Os atributos de Deus na Confissão de Fé de Westminster.

Tempo de leitura: 10 minutos.

INTRODUÇÃO.

A Confissão de Fé de Westminster (doravante CFW) é um sistema de doutrina cristã, tal como um manual de Teologia Sistemática, baseada na Escritura e notável pela sua coerência em todas as partes. Foi elaborada entre julho de 1643 até fevereiro de 1649, em uma das salas da Abadia de Westminster, Inglaterra. Os 120 teólogos que participaram desse concílio tiveram como missão preparar uma nova base de doutrina, forma de culto e governo eclesiástico que devia servira para a Igreja do Estado nos três reinos. O resultado foi a melhor confissão de fé reformada do período da Reforma e pós-Reforma.

Com base no Capítulo 2 da CFW estudaremos os atributos de Deus tal como se nos são apresentados por ela. Embora esse capítulo aborde o tema da Trindade, nosso alvo será apenas os atributos de Deus.

1. O SER DE DEUS.

O primeiro parágrafo do capítulo 2 da CFW trata do ser de Deus e de seus atributos. Ele inicia com a frase: “Há um só Deus vivo e verdadeiro[…]”, e a partir dessa frase a CFW descreve o Ser de Deus.

Assim, o capítulo 2 inicia assumindo que existe um só Deus que é vivo e verdadeiro. (Cf. Dt 6.4; 1Co 8.4,6; 1Ts 1.9; Jr 10.10). Interessante notar que a Bíblia não está preocupara em provar a existência de Deus; antes ela se detém em mostrar que existe apenas um único Deus. Ela se propõe a responder a pergunta: “Quantos deuses há?”.1 Ela responde da maneira categórica em Dt 6.4: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus, é o único Senhor.” (Dt 6.4). A Bíblia afirma peremptoriamente que existe só um Deus vivo e verdadeiro, como Jeremias disse aos israelitas e Paulo aos tessalonicenses (Jr 10.10; 1Ts 1.9).

Em seguida, a CFW declara que Deus é espírito puríssimo: “Ele é espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões” (CFW II.1). A declaração mais exata do Ser de Deus que temos na Escritura foi dada pelo Senhor Jesus à samaritana: “Deus é espírito”. Isso requer que compreendamos Deus como aquele que é invisível. Paulo o louvou como aquele que é “eterno, imortal” e “invisível” (1Tm 1.17).2 Dizer que Deus é espírito significa, nas palavras de Berkhof, que ele é: “na sua essência, espírito, de modo que todas as qualidades que pertencem à ideia perfeita de espírito se acham necessariamente nele, que é um ser autoconsciente e autodeterminativo”.3

2. OS ATRIBUTOS DE DEUS.

Após apresentar o Ser de Deus, a CFW descreve os atributos dele. Conforme disse Berkhof: “o todo de sua existência está em cada um dos seus atributos” e “as perfeições de Deus são o próprio Deus como se revelou ao homem” – e os atributos de Deus se nos são demonstrativos das perfeições de Deus.4 Quando falamos em atributos de Deus, estamos nos referindo àquelas qualidades de Deus que constituem o que ele é. São as próprias características de sua natureza. São qualidades permanentes e intrínsecas de Deus.5

2.1 Os atributos incomunicáveis de Deus.

Os atributos incomunicáveis de Deus são aqueles atributos que ele não compartilha com a criação. A CFW menciona os atributos incomunicáveis de Deus ao declarar que ele é:“imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto” (CFW II.1).

2.1.1 Deus é imutável.

Deus é para sempre o mesmo, e por isso isento de toda e qualquer mudança em seu ser, em suas perfeições, em seus propósitos e em suas promessas (Cf. Sl 102.27; Ml 3.6; Tg 1.17). A natureza de Deus não sofre modificação.6 No entanto, há passagens em que Deus parece mudar de ideia ou se arrepender do que fez. A resposta para isso é que a imutabilidade de Deus como ensinada na Escritura não dá a entender que não haja nenhum movimento em Deus. Pensar que não haja nenhum tipo de movimento em Deus é estar debaixo da influência da ideia grega de imobilidade e esterilidade. O conceito bíblico não é que Deus seja estático, mas estável. Ele é ativo e dinâmico, mas de uma forma que seja estável e coerente em sua natureza.7

Deus é imutável em seu ser íntimo, em seus atributos, em seus propósitos, seus motivos de ação e em suas promessas. E quando a Bíblia fala de ele como se arrependendo e mudando de intenção evidentemente é só uma maneira humana de falar. Na realidade, a mudança não é em Deus, mas no homem e nas relações do homem com Deus.8

2.1.2 Deus é imenso.

Ele enche todas as coisas e está presente em todo lugar. Não podemos nos esconder de Deus, e não há lugar para que Deus se esconda – o universo testifica a respeito dele – ele preenche o universo de uma extremidade a outra (1Rs 8.27; Jr 23.23-24).9

2.1.3 Deus é eterno.

“De eternidade a eternidade, tu és Deus” – assim orou Moisés (Sl 90.2). Ele é o “Rei dos séculos”, expressão que equivale dizer que ele é eterno (1Tm 1.17). Deus transcende o tempo e possui o todo de sua vida de uma vez. Com ele há somente um presente eterno.

2.1.4 Deus é incompreensível.

Deus é conhecível – ele revela a si mesmo. Mesmo assim, nosso conhecimento é tão limitado que também admitimos, em um sentido profundo, que Deus é “incompreensível”. A revelação que ele deu de si mesmo não é exaustiva. Ele revela a si mesmo, primeiro, na obra da Criação (Sl 19.1-6; Cf. Rm 1.18-22) e, em segundo lugar, em sua Palavra (Sl 19.7-11).

