Pergunta 27: Em que consistiu a humilhação de Cristo?
Resposta: A humilhação de Cristo consistiu no fato de ele nascer, e isso em condição humilde;[1] em ser sujeito à lei;[2] em sofrer as misérias desta vida,[3] a ira de Deus[4] e a maldita morte na cruz;[5] em ter sido sepultado e permanecer debaixo do poder da morte durante certo tempo.[6]
PROVAS BÍBLICAS.
Provas 01:
- Lucas 2.7: E ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
- Filipenses 2.6–8: Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.
Prova 02:
- Gálatas 4.4: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei.
Prova 03:
- Isaías 53.3: Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.
Prova 04:
- Mateus 27.46: Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Prova 05:
- Gálatas 3.13: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro).
Prova 06:
- 1Coríntios 15.3–4: Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
Comentário.
Há um hino muito popular de Charles Wesley, “E pode ser que eu ganhe”, que contém uma frase de forte apelo pietista. A frase declara que Cristo “esvaziou-se de tudo, exceto do amor, e sangrou pela raça indefesa de Adão”. Embora Wesley provavelmente tenha usado essa declaração para ensinar a expiação universal (ainda que possa ser interpretada sob uma perspectiva calvinista), ela contém outro erro significativo, mesmo que talvez não intencional: a ideia de que, na encarnação, Cristo teria se esvaziado de sua divindade. Essa noção é conhecida como a teoria da kenosis, baseada em uma interpretação equivocada de Fp 2.6-8. Mas do que Cristo se esvaziou, afinal? Certamente não de sua divindade, pois se assim fosse, sua morte não seria suficiente para nos salvar. Cristo esvaziou-se de sua posição, glória e dignidade. Ele era o Filho de Deus e, de fato, o próprio Deus, mas “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens” e, assim, ofereceu-se como sacrifício vicário por nós. Teologicamente, o processo pelo qual Cristo passou em nosso favor é conhecido como sua “humilhação”. Nesta explicação, aprendemos que Cristo se humilhou em seu nascimento, em sua vida e em sua morte.
A humilhação de Cristo em seu nascimento envolve: (1) seu nascimento, em primeiro lugar – ainda que ele seja infinito e eterno; e (2) seu nascimento em uma condição humilde – não em uma família rica e real, mas em uma família pobre, nascendo em um estábulo – ainda que ele seja o Filho eterno de Deus e o possuidor de todo o gado sobre mil colinas (Sl 50.10).
A humilhação de Cristo em sua vida abrange: (1) sua submissão à lei – ainda que ele seja o Legislador; e (2) seus sofrimentos com as aflições desta vida – ainda que ele não apenas tenha criado o mundo, mas sustente todo o universo. É importante destacar que os sofrimentos terrenos de Cristo não foram resultado do pecado, mas sim as enfermidades naturais da carne, como cansaço, fome, sede e outras condições semelhantes (cf. Jo 4.6; Mt 4.2); além das aflições da alma, como tristeza e pesar: “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.3).
A humilhação de Cristo em sua morte inclui: (1) seu sofrimento, suportando a separação de seu Pai e carregando a infinita ira do julgamento de Deus sobre os pecados de todos os eleitos ao longo do tempo, que foram imputados a ele – ainda que ele fosse eternamente amado pelo Pai; (2) sua crucificação, uma forma cruel, dolorosa e prolongada de punição, reservada aos criminosos amaldiçoados – ainda que ele jamais tenha pecado; (3) seu sepultamento e (4) sua permanência na sepultura por três dias – ainda que ele tenha ressuscitado Lázaro e outros.
Além da humilhação de Cristo em seu nascimento, vida e morte, devemos reconhecer que ele passou por todas essas etapas de sofrimento voluntariamente. Cristo não foi forçado a se submeter a essas condições; pelo contrário, ele o fez por amor a nós, os eleitos. Sua humilhação não é um sinal de fraqueza, mas uma demonstração do profundo compromisso de Deus em redimir seu povo. Ao esvaziar-se de sua glória celestial e sujeitar-se às aflições humanas, ele cumpriu perfeitamente o plano eterno de salvação que já havia sido traçado antes da fundação do mundo.
Outro aspecto importante a ser considerado é que a humilhação de Cristo foi necessária para sua exaltação. Somente através de sua obediência até a morte, e morte de cruz, Cristo pôde ser exaltado à direita de Deus, recebendo o nome que está acima de todo nome (Fp 2.9). A humilhação e a exaltação são partes inseparáveis do mesmo ato redentor. Cristo, em sua plena humanidade e divindade, reconciliou o homem com Deus, e hoje intercede pelos seus. Seu sacrifício abriu o caminho para que, por meio da fé, pudéssemos participar de sua vitória sobre o pecado e a morte.
Em conclusão, a humilhação de Cristo, em cada fase de sua vida, desde o nascimento até a sepultura, revela o imensurável amor de Deus por seu povo e a perfeita obediência de Cristo ao plano redentor. Essa doutrina é central para a fé cristã, pois sem a humilhação de Cristo, não haveria exaltação, nem salvação. O exemplo de Cristo nos ensina sobre a grandeza que há em servir e se sacrificar em prol dos outros, chamando-nos a viver com humildade diante de Deus e dos homens.
Perguntas para reflexão e estudo.
1. O que é a teoria da kenosis e como ela se relaciona com a interpretação equivocada de Filipenses 2.6-8?
2. Do que Cristo realmente se esvaziou durante a encarnação, segundo o texto?
3. Quais são os aspectos específicos da humilhação de Cristo em seu nascimento e em sua vida?
4. Como a humilhação de Cristo em sua morte foi central para a redenção dos eleitos?
5. Por que a humilhação de Cristo foi essencial para sua exaltação?

Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 27 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2021, 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
[Nota do Editor: Artigo atualizado em Outubro de 2024. Publicado originalmente em 5 de Dezembro de 2021].
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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