Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 20

Pergunta 20: Deus deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria?

Resposta: Tendo Deus, unicamente pela sua boa vontade, desde toda a eternidade, escolhido alguns para a vida eterna,[1] entrou com eles em um pacto de graça, para os livrar do estado de pecado e miséria, e os levar a um estado de salvação, por meio de um Redentor.[2]

PROVAS BÍBLICAS.

Provas 01:

  • Efésios 1.4: Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; […].
  • Tito 1.2: Na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos.

Provas 02:

  • Tito 3.4–7: Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.
  • João 17.6: Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra.

Comentário.

Esta pergunta nos ensina sobre a provisão de Deus para a salvação da humanidade caída. Sob a primeira aliança (ou pacto), a vida eterna era oferecida com base na obediência pessoal, perfeita e perpétua à Lei de Deus. No entanto, com a entrada do pecado, tornou-se impossível para o ser humano obedecer perfeitamente a qualquer mandamento divino.

Aparentemente, o destino da humanidade seria perecer em seu estado de pecado e miséria. Contudo, assim como Deus havia decretado a Queda, ele também, por sua graça, escolheu alguns para não perecerem, mas para receberem a vida eterna. É importante destacar que essa eleição se dá “unicamente pela sua boa vontade, desde toda a eternidade”, ou seja, de forma incondicional. A visão arminiana, que afirma que a eleição se baseia na presciência de Deus quanto ao arrependimento futuro das pessoas diante da pregação do Evangelho, carece de fundamento nas Escrituras, distorce o conceito de eleição e nega a soberania absoluta de Deus.

Para realizar a redenção dos eleitos, uma segunda aliança, conhecida em nossa confissão como a Aliança da Graça, foi estabelecida entre as Pessoas da Trindade, tendo Cristo como mediador e representante dos eleitos. Esta aliança foi firmada na eternidade, antes mesmo da Aliança das Obras com Adão, sendo frequentemente chamada de Aliança da Redenção, embora este termo seja mais comumente utilizado por supralapsarianos, que tendem a incluir a Aliança das Obras dentro dela.

A primeira aliança foi feita com Adão, enquanto a segunda foi firmada com Cristo, o segundo Adão (1Co 15.22,45). Sob esta nova aliança, Deus “oferece gratuitamente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles fé nele para que sejam salvos (Mc 16.15-16; Jo 3.16; Rm 10.6-9; Gl 3.11), e prometendo dar o seu Espírito Santo a todos os que estão ordenados para a vida eterna, capacitando-os a crer e a se tornarem dispostos (Ez 36.26-27; Jo 6.44-45)” (CFW 7.3).

Vale ressaltar que, segundo a cronologia bíblica, a Aliança da Graça começou a ser implementada em Gênesis 3.15, sendo evidente tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Além disso, ela se manifesta por meio de alianças subordinadas, como a Aliança Adâmica (Gn 3.15), a Aliança Noética (Gn 9), a Aliança Abraâmica (Gn 12, 15, 17), a Aliança Mosaica (Êx 19-20), a Aliança Davídica (2Sm 7.12-16) e a Nova Aliança (Jr 31.31-34; Hb 8.10-12; 10.16-17; Mt 26.28). Em todas essas alianças, o objeto da fé sempre foi Cristo (cf. At 4.12; Gl 3.17), e o tema central permanece o mesmo: “Vocês serão meu povo, e eu serei o seu Deus” (cf. Gn 3.15; Gn 9.9, 11; Gn 17.7; Êx 6.7; 2Sm 7.24; Jr 31.33; 2Co 6.16; Ap 21.3). Isso significa que os crentes ao longo da história foram salvos pela graça, por meio da fé em Cristo Jesus.

Os judeus, sob a economia mosaica, não foram salvos pela obediência à Lei ou pelos sacrifícios, como alguns antigos dispensacionalistas acreditavam. O sistema sacrificial apontava para o Messias, que era o verdadeiro objeto da fé para os crentes da antiguidade.

A teologia reformada enfatiza que a Aliança da Graça não é uma inovação no Novo Testamento, mas uma continuidade do plano redentor de Deus revelado desde o Antigo Testamento. Deus não abandonou a humanidade após a Queda, mas providenciou, desde o início, a promessa de redenção. Essa promessa é claramente vista em Gn 3.15, onde o descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente, prefigurando a vitória de Cristo sobre o pecado e Satanás.

Além disso, a Aliança da Graça não anulou a Lei, mas a cumpriu em Cristo. A obediência perfeita que Adão não pôde realizar foi completada por Jesus, o segundo Adão, em favor de todos os que crerem. Na teologia reformada, isso reforça a doutrina da justificação pela fé. A justiça de Cristo é imputada ao crente, que é declarado justo diante de Deus, não por méritos próprios, mas pelos méritos de Cristo. Esta justificação é central na Aliança da Graça, pois, ao crermos, somos aceitos como filhos de Deus e participantes das bênçãos eternas que a aliança promete.

Na visão reformada, a eleição é vista como o ato soberano de Deus, que escolhe quem será salvo, não com base em qualquer previsão de méritos humanos, mas puramente por sua graça. Essa doutrina exalta a glória de Deus na salvação, pois mostra que é ele quem inicia, sustenta e consuma o processo de redenção. Portanto, o papel humano na salvação é meramente responder com fé ao chamado irresistível de Deus, que nos concede tanto a vontade quanto a capacidade de crer.

Por fim, os reformados destacam que a fé, apesar de ser um dom de Deus, manifesta-se em obediência ativa. O crente, como parte da Aliança da Graça, busca viver de maneira que honre a Deus, refletindo a santidade e a justiça de Cristo em sua vida cotidiana. Isso inclui a participação nos sacramentos, que são vistos como sinais e selos da aliança, fortalecendo a fé dos eleitos. O batismo e a Ceia do Senhor, portanto, são meios pelos quais Deus continua a comunicar sua graça ao seu povo.

Perguntas para reflexão e estudo.

1. Como a primeira aliança (ou pacto) oferecia vida eterna e por que, após a entrada do pecado, tornou-se impossível ao ser humano obedecer perfeitamente à Lei de Deus?

2. De que maneira a eleição divina é apresentada como incondicional no texto, e como isso se opõe à visão arminiana da presciência do arrependimento humano?

3. Qual é o papel de Cristo na Aliança da Graça, e como a sua obediência é comparada à de Adão no cumprimento da Lei de Deus?

4. Como a Aliança da Graça se manifestou ao longo da história bíblica por meio de alianças subordinadas, e qual é a importância de Cristo como o objeto central da fé em cada uma delas?

5. Qual é a relação entre a Lei e a Graça segundo a teologia reformada, e como a obra de Cristo trouxe a justificação para os crentes?

6. De que forma os sacramentos (batismo e Ceia do Senhor) funcionam como sinais e selos da Aliança da Graça, fortalecendo a fé dos eleitos?


Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 20 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2021, 2024 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em Abril de 2024. Publicado originalmente em 28 de Fevereiro de 2021].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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