Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 19

Tempo de leitura: 07 minutos.

Pergunta 19: Qual é a miséria desse estado em que o homem caiu?

Resposta: Toda a humanidade, por sua queda, perdeu a comunhão com Deus [1], está sob sua ira [2] e maldição [3], e assim tornou-se sujeita a todas as misérias nesta vida [4], à própria morte [5] e aos tormentos do inferno para sempre [6].

PROVAS BÍBLICAS.

[1] Gênesis 3:8, 24; João 8:34, 42, 44; Efésios 2:12; 4:18.

[2] João 3:36; Romanos 1:18; Efésios 2:3; 5:6.

[3] Gálatas 3:10; Apocalipse 22:3.

[4] Gênesis 3:16-19; Jó 5:7; Eclesiastes 2:22-23; Romanos 8:18-23.

[5] Ezequiel 18:4; Romanos 5:12; 6:23.

[6] Mateus 25:41, 46; 2 Tessalonicenses 1:9; Apocalipse 14:9-11.

Comentário.

A miséria do estado em que o homem caiu pode ser dividida em três partes: (1) o que ele perdeu; (2) o que ele foi rebaixado a ser; e (3) o que ele se tornou responsável.

Primeiramente, o homem perdeu a comunhão com Deus. Isso significa que o homem caído não é mais capaz de desfrutar da presença graciosa e do favor de Deus, junto com a doce comunhão que Adão e Eva experimentaram no Jardim do Éden. “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5); e é “tão puro de olhos, que não podes ver o mal e à opressão não podes contemplar” (Hc 1.13). Por essa razão, quando Adão e Eva caíram, eles se esconderam e tentaram se cobrir. Como Deus é o nosso bem supremo e a comunhão com ele é o nosso principal fim e felicidade, essa perda é a maior de todas e a causa da nossa miséria.

A queda trouxe consigo uma ruptura completa na relação entre Deus e o homem. A comunhão, que outrora era plena e desimpedida, agora está manchada pelo pecado, que ergueu uma barreira intransponível entre o Criador e a criatura. Essa separação espiritual é evidente na atitude de Adão e Eva ao tentarem se esconder de Deus, sinalizando a vergonha e a culpa que passaram a dominar o coração humano. Essa condição de alienação é tão profunda que, sem a intervenção divina, o homem permaneceria eternamente afastado de Deus, incapaz de buscar ou desejar verdadeiramente a sua presença (Rm 3.10-12).

Em segundo lugar, o homem foi colocado sob a maldição e a ira de Deus. Por causa do pecado, o homem não pode mais esperar o favor e a bênção de Deus; ao contrário, ele está sujeito à maldição e à ira divina (Ef 2.2-3). A teologia reformada enfatiza que o pecado original, herdado de Adão, trouxe condenação a toda a humanidade (Rm 5.12-19). Essa condenação não é apenas um estado de morte espiritual, mas também uma sujeição à justa ira de Deus, que exige a satisfação de sua santidade e justiça.

Essa maldição é evidenciada nas diversas aflições que o homem experimenta nesta vida, desde as dificuldades físicas e emocionais até as crises espirituais mais profundas. A ira de Deus, embora muitas vezes vista em manifestações visíveis de julgamento, como doenças e desastres, também se manifesta de maneira mais sutil, como no endurecimento do coração e na cegueira espiritual. A condição humana pós-queda é marcada por uma vida de dor, sofrimento e alienação de Deus, que culmina na morte, a qual é a manifestação mais evidente da maldição (Rm 6.23).

Em terceiro lugar, o homem tornou-se sujeito a: (a) todas as misérias desta vida, (b) à morte física e (c) ao tormento eterno no inferno. As misérias desta vida podem ser tanto físicas quanto espirituais. Fisicamente, o homem está sujeito a doenças, pestilências, guerras, calamidades, acidentes, relacionamentos rompidos, entre outros males. Espiritualmente, ele enfrenta o endurecimento e a cegueira espiritual, tornando-se facilmente enganado pelas mentiras de Satanás. A morte física, como consequência do pecado, serve como um meio de encerrar o período de provação do homem – uma espécie de limitação antes do julgamento (Hb 9.27).

Vale destacar que, na teologia reformada, a morte física é vista como o último inimigo a ser vencido (1Co 15.26), e, embora seja uma consequência direta do pecado, ela não é o fim para os que estão em Cristo. Como Cristo, que não precisava morrer, pois não tinha pecado, morreu em favor dos crentes, a morte destes não deve mais ser vista como uma consequência final do pecado, mas como um meio de transladar a alma para a glória, separando-a do corpo pecaminoso, até que ela seja reunida ao corpo ressuscitado, glorioso e incorruptível, no último dia. Para o crente, a morte é a porta de entrada para a vida eterna, onde ele será finalmente liberto da presença do pecado e gozará da plena comunhão com Deus.

Quanto às dores do inferno, é importante notar que toda transgressão contra um Deus infinito é de infinita gravidade e, portanto, digna de punição infinita e eterna. Essa punição pode ser vista sob dois ângulos: (1) a punição da perda – ou seja, o banimento eterno da presença confortante de Deus; e (2) a punição dos sentidos – isto é, o tormento eterno da consciência, pois esta contempla constantemente o rosto de um Deus irado (Hb 10.31, Mc 9.44 – o “verme” pode ser interpretado figurativamente como a reprovação da consciência); e a aflição eterna do corpo morto que será ressuscitado no último dia (Mt 25.41; Dn 12.2; Ap 20.13).

Na teologia reformada, o inferno é entendido como a consequência final e justa da rebelião contra Deus. A eternidade no inferno é descrita como um estado de sofrimento consciente e contínuo, onde a ausência de Deus, que é a fonte de todo bem, resulta em um estado de completa desesperança e dor. A doutrina reformada sublinha que essa punição eterna é um reflexo da santidade de Deus e da gravidade do pecado, e que apenas através de Cristo os crentes podem escapar dessa condenação, sendo reconciliados com Deus e recebendo a vida eterna.

Perguntas para reflexão e estudo.

1. Como a perda da comunhão com Deus afeta profundamente a natureza e o propósito da existência humana?

2. De que maneiras a maldição e a ira de Deus se manifestam na vida do homem pós-queda?

3. Como a morte física, vista pela teologia reformada, serve como um meio de transladar a alma do crente para a glória?

4. Qual é a gravidade da punição eterna no inferno segundo a teologia reformada, e por que ela é considerada justa diante da santidade de Deus?

5. Como a obra redentora de Cristo altera a perspectiva da morte e da condenação eterna para o crente?


Breve Catecismo de Westminster Comentado – Pergunta 19 está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0 © 2021, 2024, 2026 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em Janeiro de 2026. Publicado originalmente em 26 de Setembro de 2021].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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