Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor (1Coríntios 13.13).
Este versículo é muito conhecido entre os cristãos e até pelos que não professam o cristianismo. É extremamente lindo e muito lido nas redes sociais e em convites de casamento. Mas o fato de algum versículo ser bem conhecido não quer dizer, necessariamente, que ele é bem compreendido.
Esta passagem está registrada na primeira epístola que Paulo escreveu aos coríntios quando estava terminando sua estadia em Éfeso (1Co 16:8), por volta do ano 56 d.C.
Para que haja um maior entendimento sobre o incentivo que o apóstolo teve ao escrever este versículo, é preciso entender o contexto histórico em que foi escrito.
Corinto era a capital política da Grécia e um importante centro comercial e intelectual movida economicamente pelo comércio naval. A Corinto que Paulo conheceu em suas viagens missionárias e a cidade moderna que é conhecida atualmente, localiza-se na península do Peloponeso, na Grécia, a 60 quilômetros de Atenas. Mas não era apenas famosa pela diversidade cultural, erudição ou pelo lucrativo comércio que atraía milhares de pessoas; esta cidade tinha a reputação de um lugar em que a prostituição, luxúria, depravação e a adoração a outros deuses faziam parte do cotidiano daquele povo.
Em Corinto havia pelo menos vinte e seis templos e espaços considerados sagrados em honra a deuses e deusas. Entre eles, o templo de Afrodite, a conhecida deusa do amor e da fertilidade, onde várias prostitutas cultuais, com os seus corpos, a adoravam.
Esta cidade havia sido destruída totalmente em 146 a.C., mas se reergueu no século seguinte juntamente com os seus deuses. Ao se restabelecer, muitas pessoas passaram a viver na cidade, o que contribuiu para uma diversidade cultural muito grande do lugar. E é claro que entre os imigrantes incluíam também os judeus.
A cidade de Corinto não era muito diferente do que conhecemos hoje no Brasil: havia muitas pessoas abastadas, cultas, servidores públicos, filósofos, escritores, banqueiros etc.; mas a maioria da população era pobre e analfabeta. Segundo Stanley, “em Corinto existia uma população de aproximadamente quatrocentos mil escravos dentre os quais se encontravam muitos judeus” (HORTON, 2012, p. 11).
E é neste contexto de extrema imoralidade, em todos os sentidos, que Paulo chega em Corinto. Permaneceu ali ao longo de um ano e meio e expôs as Escrituras com autoridade e cheio do Espírito Santo (como sempre!). Muitas pessoas foram convertidas e batizadas; nascia ali a igreja de Corinto e que após a partida de Paulo, foi liderada por Apolo (At 19.1).
A igreja era composta, em sua maioria, pelo que parece, por pessoas pobres, iletradas, humildes, simples, ou seja, pessoas que viviam à margem da sociedade (1Co 1.26-29).
Depois de alguns anos, após a partida do apóstolo, quando estava em Éfeso, foi informado, pelos da casa de Cloe, que a igreja se encontrava em problemas (1Co 1.11):
- Divisões na igreja (1Co 6.1-8; 11.17-24);
- Imoralidade sexual (1Co 5.1-8);
- Confusão doutrinária (1Co 10.28; 14.5; 15);
- Dons espirituais, mas sem o fruto do Espírito 1Co 1.7).
Paulo, ao longo da carta, exortou, aconselhou e disciplinou os coríntios com amor e firmeza. Diante de tantos problemas, demonstrou uma sabedoria para lidar com todos eles. É dentro deste cenário que o apóstolo escreveu uma das passagens mais sublime da Bíblia: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor” (1Co 13.13). Todos os dons e a sabedoria, pelos quais os coríntios tanto se orgulhavam, cessariam; mas estas três virtudes, independentemente de qualquer coisa, permaneceriam.
Por que não a fé?
O que é fé?: “A fé é, em geral, a persuasão da mente de que certa afirmação é verdadeira (Fp 1.27; 2Ts 2.13). Sua ideia principal é a confiança. Uma coisa é verdadeira e, portanto, digna de confiança. Admite muitos graus até a plena certeza de fé, de acordo com a evidência em que se baseia.” (EASTON, 1893, p. 250).
Às vezes, colocamos a nossa fé em tantas coisas e pessoas, mas não em Deus. E quando o fazemos, é de forma rasa e superficial; queremos ver para depois crer. Se não confiamos em Deus, é porque não o conhecemos; e se não o conhecemos, é porque falhamos na leitura bíblica e na oração; e se falhamos nessas práticas, seremos carnais e se agimos desse modo, não estamos distantes dos irmãos a quem Paulo dedicou a carta.
Por vezes somos como a igreja de Corinto. A nossa fé nem sempre está baseada na obra de Jesus na cruz, mas em nós, em achismos e superioridade em relação ao irmão; nem sempre a nossa fé é baseada no amor e na veracidade das Escrituras, mas por doutrinas humanistas.
Se esta carta fosse direcionada a nós, hoje, o que Paulo diria? Talvez até coisas piores. Não estamos distantes dos irmãos coríntios daquela época. A nossa fé tem que ser guiada pelo amor de Jesus Cristo que foi manifestado na cruz.
É indiscutível a importância da fé para o cristão. Ainda assim, o amor é muito maior.
Por que não a esperança?
A humanidade, de forma geral, é esperançosa: acredita em um amanhã melhor em todos os sentidos: dias melhores na faculdade, na carreira, no casamento, na igreja, para os filhos etc.; e coloca a esperança em lugares ou pessoas que não têm importância: nos pais, no cônjuge, nos filhos, nos pastores, no dinheiro, na profissão, na própria inteligência etc.
