O ESPÍRITO SANTO COMO GUIA DAS ESCRITURAS.

INTRODUÇÃO.

Vivemos em uma época em que estudar a Bíblia é algo visto como desnecessário. A palavra “doutrina” virou sinônimo de frieza espiritual. Infelizmente a irracionalidade moderna tem influenciado os cristãos, e muitos se tornaram “cabeças vazias” em nome de uma suposta espiritualidade que privilegia o sentimentalismo em detrimento da racionalidade. Partindo dessa perspectiva, o cristão verdadeiro é aquele que tem mais “experiências” e que “sente” mais, ao passo que aquele cristão que “sabe” mais e busca conhecimento recebe a alcunha de “cristão frio”.

Essa perspectiva não se sustenta por si só quando é posta em comparação ao que a Bíblia nos diz. Deus se nos revelou através das Escrituras, e se queremos conhecê-lo não temos outro caminho. É por meio da leitura e estudo da Bíblia que conhecemos a Deus, seu filho Jesus Cristo e o plano que ele tem para a história humana. Os cristãos que negligenciam isso são pessoas subjetivas e sem fundamentos, levadas por “ventos de doutrina”, ou seja, por ensinos que se vão e desaparecem por não terem base ou fundamento que os prendam ao chão.

É sempre bom lembrarmos que a espiritualidade verdadeira depende do quanto nós compreendemos quem Deus é, quem nós somos e qual o plano de Deus para a raça humana, e só podemos ter essa compreensão de forma adequada à medida que lemos e estudamos a Escritura, pois não há nenhum outro meio pelo qual podemos conhecer essas coisas.

Felizmente não estamos sozinhos na empreitada do estudo bíblico-teológico. Contamos com um guia que jamais falha. Nosso guia é o Espírito Santo. Somos inteiramente dependentes dele para a correta compreensão de quem Deus é, quem nós somos e qual o plano de Deus para a história. A correta compreensão destas coisas define a verdadeira espiritualidade.

Dentre as diversas funções que o Espírito Santo viria para desempenhar uma delas é a função de guiar o servo de Cristo à verdade a seu respeito. Ou seja, o Espírito levará o servo ao seu Senhor. Vamos analisar algumas passagens a fim de descobrir o que elas nos têm a dizer sobre a função do Espírito Santo como guia das Escrituras.

I. O Consolador.

O Senhor Jesus nos informou sobre a vinda do Espírito Santo e suas funções em Jo 14.15-31; Jo 15.26 e Jo16.13. Nestes textos o Espírito Santo é chamado de Consolador. A palavra grega é παράκλητος (parákletos) e significa ajudador, intercessor e advogado.[1] A tradução em português não reflete bem a ideia do termo grego para nossa língua, pois, para nós, um consolador é alguém que tem como função animar uma pessoa que está desanimado, desconsolada. Não estamos com isso querendo dizer que o Espírito Santo não anime uma pessoa que está triste. O que queremos dizer é que a tradução “consolador” não reflete o sentido semântico do termo. Poderíamos traduzir o vocábulo παράκλητος como treinador.

II. A iluminação do Espírito Santo.

Não poderíamos falar sobre o guiar do Espírito Santo às Sagradas Escrituras sem falar sobre a iluminação dele na consciência do cristão. Quando dizemos que o Espírito Santo ilumina o cristão significa que ele traz maior entendimento cognitivo (entendimento mental) do texto bíblico.[2] Não significa que ele trará novas revelações ou entendimentos, mas que ele nos capacitará a entender e compreender o texto bíblico (Jo 14.26, 16.13). As palavras de Grant Osborne nos ajudam a entender isso (2006 apud PLUMMER, 2017, P. 207, 208):

O Espírito Santo não cochicha para nós razões especiais que, de outra maneira, não estariam disponíveis; em vez disso, ele abre nossos olhos para reconhecermos essas razões que estão disponíveis. Em outras palavras, o Espírito torna possível que o leitor use cada faculdade para discernir a Palavra a aplica-la. […] O Espírito nos capacita a liberarmos nossa mente para o texto, mas não sussurra para nós a resposta certa.[3]

O Espírito Santo nos capacita a entendermos o texto bíblico. Esta capacitação é necessária porque nossa mente, vontade e coração estão unidos em interdependência pecaminosa. O coração humano é propenso a todo tipo distorção, ilusão e autoengano (Jr 17.9). Quem não se submete a Deus logo distorcerá o ensino bíblico.[4] Robert Plummer apresenta alguns textos bíblicos que apoiam a doutrina da iluminação. Sãos eles:

  • Sl 119.17-20: Sê generoso para com o teu servo, para que eu viva e observe a tua palavra. Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei. Sou peregrino na terra; não escondas de mim os teus mandamentos. Consumida está a minha alma por desejar, incessantemente, os teus juízos.
  • Mt 13.11-16: Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido. Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso, lhes falo por parábolas; porque, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías: Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados. Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque veem; e os vossos ouvidos, porque ouvem.
  • 1Co 2.14: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
  • 2Co 3.13-16: E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado.
  • Lc 24.44-45: A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras.[5]

