O CRISTO, O MESSIAS
O título Cristo é frequentemente muito usado em conjunção com o nome de Jesus, tornando quase o seu nome. Uma pessoa não se refere normalmente a Jesus como “Jesus filho de José” ou mesmo como “Jesus de Nazaré”. Antes, considera-se “Jesus Cristo” o nome completo de Jesus. Visto que a palavra Cristo é entendida como um nome, podemos perder o seu significado total. Em verdade, Jesus é um nome, mas Cristo é um título. Este é usado no Novo Testamento mais frequentemente do que qualquer outro título dado a Jesus.
Cristo vem da palavra grega christos, que significa “ungido”. Corresponde à palavra hebraica traduzida por “messias”. Quando Jesus é chamado “Cristo”, ele está sendo chamado “o Messias”. Se tivéssemos de traduzir o nome e o título diretamente para o português, diríamos “Jesus Messias”. Com este título, estamos fazendo uma confissão de fé de que Jesus é o ungido esperado durante muito tempo por Israel, o Salvador que redimiria o seu povo.
No Antigo Testamento, o conceito de Messias se desenvolveu em um período de muitos anos, à medida que Deus revelava, de modo progressivo, o caráter e o papel do Messias. A palavra messias significava inicialmente “um ungido de Deus para uma tarefa específica”. Qualquer pessoa que fosse ungida para realizar um serviço para Deus, como um profeta, um sacerdote ou um rei, poderia ser chamada “messias” no sentido mais amplo. Devagar, por meio das declarações proféticas do Antigo Testamento, desenvolveu-se um conceito do Messias, aquele que seria o ungido unicamente de Deus para cumprir uma tarefa divina. Quando os escritores do Novo Testamento atribuíram a Jesus o cumprimento daquelas profecias, eles fizeram uma afirmação de tremenda importância. Estavam dizendo que Jesus era aquele que “estava por vir”. Ele cumpriu todas as promessas de Deus que convergiam na pessoa do Messias.
No Antigo Testamento, o conceito do Messias não é um conceito simples; tem nuanças. Há diferentes linhas de expectativa messiânica entretecidas no conteúdo desses livros antigos. À primeira vista, algumas dessas linhas parecem contraditórias. Uma das principais linhas de expectativa messiânica é a ideia de que um rei como Davi restauraria a monarquia de Israel. Há uma nota de triunfo na expectativa de um Messias que reinaria sobre Israel e colocaria todos os inimigos debaixo de seus pés. Essa era a vertente de expectativa messiânica mais popular no tempo em que Jesus apareceu no cenário da história. Israel sofria desde a sua conquista pelos romanos e se indignava sob a opressão deste jugo estrangeiro. Grande número de pessoas anelavam pelo cumprimento total das profecias sobre a vinda do Messias que venceria o domínio romano e restauraria a independência a Israel.
Outro aspecto do conceito do Messias era o do Servo Sofredor de Israel, aquele que levaria os pecados do povo. Esta noção se acha mais claramente nas Canções do servo, do profeta Isaías. E o principal texto que os escritores do Novo Testamento usam para entender a ignomínia da morte de Jesus é Isaías 53. A figura de um servo desprezado e rejeitado está em contraste total com o conceito de rei.
Uma terceira linha de expectativa messiânica se acha na chamada literatura apocalíptica do Antigo Testamento, os escritos altamente simbólicos de homens como Daniel e Ezequiel. Nesses escritos, o Messias, o Filho do Homem, é visto como um ser celestial que desce à terra para julgar o mundo. É difícil imaginar como um homem poderia ser, ao mesmo tempo, um ser celestial e um rei terreno, um juiz universal e um servo humilhado. Contudo, estas são as três principais vertentes de esperança messiânica que estavam bem vivas no tempo da entrada de Jesus no mundo. Nas seções seguintes, quero considerar mais atentamente estas linhas de expectativa.
