Justificação e mérito: Por que Deus me considera justo?

A “justificação somente pela fé”, um dos lemas característicos da Reforma, mostra que Deus considera os cristãos justos (isto é, ele os justifica) por causa de sua fé, e não de boas obras. Esse conceito deve ser distinguido claramente da ideia equivocada de que Deus considera os cristãos justos com base em sua fé (isto é, pelo fato de possuírem fé). Os cristãos não se tornam merecedores da justiça de Deus por fazer obras ou por ter fé; são tidos como justos com base na justiça de Cristo que lhes é imputada por meio do veículo da fé.

O Novo Testamento afirma repetidamente que os cristãos são salvos com base na obra de Cristo em seu favor e não com base no seu próprio mérito (ênfases nossas):

  • Romanos 3.22–24: Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.
  • Romanos 5.10–11: Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida; e não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação.
  • Romanos 5.15–21: Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos. O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor.
  • Romanos 8.1–4: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.
  • 1Coríntios 1.30: Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.
  • Gálatas 2.20–21: Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.
  • Gálatas 3.27–29: Porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.
  • 1Pedro 3.18: Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito.

Paulo diz, “considero tudo como perda… para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.8-9, grifo nosso). Paulo também explica de modo claro que a justificação é realizada inteiramente pela graça e recebida pela fé (confira Rm 3.25-30; 4.1 – 5.2; Gl 2.16; 3.8-14, 24), fazendo referência ao exemplo de Abraão, a quem Deus imputou justiça por causa da sua fé (Gn 15.6; Rm 4.1-25; Gl 3.8-14). Paulo também se vale das palavras de Davi em Sl 32.1-2 (Rm 4.6-8) como prova veterotestamentária adicional de que Deus sempre considerou o seu povo justo por causa de sua fé, e não de suas obras.

Há quem levante objeções à ideia de que as obras não são necessárias para obter a justificação. A Igreja Católica, por exemplo, ensina que, pelo menos em parte, Deus considera os cristãos justos com base nas boas obras que estes realizam depois de abraçaram a fé. Algumas formas de arminianismo também declaram que todos os que foram perdoados com base na morte expiatória de Cristo podem ir para o inferno caso não perseverem na fé e nas boas obras, em cooperação com a graça de Deus.

Essa questão se torna confusa para muitos cristãos, pois tradições como o catolicismo e o arminianismo se valem de passagens bíblicas que parecem contradizer o ensino de Paulo. Enquanto Paulo escreve que “o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.28), Tiago afirma “Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente” (Tg 2.24) e também se vale do exemplo do Abraão.

No entanto, essa aparente discrepância é facilmente harmonizada ao se observar que “justificar” (do grego dikaioo) pode significar “atribuir justiça” (veja Rm 4.5) ou “mostrar-se justo” (veja Lc 7.35). Paulo se refere com frequência à fé de Abraão conforme esta foi exercida em Gn 15.1-6, uma passagem que fala da primeira ocasião em que Deus prometeu um filho a Abraão, bem antes do nascimento de Isaque. No relato de Gn 15, “justificar” significa “atribuir justiça”: “Ele [Abraão] creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6). No entanto, Tiago relembra um episódio (registrado em Gn 22) que ocorreu depois do nascimento de Isaque, mais precisamente, no início de sua vida adulta (Tg 2.21). No relato de Gn 22, “justificar” significa “mostrar-se justo”, como indica o fato de Deus estar testando Abraão (Gn 22.1) e da justificação de Abraão consistir em ele ser aprovado nesse teste: “agora sei que temes a Deus” (Gn 22.12). Tiago concorda com Paulo que inicialmente Abraão foi considerado justo ao crer na promessa de Deus (Tg 2.22-23), mas acrescenta que a obediência posterior de Abraão demonstrou a seriedade e o zelo de sua fé inicial.

Bibliografia.

Extraído e adaptado de Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 2009.


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[Artigo atualizado em 30 de junho de 2024].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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