INTRODUÇÃO.
O terceiro atributo essencial da Bíblia que todo cristão deve compreender é sua suficiência. Isso implica que a Bíblia é suficiente – suficiente para nossa salvação, nossa adoração e nossa jornada cristã.
A doutrina da suficiência das Escrituras é o cerne do protestantismo, delineando uma distinção fundamental entre esta vertente e o catolicismo romano. Embora compartilhem aspectos teológicos como a Trindade e a Encarnação, as diferenças se tornam evidentes quando se aborda a questão da autoridade. Uma das principais controvérsias diz respeito ao papel das Escrituras: elas são suficientes como fonte de autoridade para a igreja?
A suficiência bíblica está intrinsecamente ligada a outras crenças teológicas, como a inerrância, o cânon das Escrituras e sua clareza. Embora todas essas noções contribuam para a nossa compreensão da suficiência, elas ultrapassam os limites deste artigo breve. Portanto, neste texto, vamos nos concentrar na compreensão geral da doutrina, conforme é aceita pelos seguidores do consenso confessional protestante, tal como expresso nas Três Formas de Unidade e nos Padrões de Westminster.
1. A SUFICIÊNCIA DA BÍBLIA NOS DOCUMENTOS REFORMADOS.
A doutrina da suficiência das Escrituras tem sido alvo de questionamentos desde a Reforma. A Igreja Católica Romana desafiou essa doutrina, argumentando que além da Bíblia, também são necessárias uma tradição infalível e o magistério papal para fornecer a única e verdadeira interpretação das Escrituras. Esse ponto de vista sugere que a tradição é uma segunda fonte infalível ou canal de revelação divina, o que diminui o status da Bíblia como a única autoridade final da igreja. Com o declínio da sola scriptura, a suficiência das Escrituras fica comprometida.
No entanto, a Reforma trouxe uma renovação da ênfase na suficiência bíblica. Com o retorno à autoridade das Escrituras, também veio a reafirmação de sua suficiência. Por exemplo, em 1561, a Confissão Belga declarou que “a Sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e, suficientemente, ensina tudo o que o homem deve crer para ser salvo (2Tm 3.16-17; 1Pe 1.10-12).
Um século depois, em 1646, os teólogos na Assembleia de Westminster reiteraram essa posição em sua declaração confessional, afirmando que:
- “todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarada na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela (2Tm 3.15-17). À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens (Gl 1.8-9; 2Ts. 2.2)”.
O Breve Catecismo de Westminster também encapsula a essência da suficiência em um formato de perguntas e respostas, ensinando que as Escrituras principalmente instruem sobre o que o homem deve crer a respeito de Deus e o que Deus exige do homem. Essas declarações confessionais destacam a distinção do protestantismo evangélico, que confia nas Escrituras como a fonte completa e suficiente para a salvação e a vida piedosa. Vejamos a pergunta 3 do Breve Catecismo:
- Qual é a coisa principal que as Escrituras nos ensinam? A coisa principal que as Escrituras nos ensinam é o que o homem deve crer a respeito de Deus, e o dever que Deus requer do homem (Jo 5.39; Jo 20.31; Sl 119.105; Rm 15.4; 1Co 10.11; Mq 6.8).
2. A BÍBLIA É SUFICIENTE PARA NOSSA SALVAÇÃO.
Primeiramente, a Bíblia se revela como fundamental para nossa salvação. O texto de Rm 10.17 nos lembra de que “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”. Embora reconheçamos a revelação geral de Deus na natureza como suficiente para nos conscientizar de nossa culpa, é na Bíblia que encontramos o caminho para o perdão e a vida eterna em Cristo. Quando possuímos a Bíblia, não precisamos buscar informações adicionais para alcançar a salvação – nenhum outro texto sagrado ou publicação (como o Livro de Mórmon ou a Tradução do Novo Mundo da Torre de Vigia das Testemunhas de Jeová), nem autoridade ou tradição humana (como o papa ou o magistério da Igreja Católica Romana). A Bíblia é suficiente para nos guiar no encontro do perdão e da redenção por meio da fé em Jesus Cristo.
3. A BÍBLIA É SUFICIENTE PARA NOSSA ADORAÇÃO.
Segundo, a Bíblia é suficiente para nossa adoração. Enquanto algumas pessoas defendem a ideia de que podemos adorar da maneira que desejarmos, desde que a Bíblia não proíba especificamente (conhecido como o “princípio normativo” da adoração), é mais sensato reconhecer que Deus é soberano sobre sua própria adoração. Nesse sentido, é prudente adorar a Deus conforme ele nos instruiu especificamente, evitando adicionar práticas ou rituais que inventamos (conhecido como o “princípio regulador” da adoração). Jesus nos alerta contra ensinar como doutrinas os mandamentos dos homens (Mt 15.9). Portanto, ao adorarmos, devemos lembrar-nos da suficiência das Escrituras – que elas nos ensinam como adorar a Deus.