A iluminação traz implicações práticas no que tange à leitura e estudo da Escritura. O cristão consciente da obra de iluminação tem que mostrar devido zelo enquanto estuda, lê, pesquisa e medita a Escritura. Ele deve, também, prostrar-se diante do autor divino para confessar seus pecados e buscar ajuda sobrenatural. Lembre-se disso: o estudo da Bíblia deve começar com oração e adoração.[6]

“O estudo da Bíblia deve começar com oração e adoração”

III. O Espírito como guia.

Nesta seção analisaremos as passagens ditas por Jesus sobre a função do Espírito Santo como guia. As passagens são os capítulos de João 14-16. O escritor Millard J. Erickson resume os três capítulos supracitados da seguinte maneira: “Vamos sintetizar o papel do Espírito conforme descrito em João 14-16. Ele conduz à verdade, trazendo à lembrança as palavras de Jesus, não falando por si próprio, mas falando o que ouviu, trazendo arrependimento, testemunhando de Cristo”.[7]

1. O texto de Jo 14.26.

Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito (Jo 14.26)

O Senhor Jesus disse que um dos papéis do Espírito Santo seria ensinar seus discípulos todas as coisas. O sentido é que o Espírito Santo lhes ensinaria todas as coisas que precisariam saber para cumprirem sua missão. Além de ensinar, o Espírito Santo os faria lembrar de tudo o que Jesus lhes havia dito. O Espírito Santo cumpre a função de mestre. Sinclair Ferguson diz que esta função do Espírito “tem uma especial significação histórico-redentiva para os discípulos, visto que o ministério docente do Espírito para eles se relaciona com a doação da Escritura (Jo 14.26, 16.13)”.[8]

O motivo pelo qual ensinar e fazer lembrar são duas das funções do Espírito Santo é que os discípulos não compreenderam tudo o que Jesus lhes havia dito. Prova disso são os textos de Jo 2.22 e 12.16. É compreensível que os discípulos não entenderam tudo de início, e essa realidade prova a necessidade do Espírito Santo. O Espírito Santo lhes ensinou e os fez lembrar do que Jesus disse e o significado de suas palavras. Com base na compreensão dada pelo Espírito Santo, os discípulos escreveram suas cartas e os Evangelhos. Em nossos dias, o Espírito Santo nos ensina através da leitura da Palavra de Deus, nos fazendo lembrar dos mandamentos de nosso Senhor, tocando em nossa consciência (At 8.10; Rm 2.15).

2. O texto de Jo 15.26.

Quando, porém, vier o Espírito Santo que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim (Jo 15.26).

Um ponto que podemos perceber neste texto bíblico e no texto anterior é que tanto o Pai quanto o Filho são responsáveis pele envio do Espírito Santo; ambos cooperam para isso. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Jo 15.26). Como está pessoalmente relacionado ao Pai e ao Filho desde a eternidade ele, portanto, procede eternamente do Pai e do Filho e, de boa vontade e livremente, atua com vistas a cumprir a obra que lhe cabe.[9] Somente Deus é quem nos dá o Espírito Santo, não há outro meio pelo qual o recebemos (Lc 11.13; Jo 3.34; 1Jo 3.24). Tal “dádiva” é um ato de autoridade e de liberdade que procede das riquezas da graça de Deus (Lc 11.13; Jo 4.10, 14.17; 1Co 4.7; Tt 3.6; 1Co 12.7). Deus o envia para nós (Sl 104.3; Jo 14.26, 15.26, 16.7). Este “enviar” significa que o Espírito Santo não estava com a pessoa antes de ser enviado a ela, e nos diz que é uma obra especial de Deus a qual ele não havia feito antes.[10]

Neste texto joanino, o Espírito Santo é chamado de “o Espírito da verdade” (cf. Jo 14.17, 15.26, 16.13; 1Jo 5.6). Esta é uma característica marcante do Espírito Santo. Ele é chamado de “o Espírito da verdade” porque ele é a verdade e nos guia em toda a verdade (1Co 2.13; 2Pe 1.21).[11] O tema do Espírito é Cristo, a Verdade (Jo 14.6).[12] Guiar em toda a verdade significar nos levar à Cristo por meio das Escrituras.

