Consideremos, porém, que, assim como a fé é a alma, assim a leitura e a meditação na Palavra são os pais da oração. Por isso, antes de orar de manhã, leia um capítulo da Palavra de Deus. Depois medite por algum tempo, refletindo sobre quantas coisas consegue lembrar do que leu. Como por exemplo:
- Primeiro, quais bons conselhos ou exortações para a prática de boas obras e para a santidade em seu viver você lembra?
- Segundo, quais ameaças de juízos contra este ou aquele pecado? E também, quais temíveis exemplos de punições e de atos de vindicação de Deus sobre tais e tais pecadores?
- Terceiro, quais bênçãos Deus promete pelos atos e atitudes de paciência, castidade, misericórdia, socorro aos pobres, zelo no serviço de Deus, amor real, fé e confiança em Deus e determinadas virtudes cristãs?
- Quarto, que bondosa libertação Deus operou e quais bênçãos especiais ele concedeu aos que foram os servos verdadeiros e zelosos?
- Quinto, aplique estas verdades ao seu coração, e não leia estes capítulos como matéria de narrativa histórica, mas como se fossem outras tantas epístolas que Deus lhe envia do céu. Porque tudo o que foi escrito nas Escrituras foi escrito para o nosso ensino (Rm 15.4).
- Sexto, leia-os, pois, com a reverência com que o faria se Deus estivesse em pessoa a seu lado e tivesse dito a você essas palavras para incentivá-lo à prática dessas virtudes e para dissuadi-lo dos erros e males mencionados. O objetivo é, então, certificá-lo de que, se pecados sobre os quais você leu se acharem em seu ser e em sua vida, sem arrependimento, pragas, e pestes semelhantes cairão sobre você. No entanto, se você pratica ou praticar a piedade e as ações virtuosas referidas, bênçãos semelhantes às mencionadas virão sobre você e sobre os seus entes queridos.
Numa palavra, aplique tudo o que você leu nas Escrituras Sagradas com um destes dois objetivos principais: confirmar a sua fé ou aumentar o seu arrependimento. Isso porque, assim como sustine et abstine, sustente e abstenha-se, eram o epítome da vida de um bom filósofo, assim também crede et resipisce, creia e arrependa-se, é a soma total de toda uma verdadeira profissão de fé cristã. Um capítulo lido dessa forma, com entendimento, com meditação e com aplicação, alimentará e confortará a sua alma muito mais do que cinco capítulos lidos às pressas, sem notar o seu escopo ou o seu sentido, ou do que fazer uso deles apenas para a sua vantagem pessoal.
No entanto, pode ser que você diga que as suas atividades profissionais não lhe permitem usar tanto tempo para ler um capítulo por dia, e assim por diante. Ó homem, lembre-se de que a sua vida é curta e de que todas essas atividades só servem para uso nesta curta vida; todavia, a salvação ou a condenação é eterna! Levante-se, pois, todas as manhãs o mais cedo que puder: frustre a sua preguiçosa carne de um sono exagerado, mas não prive a sua alma do seu alimento, nem Deus do serviço que você deve lhe prestar. E sirva devidamente o Todo-poderoso enquanto você tiver tempo e saúde.
Tendo assim lido o seu capítulo, quando você estiver prestes a orar, lembre-se de que Deus é um Deus de santidade (Êx 28.36). Sobre isso ele nos adverte, repetindo várias vezes: “… sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44; 19.2; 20.7). E quando ele devorou com um súbito fogo Nadabe e Abiú por lhe oferecerem incenso com fogo estranho (Lv 10.2) – como hoje em dia há os que oferecem orações provindas de corações inflamados pelo fogo da luxúria e da maldade – nenhuma outra razão é dada para justificar o seu juízo, senão esta: “Aos que de mim se aproximam santo me mostrarei” (Lv 10.3). É como se ele dissesse: “Se eu não puder ser santificado por aqueles que são meus servos, servindo-me com a santidade com a qual devem me servir, serei santificado neles confundindo-os com os meus justos juízos, que a sua libertinagem merece”. Deus não pode tolerar nenhuma impureza ou pecado voluntário naqueles que o servem: “Pois o Senhor, o seu Deus, anda pelo seu acampamento para protegê-los e entregar-lhes os seus inimigos. O acampamento terá que ser santo…” (Dt 23.13,14).
No livro de Jó, Zofar diz: “Se tu preparares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele; se há iniquidade na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas” (Jó 11.13,14 ACR). Pois, disse Isaías: “Se houver iniquidade em nossas mãos” – isto é, algum pecado do qual não temos nos arrependido – “embora estendamos as nossas mãos para ele e façamos muitas orações, o Senhor esconderá de nós os seus olhos e não ouvirá as nossas orações” (Is 1.15)
Portanto, antes de você orar, aja de maneira que Deus veja que o seu coração está triste por seu pecado, e que a sua mente, mediante a assistência da sua graça, está resolvida a corrigir as suas faltas. E depois, tendo se purificado, e tendo adornado o seu corpo com vestes que se coadunem com a sua vocação e com a imagem de Deus, imagem que você leva em seu ser, feche a porta do seu quarto. Ali recolhido, ajoelhe-se ao lado da sua cama, ou em algum outro lugar conveniente. Então, com atitude reverente, eleve o seu coração, junto com as suas mãos e os seus olhos, procurando se sentir na presença de Deus, que vê a intenção interior da alma, e ofereça a Deus, do altar de um coração contrito, a sua oração. Ofereça-a como um sacrifício matinal, pela mediação de Cristo.

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Bibliografia.
BAYLY, Lewis, A prática da piedade: diretrizes para o cristão andar de modo que possa agradar a Deus. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2017, p. 141-144.
Atualizado em 01/01/2022.
O autor.
Nascido em Caermarthen e educado em Oxford, onde obteve o grau de bacharel em teologia (B.D.) em 1611 e seu doutorado em teologia em 1613, Lewis Bayly foi consagrado ao ministério em Evesham, Worcestershire, Inglaterra, em 1611.
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