4. A BÍBLIA É SUFICIENTE PARA NOSSA VIDA CRISTÃ.
Finalmente, a Bíblia é suficiente para orientar a vida cristã. O texto de 2Tm 3.16-17 afirma que a Escritura é “proveitosa para ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e habilitado para toda boa obra”. Isso implica que não há necessidade de buscar revelações especiais ou individuais de Deus para conduzir a vida como cristão. A Bíblia não nos instrui a aguardar insights proféticos, sonhos reveladores, palavras sobrenaturais de conhecimento ou pequenas vozes de Deus para nos guiar diariamente. Ao contrário, toda a orientação necessária está contida nas Escrituras. Portanto, não devemos buscar novas revelações, pois a Bíblia é verdadeiramente suficiente.
Estamos constantemente tentados a dar ouvidos a outras vozes além da Bíblia, concedendo-lhes influência em nossas vidas que deveria ser reservada exclusivamente às Escrituras. Às vezes, essas vozes são os gurus da autoajuda da cultura pop. Em outras ocasiões, são conjuntos de crenças sociais ou políticas. Até mesmo nosso próprio bom senso ou sentimentos podem nos desviar. É crucial lembrarmo-nos de que a Bíblia é suficiente – ela nos capacita a conhecer, adorar e honrar a Deus em nossa vida. Não devemos permitir que raízes superficiais se espalhem entre diversas fontes de autoridade espiritual. Pelo contrário, devemos aprofundar nossas raízes na Palavra de Deus, pois é nela que encontramos verdadeira suficiência.
CONCLUSÃO.
Em suma, a Bíblia se revela como uma fonte inesgotável e completa para orientar todas as dimensões da vida cristã. Desde a nossa salvação até a nossa adoração e conduta diária, ela oferece todas as diretrizes necessárias. Enquanto somos constantemente tentados a buscar outras vozes ou influências além das Escrituras, devemos nos lembrar da sua suficiência. Seja diante de correntes culturais, ideologias políticas ou simplesmente nossas próprias inclinações, a Bíblia permanece como o único alicerce seguro para a nossa fé. Portanto, cultivemos uma profunda conexão com a Palavra de Deus, reconhecendo que ela é verdadeiramente completa e capaz de nos guiar em toda a nossa jornada espiritual.
PERGUNTAS PARA REVISÃO DO CONTEÚDO.
1. Quais são as principais diferenças entre o protestantismo e o catolicismo romano em relação à doutrina da suficiência das Escrituras?
2. Por que a doutrina da suficiência das Escrituras tem sido alvo de questionamentos desde a Reforma?
3. Quais são os principais elementos teológicos intrinsecamente relacionados à suficiência bíblica mencionados no texto?
4. O que a Confissão Belga e a Assembleia de Westminster afirmam sobre a suficiência das Escrituras?
5. Como o Breve Catecismo de Westminster encapsula a essência da suficiência das Escrituras?
6. Segundo o texto, por que a suficiência das Escrituras é considerada um dos atributos essenciais da Bíblia?
7. Qual é o principal argumento do texto em relação à suficiência das Escrituras para nossa salvação?
8. Quais são as implicações do princípio regulador da adoração mencionado no texto?
9. De acordo com o texto, por que a Bíblia é considerada suficiente para nossa vida cristã?
10. Como o texto alerta sobre a tentação de buscar outras fontes além das Escrituras para orientação espiritual?
11. Quais são os perigos de conceder influência a outras vozes além da Bíblia em nossa vida cristã, de acordo com o texto?
12. Por que é crucial lembrar que a Bíblia é suficiente para conhecer, adorar e honrar a Deus, conforme destacado no texto?
13. Quais são as passagens bíblicas citadas no texto para apoiar a doutrina da suficiência das Escrituras?
14. Como a Reforma contribuiu para uma renovação da ênfase na suficiência bíblica, conforme descrito no texto?
15. Como o texto destaca a distinção do protestantismo evangélico em relação à suficiência das Escrituras?
BIBLIOGRAFIA.
Assembleia de Westminster, A Confissão de Fé de Westminster. 17ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
_____, O Breve Catecismo de Westminster. 5ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2016.
De BRÈS, Guido; URSINUS, Zacarias. Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
HINSON, Ed; EYRICH, Howard (orgs). Totally Sufficient: The Bible and Christian Counselling. Ross-shire: Christian Focus, 2004.
KAISER, Walter C., Jr. Recovering the Unity of the Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2009, In: Logos Bible Software.
REASONER, Mark. Five Models of Scripture. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2021, In: Logos Bible Software.

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“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).
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