A teologia de Jacob Arminius: da tradição reformada à controvérsia do arminianismo.

Jacob Arminius (1560-1609) é uma figura central na teologia, especialmente por sua divergência da tradição reformada na qual foi formado. Nascido em Utrecht, Arminius foi criado no seio da igreja reformada e educado em instituições prestigiadas, como a Universidade de Leiden e o célebre centro teológico de Genebra, sob a orientação de Theodore Beza, um proeminente teólogo calvinista e sucessor de João Calvino.

Formação e influências reformadas.

Inicialmente, nada no jovem Arminius parecia sinalizar qualquer discordância com a teologia reformada. Ele perdeu sua família para as tropas espanholas e foi sustentado financeiramente por membros da igreja reformada durante seus estudos. Sua formação teológica foi moldada por teólogos reformados, o que torna sua mudança subsequente para o arminianismo uma questão intrigante.

Muitos estudiosos tentaram explicar a transição de Arminius. Algumas teorias sugerem que ele reagiu ao supralapsarianismo de Beza, que sustenta que Deus, antes da queda, decretou a eleição e reprovação dos seres humanos. Contudo, há pouca evidência de que Arminius tenha sido diretamente influenciado por essa controvérsia teológica. Outros sugerem que ele foi influenciado por seus contatos com teólogos não reformados durante suas viagens de estudo a cidades como Basileia, Zurique e Pádua, onde teve acesso a perspectivas teológicas diversas.

A influência de Luis de Molina e a teodiceia de Arminius.

Uma possível explicação para a mudança teológica de Arminius pode ser encontrada em sua luta pessoal com o problema do mal e a soberania divina. O massacre de sua família pelas tropas espanholas teve um profundo impacto sobre ele, levando-o a questionar a visão reformada da predestinação absoluta e da soberania de Deus.

Durante suas viagens à Itália, Arminius teve contato com a obra do teólogo jesuíta Luis de Molina, que desenvolveu a doutrina do conhecimento médio (media scientia). Essa doutrina propõe que Deus sabe o que as criaturas livres fariam em qualquer circunstância, sem necessariamente decretar suas escolhas. Arminius adotou essa visão para reconciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana, uma tentativa de resolver o problema do mal. No entanto, teólogos reformados como Francis Turretin e Gisbertus Voetius rejeitaram essa posição, argumentando que ela tornava Deus dependente das decisões humanas e, portanto, incompatível com a doutrina cristã da soberania absoluta de Deus.

A controvérsia em Amsterdã.

Ao retornar a Amsterdã, Arminius assumiu um pastorado e logo entrou em controvérsia teológica. Em sua série de sermões sobre o livro de Romanos, ele desafiou a interpretação reformada de Romanos 7, argumentando que o apóstolo Paulo não estava descrevendo a luta de um cristão regenerado, mas a de um homem sob a lei. Essa posição causou um grande alvoroço entre seus colegas pastores reformados.

A maior divergência teológica de Arminius, contudo, veio em sua interpretação de Romanos 9, onde ele introduziu o conceito de eleição com base na fé prevista (fides praevisa). Arminius sustentava que Deus elege os que Ele prevê que crerão, em vez de uma eleição incondicional, como ensina a tradição reformada. Essa visão foi duramente criticada pelos teólogos reformados, pois eles entendiam que ela comprometia a doutrina da graça soberana e exaltava o papel do ser humano na salvação.

A justificação e a fé.

Uma das mudanças mais significativas na teologia de Arminius foi sua rejeição da doutrina reformada da justificação sola fide (somente pela fé). A teologia reformada ensina que a justificação do pecador se dá pela imputação da justiça de Cristo, recebida pela fé. Arminius, por outro lado, argumentou que a fé em si mesma era a base para a justificação, não a justiça de Cristo. Sua preocupação era que a doutrina da justificação sola fide pudesse levar os crentes à negligência em sua santificação, o que ele considerava um risco teológico perigoso.

O legado de Arminius e a resposta reformada.

A teologia reformada, em contraste, sustenta firmemente a doutrina da eleição incondicional, baseada unicamente na graça soberana de Deus, sem qualquer consideração pelas obras ou fé previstas dos indivíduos. A Confissão de Fé de Westminster, um dos documentos mais importantes do calvinismo, enfatiza que a salvação é inteiramente obra de Deus, desde o decreto eterno até a perseverança final dos eleitos.

Os teólogos reformados também destacam que a justificação é um ato judicial de Deus, no qual Ele declara o pecador justo com base na justiça de Cristo, e não por qualquer mérito ou ato de fé humano. A fé, na perspectiva reformada, é vista como o meio pelo qual o pecador recebe essa justificação, e não a causa dela.

Em resposta às ideias de Arminius, a Igreja Reformada convocou o Sínodo de Dort (1618-1619), que resultou nos Cânones de Dort. Nesse sínodo, a doutrina reformada da graça soberana foi reafirmada, e o arminianismo foi condenado como uma distorção da doutrina bíblica da salvação.

Conclusão.

A trajetória teológica de Jacob Arminius é um lembrete das complexas interações entre a teologia reformada e outras correntes de pensamento no período pós-Reforma. Apesar de sua formação reformada, Arminius buscou reinterpretar questões centrais como a predestinação, a justificação e a relação entre a graça divina e a responsabilidade humana. No entanto, a teologia reformada permanece firme em sua defesa da soberania de Deus na salvação, destacando que é Deus quem inicia, sustenta e consuma o processo de redenção dos eleitos.

Assim, enquanto Arminius procurou ajustar as doutrinas reformadas, a resposta do Sínodo de Dort reafirmou os princípios centrais da fé reformada, demonstrando que a graça soberana de Deus, e não as obras ou a fé previstas, é o fundamento da salvação.

Perguntas para estudo.

1. Quem foi Jacob Arminius e quais eram suas origens teológicas e educacionais?

2. Como a formação teológica inicial de Arminius estava alinhada com a tradição reformada?

3. Quais teorias tentam explicar a transição de Arminius para o “arminianismo”?

4. Como as influências teológicas de cidades como Basileia, Zurique e Pádua podem ter contribuído para a mudança de visão de Arminius?

5. Qual foi o impacto do massacre de sua família sobre a teologia de Arminius, especialmente em relação ao problema do mal?

6. O que é a doutrina do conhecimento médio (media scientia) de Luis de Molina, e como Arminius a utilizou em sua teodiceia?

7. Quais foram as principais controvérsias teológicas que surgiram durante o pastorado de Arminius em Amsterdã?

8. Como a interpretação de Arminius sobre Romanos 9 difere da visão reformada tradicional sobre a eleição?

9. Qual foi a mudança teológica de Arminius em relação à doutrina da justificação sola fide, e por que ele a rejeitou?

10. Como a teologia reformada respondeu às doutrinas de Arminius no Sínodo de Dort, e quais foram as conclusões desse encontro?


A teologia de Jacob Arminius: da tradição reformada à controvérsia do arminianismo. © 2024 pelo Instituto Genebra de Estudos Reformados está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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