2.1.5 Deus é onipotente e onisciente.

Deus possui todo o poder e todo o conhecimento. Deus se revelou a Abraão se identificando como o “Deus Todo-poderoso” (Gn 17.1). O conhecimento de Deus é incomensurável (Sl 147.5). Ele sabe até mesmo a quantidade de cabelo da cabeça dos discípulos (Mt 10.30). Ele nos vê e nos conhece totalmente.

2.1.6 Deus é santíssimo.

Diante do trono do céu, serafins e querubins louvam a perfeição da santidade dele (Is 6.3; Ap 4.8). A santidade de Deus é aquilo pelo qual ele é absolutamente distinto de todas as criaturas, bem como exaltado acima delas em majestade infinita.

2.1.7 Deus é completamente livre e absoluto.

Como nos lembra o Salmo 115, Deus é “completamente livre” – fazendo tudo como lhe agrada (Sl 115.3). Porque Deus é “absoluto”, ele é quem é – como certa vez ele disse a um apavorado Moisés na sarça ardente (Êx 3.14).

2.2 Os atributos comunicáveis de Deus.

Os atributos comunicáveis de Deus são aqueles com os quais os atributos do homem têm alguma analogia. Essa analogia é somente finita e imperfeita do que é infinito e perfeito em Deus. A CFW declara que Deus é: “amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso”.

2.2.1 Deus é amor.

Alguns consideram este o principal atributo de Deus. Mas não há razão para pensar assim. Em 1Jo 4.8 lemos: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8). No versículo 16 João repete a mesma ideia. O próprio Deus anunciou a Moisés que ele é “Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!” (Êx 34.6–7) Deus é amoroso e provou isso enviando seu Filho para morrer em nosso lugar (Jo 3.16).

2.2.2 Deus é gracioso.

Deus é gracioso, isto é, cheio de graça. A graça de Deus é o seu amor imerecido para com os que têm perdido direito a ele. A graça de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais que são outorgadas aos pecadores indignos (Ef 1.6-7; 2.7-9; Tt 2.11; 3.4-7).10 Estas bênçãos que nos são concedidas graciosamente, Deus não no-las dá baseados em nossos méritos ou merecimentos, mas baseado em sua própria bondade e generosidade.11

2.2.3 Deus é misericordioso.

A misericórdia de Deus, junto com a graça, é outro aspecto do amor de Deus para com sua criação. A misericórdia de Deus é sua compaixão terna e amorosa por seu povo. É o amor para com os que sofrem angústia ou aflição, independente de seus merecimentos. Deus encara o homem como quem sofre as consequências do pecado, portanto numa condição lastimável. Confira Sl 103.13.

2.2.4 Deus é longânimo

O amor de Deus é longânimo, qual seja, paciente ou tolerante. O amor de Deus para com seus filhos é persistente (Rm 2.4; 1Pe 3.20). Deus suporta os perversos e maus por conta de sua longanimidade. No entanto, eles não escaparão do julgamento de Deus.

2.2.5 Deus é muito bondoso

A bondade de Deus é o seu amor em ação, que se manifesta em fazer bem aos outros. Às vezes essa sua bondade é chamada de benevolência ou graça comum. Das muitas passagens bíblicas sobre a bondade de Deus, João 3.16 é a mais conhecida. Deuteronômio 7.7-8 é claro em mostrar a bondade de Deus para com seu povo.

CONCLUSÃO.

Todo esse conhecimento visto até aqui não é meramente teórico ou de teor acadêmico-teológico. O que vimos aqui sobre o nosso Deus é pura prática, pois agora podemos nos relacionar com ele mais intimamente uma vez que o conhecemos à medida que a Bíblia o apresenta a nós.

Em diversas passagens Deus pede ao seu povo para que seja santo como ele é. Se Deus é misericordioso, nós também devemos ser; se ele é longânimos, esforcemo-nos a também sê-lo. Perceba: existe uma relação entre o fruto do Espírito e os atributos de Deus (Gl 5.22-23). Basta traçar um paralelo para chegar a essa conclusão.

Portanto, esforcemo-nos a cultivar o fruto do Espírito, pois assim seremos cada vez mais parecidos com o nosso Deus, demonstrando os atributos dele em nosso comportamento – não há método de evangelismo mais eficaz do que esse.

Notas.

1DIXHOORN, Chad Van, Guia de estudo da Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 54.

2DIXHOORN, loc. cit.

3BERKHOF, Louis, Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 46.

4BERKHOF, op. cit., p. 47.

5ERICKSON, Millard J., Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997, pp. 104, 105.

6BERKHOF, op. cit., p. 55; ERICKSON, op. cit., p. 114.

7BERKHOF, op. cit. p. 54.; ERICKSON, op. cit., p. 115.

8BERKHOF, op. cit. p. 53.

9DIXHOORN, op. cit, p. 55.

10BERKHOF, op. cit. p. 55.

11ERICKSON, op. cit., p. 124.

BIBLIOGRAFIA.

BERKHOF, Louis, Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

DIXHOORN, Chad Van, Guia de estudo da Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.

ERICKSON, Millard J., Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.


Os atributos de Deus na Confissão de Fé de Westminster está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0, © 2022, 2025 por Instituto Genebra de Estudos Reformados.

[Nota do Editor: Artigo atualizado em agosto de 2025. Publicado originalmente em 11 de maio de 2022].

“Pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo” (Ap 1.9).


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