Nossa posição é que a chamada “regeneração batismal” não tem fundamento bíblico. Em conformidade com a teologia e a tradição presbiteriana e reformada, rejeitamos a ideia de que o batismo, por si só, cause a regeneração espiritual. Embora reconheçamos o batismo como um sacramento importante e um sinal visível da graça de Deus, compreendemos que a regeneração é uma obra exclusiva do Espírito Santo, que pode ocorrer antes, durante ou após o batismo, sem estar automaticamente vinculada ao ato de ser batizado. Na teologia reformada, o batismo é visto como um símbolo da purificação dos pecados e da aliança com Deus; contudo, a regeneração depende exclusivamente da ação soberana de Deus.
As confissões e catecismos das igrejas reformadas negam claramente que o batismo, por si só, salva. No Catecismo de Heidelberg, Pergunta 72, lê-se: “Essa lavagem externa com água por si só lava os pecados?” Resposta: “Não, somente o sangue de Jesus Cristo e o Espírito Santo nos purificam de todos os pecados”.
O Breve Catecismo de Westminster (doravante BCW), Pergunta 91, ensina: “Como os sacramentos se tornam meios eficazes de salvação?” Resposta: “Os sacramentos se tornam meios eficazes de salvação, não por qualquer virtude neles ou naquele que os administra, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra de seu Espírito naqueles que os recebem pela fé”.
O Catecismo Maior de Westminster (doravante CMW) nos instrui quanto à natureza básica do batismo:
- “O batismo é um sacramento do Novo Testamento, no qual Cristo ordenou a lavagem com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para ser um sinal e selo de enxerto em si mesmo, de remissão de pecados pelo seu sangue e regeneração pelo seu Espírito; de adoção e ressurreição para a vida eterna; e pelo qual os batizados são solenemente admitidos na igreja visível e entram em um compromisso aberto de serem total e exclusivamente do Senhor”. (Pergunta 165; cf. Gl 3.26-27; Tt 3:5; Rm 6.3-5).
Essa resposta enfatiza que o batismo é um sacramento da Nova Aliança. A Pergunta 164 do CMW afirma que há dois sacramentos: o batismo e a Ceia do Senhor. A Pergunta 162 descreve um sacramento como uma “santa ordenança instituída por Cristo em sua igreja, para significar, selar e comunicar àqueles que estão dentro da aliança da graça os benefícios de sua mediação; para fortalecer e aumentar sua fé e todas as outras graças; para obrigá-los à obediência; para testemunhar e nutrir seu amor e comunhão uns com os outros; e para distingui-los daqueles que estão fora”. Assim, o batismo, como sacramento, é um sinal, selo e aplicação – como J. G. Vos (citando A. A. Hodge) explica – dos benefícios da mediação de Cristo para aqueles dentro da aliança da graça.
Esse sinal e selo devem ser aplicados somente àqueles que estão na igreja visível. A Pergunta 166 do CMW ensina que “o batismo não deve ser administrado a ninguém que esteja fora da igreja visível, e, portanto, estranho à aliança da promessa, até que professe sua fé em Cristo e obediência a ele”. A profissão de fé traz alguém, que antes não havia sido batizado, para a igreja visível, momento em que o batismo é administrado. A mesma pergunta continua: “Mas os filhos descendentes de pais, ambos, ou apenas um, professando fé em Cristo e obediência a ele, estão, nesse aspecto, dentro da aliança, e devem ser batizados”. Assim, o batismo é um sinal e selo aplicado àqueles que estão dentro da aliança, seja pela profissão de fé ou por nascer dentro da aliança (ou seja, por ter pelo menos um dos pais que professa fé).
Os teólogos frequentemente distinguem entre os aspectos internos e externos da aliança da graça, notando que todos os que estão na igreja visível desfrutam, pelo menos, dos aspectos externos dessa aliança (cf. Pergunta 63 do CMW). A Pergunta 31 do CMW ensina que “o pacto da graça foi feito com Cristo como o segundo Adão, e nele com todos os eleitos como sua semente”. Assim, apenas os eleitos estão no pacto, tanto interna quanto externamente. Porém, como vemos na Pergunta 166, crianças de até mesmo um dos pais crentes estão, “nesse aspecto”, dentro do pacto e, portanto, devem ser batizadas, para desfrutar dessa marca da igreja visível. Note-se que tais crianças não são batizadas para serem incluídas no pacto; ao contrário, elas estão, por nascimento, já no pacto, sendo legítimas herdeiras de todos os privilégios que pertencem àqueles na igreja visível. O batismo é um desses privilégios, servindo como “um sinal e selo de nossa regeneração e enxerto em Cristo, até mesmo para as crianças” (Pergunta 177).
O batismo, como sacramento, tem o propósito de fortalecer e aumentar a fé, seja do adulto ou da criança. A Confissão de Fé de Westminster (doravante CFW; 14.1) ensina que “a graça da fé, pela qual os eleitos são capacitados a crer para a salvação de suas almas, é obra do Espírito de Cristo em seus corações, e é normalmente operada pelo ministério da Palavra, pela qual também, e pela administração dos sacramentos e oração, é aumentada e fortalecida”. Embora o batismo seja um sinal e selo de nossa regeneração e enxerto em Cristo, o dom da fé que torna eficaz os meios da graça é normalmente operado pelo ministério da Palavra, especialmente pela pregação (cf. Pergunta 155). O batismo, junto com a Ceia do Senhor, é um meio de aumentar e fortalecer a fé que é “normalmente operada pelo ministério da Palavra”.
A primazia da pregação não diminui a importância do batismo, assim como não minimiza a importância da Ceia do Senhor. “A graça e a salvação não estão inseparavelmente ligadas ao batismo, de modo que ninguém possa ser regenerado ou salvo sem ele; ou que todos os batizados sejam indubitavelmente regenerados” (CFW 28.5). No entanto, também é verdade que “desprezar ou negligenciar essa ordenança é um grande pecado” (CFW 28.5). O batismo é um dom gracioso de Deus ao seu povo da aliança e não deve ser negligenciado.
Em conclusão, o batismo, embora seja um sacramento essencial na vida cristã, não é, por si só, um instrumento de regeneração espiritual. A teologia reformada, fundamentada nas Escrituras e expressa em suas confissões e catecismos, destaca que a regeneração é uma obra exclusiva do Espírito Santo e que a salvação depende unicamente da soberana graça de Deus. O batismo atua como um sinal e selo dos benefícios da aliança da graça, aplicados àqueles que estão na igreja visível, seja pela profissão de fé ou por nascimento. No entanto, sua eficácia está sempre ligada à fé e à ação do Espírito Santo, não à mera administração do sacramento. Por isso, o batismo deve ser entendido no contexto da aliança de Deus, como uma marca externa da inclusão na igreja visível, mas sem ser confundido como o agente direto da salvação.

A regeneração batismal: uma perspectiva presbiteriana e reformada está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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