Mas o que é esperança?: “Esperança é a confiança de que, integrando os atos redentores de Deus no passado com as respostas humanas confiantes no presente, os fiéis experimentarão a plenitude da bondade de Deus tanto no presente quanto no futuro” (The Lexham Bible Dictionary).
Diferentemente das pessoas que colocam a sua esperança em coisas perecíveis e sem importância, nós, os cristãos, a colocamos em Jesus Cristo. Temos um futuro glorioso porque cremos na obra de Jesus na cruz.
A igreja de Corinto estava muito preocupada em valorizar a “sabedoria” humana, que nada tinha a ver com a de Deus. Foi de um extremismo tão grande que os irmãos daquela igreja se aliavam a líderes cristãos que disputavam a sabedoria entre si. Desse modo, a divisão entre eles começou a existir vindo causar contendas e competições; revelou um orgulho enraizados em seus pecados.
“Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; porventura, não sois carnais? Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?” (1Co 3. 4-5)
Tomaram partido de homens e esqueceram-se de Deus. Tinham escolhido um lado para depositarem suas esperanças e não era no Senhor, mas em sabedoria humana que nada acrescentaria à fé tão pequena deles. Não buscavam em conhecer a Deus, mas os seus próprios interesses; não colocavam a esperança em Deus e em sua obra redentora através de Jesus, mas em homens tão carnais quanto eles.
É imprescindível que o cristão tenha esperança. Mas ainda o amor é maior.
E por que o amor?
Tanto em hebraico (ahab) como no grego (ágape), os termos traduzidos como “amor” são ações em palavras, indicando atos conscientes em relação ao ser amado. Em algumas versões bíblicas a palavra amor aparece como caridade como uma forma de demonstrar que o amor é mais que um sentimento, é também ação.
Ao longo dos séculos, vários pensadores, cristãos e não cristãos, tentaram definir o significado da palavra “amor”. Alguns exemplos:
“O amor é uma lona fornecida pela natureza e bordada pela imaginação.” (Voltarie)
“Uma palavra nos liberta de todo o peso e da dor da vida: essa palavra é amor.” (Sófocles)
“O amor é a força mais sutil do mundo.” (Mahatma Gandhi)
“Amor é mais serviço do que sentimento.” (John Stott)
“O amor é filho da pobreza e da riqueza: da pobreza, porque constantemente pede, e da riqueza porque constantemente se dá.” (Platão)
Poetas (principalmente os românticos), filósofos, sociólogos, escritores de gêneros diversos, teólogos etc. tentaram definir o amor. Algumas dessas definições são certeiras, bonitas e traz reflexão, mas nenhuma delas se compara ao que o apóstolo Paulo escreveu, inspirado pelo Espírito Santo, sobre a definição do amor:
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha;” (1Co 13.1-8).
A Bíblia declara, em absoluto, que “Deus é amor” (1Jo 4.8), assim como ele é benevolente, misericordioso, paciente, justo e tantos outros mais atributos e todos eles, lincados entre si. Não é possível definirmos Deus somente pelo amor, mas o amor é definido por ele. Aliás, humanamente falando, não se pode definir quem Deus é. O que se sabe sobre o Senhor, foi o que ele quis nos revelar através da sua Palavra; há muito mais sobre o grande Eu Sou, o nosso intelecto limitado não consegue compreender.
Mas é reconfortante para nós sabermos que Deus é amor e assim, ele nos ama de forma incondicional. Se não fosse assim, não teria dado o seu único filho a morrer por nós pecadores; esta é a maior expressão de afeto que existe.
O amor nos distingue como igreja, se não amamos uns aos outros, estaremos em um caminho que não levará a Deus e consequentemente, as pessoas também não irão conhecê-lo.
Por que o amor é maior que todos?
A fé em Deus é o alicerce que nos mantém de pé. A Bíblia declara que sem fé é impossível agradá-lo (Hb 11.6). Se sem fé não se pode agradar ao Senhor, por que o amor é ainda maior?
Vemos que os cristãos de coríntios possuíam vários dons e entre eles a fé, mas pela falta do amor, tornou-se exclusivista, fechada em si mesma, egoísta e carnal. “E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1Co 13).
A esperança também fazia parte daquela igreja, mas estava depositada nos lugares errados. Quando não conhecemos o amor de Deus, a obra salvadora de Jesus por nós, colocamos a nossa esperança em coisas ou pessoas que não valem a pena.
Conclusão.
Amamos porque ele nos amou primeiro. Simples assim. E amamos porque temos o Espírito Santo que habita em nós; o amor então é possível pois é uma ação do Espírito Santo, fora dele, não saberíamos o real significado do amor. É um atributo de Deus, e não nosso. É quem ele é, e não quem somos.
Sem o amor de Deus, a nossa fé seria colocada em lugares e pessoas erradas; a nossa esperança seria eternamente vã. Os dons que nos foram concedidos irão acabar aqui na terra, mas o amor é único que permanecerá no céu.
Bibliografia.
BARRY, John D. (et al.), The Lexham Bible Dictionary. Bellingham, WA: Lexham Press, 2016, In: Logos Bible Software.
EASTON, M. G, Easton’s Bible dictionary. New York: Harper & Brothers, 1893, In: Logos Bible Software.
HORTON, Stanley M. 1 e 2 Coríntios: os problemas da Igreja e suas soluções. 7. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
Autora: Milene Silva.

A Fé, a Esperança e o Amor de Blog Ella Cristã está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Descubra mais sobre Instituto Genebra de Estudos Reformados
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe um comentário