Pergunta 24: Como Cristo exerce as funções de profeta?
Resposta: Cristo exerce as funções de profeta, revelando-nos,[1] pela sua Palavra[2] e pelo seu Espírito, a vontade de Deus para a nossa salvação.[3]
PROVAS BÍBLICAS.
Prova 01:
- João 1.18: Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.
Prova 02:
- Hebreus 1.1–2: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.
Provas 03:
- João 14.26: Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.
- João 16.13: Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.
Comentário.
Um profeta é aquele que anuncia a vontade de Deus ao homem. Neste contexto, aprendemos que Cristo exerce o ofício de profeta ao nos revelar essa vontade, particularmente no que diz respeito à nossa salvação. Em outras palavras, Cristo nos declara todo o conselho de Deus, ou seja, aquilo que ele deseja que saibamos, creiamos e façamos para sermos salvos.
Sob a economia do Antigo Testamento, embora Cristo tenha revelado a vontade de Deus de “muitas maneiras” (Hb 1.1), sempre o fez por meio de sua Palavra, seja ela falada, escrita ou revelada (1Pe 1.10-11), e com a iluminação do Espírito Santo. Mesmo quando sonhos e visões foram utilizados como meios de revelação, sua interpretação e transmissão ocorreram sempre por meio de palavras. Sendo Cristo o Verbo divino (Jo 1.1), todas essas revelações podem ser compreendidas como a Palavra de Cristo. Pedro, por exemplo, refere-se ao “Espírito de Cristo” quando menciona os profetas antigos que falaram sobre a obra redentora de Cristo (1Pe 1.10-11).
Durante seu ministério terreno, Cristo ensinou os discípulos como a Palavra encarnada, tanto de forma verbal e audível quanto pelo seu exemplo de vida. Para nós, que temos o benefício do cânon completo das Escrituras, Cristo continua a nos falar por meio da Palavra escrita (cf. Jo 20.31). Paulo declara: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3.16). Além disso, Cristo, por meio do Seu Espírito (o Espírito Santo, que ele enviou), ilumina a Palavra para o nosso entendimento (cf. Jo 14.26).
É importante destacar que, assim como a Palavra não é eficaz para a salvação sem a ação do Espírito, o Espírito também não revela a vontade de Deus sem a Palavra. Aquele que não possui o Espírito de Cristo não pode compreender a Palavra de Cristo para a salvação (1Co 2.14-16). E, embora o Espírito tenha o poder de ensinar-nos a vontade de Deus sem a Palavra, visto que esta é completa e suficiente para a nossa salvação, o Espírito não nos revela mais nada diretamente, além do que já foi registrado nas Escrituras (cf. Ap 22.18-19).
De acordo com a teologia reformada, Cristo é o último e supremo Profeta de Deus, e sua revelação é perfeita e definitiva. A Confissão de Fé de Westminster afirma que “todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a Sua própria glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado nas Escrituras, ou pode ser claramente deduzido delas. À Escritura nada se acrescentará, em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens” (CFW 1.6). Esse entendimento reforça a suficiência das Escrituras e o papel profético de Cristo ao nos revelar toda a verdade necessária para a salvação.
Cristo, como o verdadeiro Profeta, distingue-se de todos os que vieram antes dele, não apenas em autoridade, mas também na natureza de sua revelação. Os profetas do Antigo Testamento eram mensageiros imperfeitos, que falavam de forma fragmentada a Palavra de Deus. Cristo, porém, é a própria Palavra de Deus (Jo 1.1), a revelação completa e definitiva. Isso reflete a doutrina da “Sola Scriptura” (somente a Escritura), pela qual Cristo, através das Escrituras, continua a falar à sua Igreja.
O ofício profético de Cristo continua na vida da Igreja por meio da pregação fiel da Palavra. A pregação, que consiste na explicação e aplicação da Palavra de Deus, é um dos meios de graça pelos quais Cristo, por seu Espírito, continua a instruir o seu povo. A Confissão de Fé de Westminster (14.1) afirma que a fé salvadora “é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra”. Assim, a pregação da Palavra, em conformidade com as Escrituras, é essencial para a edificação do povo de Deus e para o cumprimento do ofício profético de Cristo.
Embora a Palavra de Deus seja completa e suficiente, sua eficácia depende da obra do Espírito Santo. O Espírito ilumina as mentes dos eleitos, abrindo seus corações para que compreendam e recebam a verdade revelada nas Escrituras (Lc 24.45; Jo 16.13). Sem essa obra de iluminação, o homem natural permanece cego e incapaz de discernir as coisas espirituais (1Co 2.14-16).
Isso nos leva à doutrina da depravação total, uma das crenças centrais da teologia reformada, que ensina que a mente do homem foi corrompida pelo pecado e, por si só, não pode entender a vontade de Deus. A menos que o Espírito Santo opere diretamente no coração, a Palavra de Cristo permanecerá incompreendida e ineficaz para a salvação. Assim, a obra conjunta da Palavra e do Espírito é essencial para a regeneração e santificação dos crentes.
Conclusão.
O ofício profético de Cristo é essencial para a nossa salvação, pois é por meio dele que conhecemos a vontade de Deus. Ele nos revela a verdade da salvação através de sua Palavra e ilumina nossas mentes e corações pelo seu Espírito, para que possamos crer e ser salvos. Na teologia reformada, essa verdade se reflete na centralidade das Escrituras, na suficiência da revelação de Cristo e na obra indispensável do Espírito Santo. Cristo, o verdadeiro Profeta, continua a falar à sua Igreja, chamando seu povo ao arrependimento e à fé, edificando-o por meio de sua Palavra e Espírito.
Perguntas para reflexão e estudo.
1. De que maneira o ofício profético de Cristo é distinto dos profetas do Antigo Testamento, e como essa diferença se reflete na doutrina da “Sola Scriptura”?
2. Como a obra conjunta da Palavra e do Espírito Santo é essencial para a salvação, e por que a compreensão da Palavra depende da iluminação do Espírito?
3. Por que a teologia reformada enfatiza que não há novas revelações além daquelas contidas nas Escrituras, e como isso impacta a prática e a pregação na Igreja?
4. Como Cristo continua a exercer seu ofício profético na vida da Igreja atual, e qual é o papel da pregação nesse processo?
5. Como a doutrina da depravação total influencia nossa compreensão sobre a necessidade da obra do Espírito Santo para que possamos entender a Palavra de Deus e ser salvos?

Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 24 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2021, 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.
[Nota do Editor: Artigo atualizado em Outubro de 2024. Publicado originalmente em 14 de Outubro de 2021].
“Pela palavra de Deus e o testemunho de Cristo” (Ap 1.9).
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