O FILHO DE DAVI
O reino de Davi, no Antigo Testamento, foi a era dourada de Israel. Davi se distinguiu como herói militar e como monarca. Suas façanhas militares ampliaram as fronteiras da nação; Israel emergiu como um dos principais poderes do mundo e desfrutou de grande força militar e de prosperidade durante o reinado de Davi. Mas a era dourada começou a perder seu brilho no programa de construções de Salomão e enferrujou-se quando a nação se dividiu sob a influência de Roboão e Jeroboão. A memória dos grandes dias, porém, permanecia na história do povo. A nostalgia atingiu o ápice sob a opressão do Império Romano quando o povo da terra olhava para Deus à espera de um novo Davi que restauraria a glória anterior de Israel.
A expectativa que cercava a esperança de um Messias político não nascera apenas de nostalgia, mas tinha suas raízes nas profecias do Antigo Testamento que davam consistência a esse sonho. Os Salmos declaravam que alguém semelhante a Davi seria ungido como rei por Deus mesmo. Salmos 132.11 dizem: “O Senhor jurou a Davi com firme juramento e dele não se apartará: Um rebento da tua carne farei subir para o teu trono”. Salmos 89 declaram: “Farei durar para sempre a sua descendência; e, o seu trono, como os dias do céu… Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios proferiram. Uma vez jurei por minha santidade (e serei eu falso a Davi?): A sua posteridade durará para sempre, e o seu trono, como o sol perante mim” (vv. 29, 34–36).
Não somente nos Salmos, mas também nos Profetas, lemos sobre as esperanças futuras a respeito de alguém que seria como Davi. Amós, por exemplo, proclamou: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi” (9:11).
Estas esperanças nacionais experimentaram épocas de fervor e de dormência em Israel, dependendo frequentemente do grau de liberdade política que a nação desfrutava. Em tempos de crise e opressão, as chamas de esperança e expectativa eram reacesas no coração das pessoas, enquanto elas anelavam pela restauração do tabernáculo caído de Davi.
Com a vinda de Jesus, a noção de cumprimento da promessa do Messias real da linhagem de Davi foi despertada novamente. Os autores do Novo Testamento não consideraram uma coincidência o fato de que Jesus veio da tribo de Judá, a quem Deus prometera o cetro real. Era da tribo de Judá, da tribo de Davi, que viria Um que traria o novo reino a Israel. Os escritores do Novo Testamento viram, com clareza, na pessoa de Jesus o cumprimento da esperança do Antigo Testamento quanto a um Messias real. Isso é visto no lugar de central importância que o Novo Testamento dá à ascensão de Jesus. Jesus é considerado o Filho de Davi que anuncia e inaugura o reino de Deus.
Houve ocasiões no ministério de Jesus em que ele teve de fugir das multidões que procuraram fazê-lo rei porque Suas opiniões sobre o reino eram muito singular. Eles pensavam num reino que seria inaugurado sem o preço de sofrimento e morte. As multidões tiveram pouco tempo com um rei que estava para sofrer. Jesus teve de evitar as multidões repetidas vezes e advertiu seus discípulos quanto a declararem abertamente que ele era o Messias. Em nenhum momento ele negou que era o Cristo. Quando os discípulos declararam ousadamente sua confiança no messiado de Jesus, ele aceitou a designação com Sua bênção.
O momento mais incisivo de revelação messiânica aconteceu em Cesareia de Filipe, quando Jesus perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem as multidões que sou eu?” (Lucas 9:18). Os discípulos falaram a Jesus os boatos das multidões: “Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas”. Por fim, Jesus fez a pergunta ao grupo mais íntimo de seus discípulos: “Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu com fervor: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:14–16). A resposta à confissão de Pedro é fundamental ao entendimento do Novo Testamento quanto à identidade de Cristo. Jesus respondeu: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (v. 17). Jesus pronunciou Sua bênção sobre aquele a quem Deus revelara a Sua verdadeira identidade. Jesus reconheceu que o reconhecimento de Pedro quanto à Sua identidade era correto. Não fora obtido de um exame das manifestações externas; antes, Pedro reconheceu a Jesus porque as escamas haviam sido removidas de seus olhos pela revelação da parte de Deus, o Pai.
