador escocês e fundador do presbiterianismo na Escócia. Inspirado por Calvino, Knox liderou a Reforma na Escócia, desafiando a Igreja Católica e promovendo mudanças religiosas profundas no país.

4 Nota do Tradutor: Andrew Melville (1545–1622): Teólogo e reformador escocês que sucedeu John Knox e defendeu a independência da Igreja Escocesa (presbiteriana) da coroa britânica. Ele também fortaleceu a organização e a doutrina da igreja reformada na Escócia.

5 Nota do Tradutor: Richard Cameron (1648–1680): Pastor escocês e líder dos Covenanters, um movimento que lutava pela liberdade religiosa na Escócia e pela separação da igreja do controle estatal. Ele morreu como mártir, combatendo pela causa dos Covenanters.

6 Nota do Tradutor: James Renwick (1662–1688): Último dos mártires dos Covenanters, Renwick foi um pregador escocês que desafiou o domínio estatal sobre a igreja. Ele continuou a lutar pela liberdade religiosa até sua execução.

7 Nota do Tradutor: Ano em que este artigo foi escrito.


Um chamado à Reforma está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

Por: Johannes G. Vos ©️ 2002 New Horizons. Website: https://opc.org/nh.html?article_id=207. Traduzido com permissão. Fonte: A Call to Reformation. Todos os direitos reservados ao Instituto Genebra de Estudos Reformados. Tradução, revisão e edição: Samuel S. Gomes. Outubro de 2024.

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Site desenvolvido com WordPress.com.

Acima ↑