A principal função do Espírito Santo descrita nesse texto é que ele “dará testemunho” a respeito de Cristo. A Bíblia de Estudo de Genebra traz o seguinte comentário sobre esse trecho de Jo 15.26: “Uma vez que a obra de Cristo é a base de todo o evangelho, o Espírito focaliza o seu testemunho em Cristo”. É interessante notar que essa função do Espírito fora predita aos discípulos em um contexto de perseguição (cf. Jo 15.18-26). O Espírito Santo capacitaria os discípulos perseguidos a darem testemunho com ousadia (cf. Mt 10.16-23; Mc 13.9-13). Um exemplo do cumprimento dessa promessa pode ser constatado em At 5.32. O Espírito Santo convencia o coração dos ímpios quando os apóstolos pregavam a mensagem do Evangelho – mensagem esta que é Cristo crucificado pelos nossos pecados e que ressuscitou para nos dar vida com ele (Gl 1.3-5). É de fundamental importância salientar que o Espírito Santo ainda age por meio da pregação, pois “a fé vem pela pregação […]” (Rm 10.17)

3. O texto de Jo 16.13.

Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir (Jo 16.13)

Neste texto o Senhor Jesus declara que o Espírito Santo além de ser o “Espírito da verdade”, ele também guiará os discípulos a toda verdade.

O Catecismo Maior de Westminster diz o seguinte na resposta da pergunta 4: “O Espírito de Deus, porém, ao testemunhar, pelas Escrituras e juntamente com elas no coração do homem, é o único capaz de persuadi-lo completamente de que elas são realmente a Palavra de Deus”.[13] A Confissão de Fé de Westminster diz algo semelhante: “[…] Contudo, a nossa plena persuasão e a certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provêm da operação interior do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica ao nosso coração”.[14]

Podemos perceber que tanto o Catecismo quanto a Confissão de Fé reafirmam o ensino bíblico que o Espírito Santo atua através da Palavra e na Palavra. O fato de nosso guia ser o Espírito Santo nos traz segurança e tranquilidade, pois ele jamais se enganará ou falhará conosco enquanto nos guiar.

“Espírito Santo atua através da Palavra e na Palavra”

Em Jo 16.13 nos é dito que o Espírito Santo nos “guiará a toda verdade”. A verdade para qual seremos guiados não se refere a todos os ramos do saber; não se trata da verdade que o mundo conhece. Essa verdade diz respeito àquelas coisas que chamamos de espirituais (1Co 2.10).[15] O Espírito santo falará das coisas divinas e não humanas – Jesus disse que o Espírito Santo testemunharia a seu respeito (Jo 15.26).

A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada pelo Espírito Santo (2Pe 1.20,21). Ela deve ser recebida porque é a Palavra de Deus (1Ts 2.13). Ela é a fonte de toda verdade. Sobre isso, vejamos o que diz Jo 17.17: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”. Ora, sendo a Palavra de Deus a verdade, então, como já dissemos, é na Palavra e pela Palavra que o Espírito Santo nos guiará. Não há outro meio ou caminho pelo qual o Espírito nos levará à verdade. Por isso a importância da leitura regular e consistente da Escritura. Através da leitura bíblica – e da oração – que o Espírito testifica em nosso coração a verdade espiritual e a aplica em nós (Rm 8.9,14). No livro Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristão, o autor J. I. Packer cita a seguinte frase do puritano Richard Baxter: “Antes e depois de você ter lido a Bíblia, ore fervorosamente a fim de que o Espírito, que a escreveu, explique-a a você e o guie à verdade”.[16]


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BIBLIOGRAFIA.

A Confissão de Fé de Westminster. 17ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

ERICKSON, Millard J., Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.

GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento: grego, português. São Paulo: Vida Nova, 2012.

FERGUSON, Sinclair B., O Espírito Santo. 2ª ed. Recife, PE: Os Puritanos, 2014.

O Catecismo Maior de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.

OWEN, John, O Espírito Santo. 2ª ed. Recife, PE: Os Puritanos, 2014.

PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everet F. (eds.) Comentário bíblico Moody. Vol. 4. São Paulo: Batista Regular, 1990.

PLUMMER, Robert L., 40 questões para se interpretar a Bíblia. São José dos Campos, SP: Fiel, 2017.

RADMACHER, Earl D.; ALLEN, Ronald B.; HOUSE, H. Wayne. (eds.) O novo comentário da Bíblia NT, com recursos adicionais – a Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2015.


Notas

[1] Gingrish, Danker, 2012, p.156.

[2] Plummer, 2017, p. 207. Neste livro, o autor dedica um capítulo para falar do papel do Espírito Santo em determinar o significado do texto.

[3] Osborne, 2006 apud PLUMMER, 2017, P. 207, 208.

[4] Plummer, op. cit., p. 209.

[5] Plummer, 2017, p. 213, 214.

[6] Plummer, op. cit., p. 215.

[7] Erickson, 1997, p. 92. Na página referenciada o autor faz uma análise interessante sobre João 14-16.

[8] Ferguson, 2014, p. 248.

[9] Owen, 2014, p. 20.

[10] Owen, op. cit., p. 19.

[11] Radmacher, Allen, House (eds.), 2010, p. 267.

[12] Pfeiffer, Harrison (eds.), 1990, p. 216.

[13] CM 4.

[14] CFW I.5. Veja também CB 5

[15] Pfeiffer, Harrison (eds.), 1990, p. 222.

[16] Packer, 2016, p. 162.


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