Em outra ocasião, João Batista saudou Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Mas, quando João foi detido e lançado no cárcere, sua fé começou a hesitar, e ele enviou mensageiros a Jesus para fazer-lhe uma pergunta apropriada: “És tu aquele que estava para vir ou esperaremos outro?” Jesus respondeu aos mensageiros, dizendo: “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho” (Lucas 7:20–22). Essas palavras não foram escolhidas à toa. Jesus estava chamando a atenção para a profecia de Isaías 61, o texto que ele lera no dia em que entrara na sinagoga de Nazaré – “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para p r em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18–19). Depois de acabar de ler o rolo, Jesus disse: “Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (v. 21). Em essência, a resposta de Jesus à mensagem de João Batista foi isto: “Digam a João que leia as profecias de Isaías, e assim ele saberá a resposta para sua pergunta”.
O SERVO SOFREDOR DE ISRAEL
A figura do servo do Senhor ou o “Servo Sofredor”, referida pelo profeta Isaías, é normativa para o entendimento do Novo Testamento quanto à pessoa de Jesus. Há debates sobre a identidade do autor de Isaías e a identidade do servo que o autor tinha em mente. Alguns argumentam que o servo se referia a Israel coletivamente, enquanto outros aplicam o papel a Ciro e alguns, ao próprio Isaías. Este debate continuará. Todavia, o fato de que os autores do Novo Testamento acharam em Jesus o cumprimento final desta figura é indisputável.
Também é claro que Jesus pensava em seu próprio ministério em termos da profecia de Isaías, como vemos de Suas afirmações na sinagoga de Nazaré e de Sua resposta à pergunta de João Batista.
Não é por acaso que Isaías é o profeta mais citado no Novo Testamento. As profecias de Isaías, citadas no Novo Testamento, não são limitadas ao sofrimento de Jesus, mas também se referem a todo o ministério de Jesus. No entanto, foi a morte de Cristo que chamou a atenção dos autores do Novo Testamento às profecias de Isaías concernentes ao servo. Vejamos Isaías 53:
Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.
O estudo frequente de Isaías 53 aumenta, ao invés de diminuir, nossa admiração de seu conteúdo. Parece um relato da paixão de Jesus feito por uma testemunha ocular. Aqui, os princípios de solidariedade coletiva e de imputação do pecado são demonstrados claramente. A ignomínia de Jesus se acha na centralidade de seus sofrimentos como o meio de redenção. O Messias vem não somente como Rei, mas também como um servo que recebe a punição pela iniquidade do povo. Ele morre em favor de muitos. Qualquer interpretação da vida e da obra de Jesus que não leva a sério este aspecto faz violência radical ao texto do Novo Testamento.
O fato de que os conceitos de Rei de Israel e de Servo Sofredor fundiram-se em um homem é visto dramaticamente na visão celestial que se descortinou diante do apóstolo João na ilha de Patmos. Em uma parte da visão, João teve um vislumbre do que havia no céu. Ele ouviu o clamor de um anjo: “Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?” (Apocalipse 5:2). João relata com emoção solene que não se achou ninguém digno de abrir o livro. Seu desapontamento deu lugar à tristeza: “E eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele” (5:4). Nessa altura, um ancião o consolou, dizendo: “Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos” (5:5). Houve uma mudança abrupta e notável no teor da narrativa, quando um senso de expectativa substituiu a atmosfera de desespero. João aguarda o aparecimento do Leão triunfante. A ironia se completa quando João vê não o Leão, e sim um Cordeiro que fora morto, mas que estava em pé no meio dos anciãos. João registra que o Cordeiro tomou o rolo da mão direita daquele que estava sentado no trono, e milhares de anjos cantavam: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber (…) honra, e glória, e louvor” (5:12). Aqui, o Leão e o Cordeiro são a única e mesma pessoa. O servo reina como Rei.1
Bibliografia
SPROUL, R.C., Quem é Jesus?. Questões Cruciais, Vol 1. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012, pp. 27-39.

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