Introdução.
Um dos mandamentos mais conhecidos da Bíblia é o de amar a Deus com todo seu ser e amar ao próximo como a si mesmo. Cristãos de todos os tempos e épocas têm procurado cumprir este mandamento a fim de agradar a Deus. Entretanto, achamos que seja necessário uma explicação a respeito desse mandamento, haja visto que ele nem sempre tem sido bem compreendido e explicado.
Boa parte da culpa dessa falta de compreensão está ligada à nossa bagagem cultural. Somos fortemente influenciados pela cultura greco-romana, e isso tem exercido um impacto muito grande na forma como temos entendido e tentado viver e cumprir esse mandamento. Na cultura greco-romana, o amor é algo quase tangível, um sentimento que arrebata a pessoa. A sensualidade nessa cultura era algo explícito na sociedade. A mente pagã entendia o amor como sendo um sentimento. Esse tipo de entendimento é diferente daquele que os judeus possuíam a respeito do que é o amor.
A mentalidade judaica em relação ao amor é totalmente diferente daquela vista na cultura greco-romana. Na cultura judaica, o amor é uma atitude. Mais do que um mero sentimento, para os judeus o amor é algo prático, que se vive de verdade. Quando entendermos isso poderemos cumprir melhor o mandamento do amor. Neste estudo nosso alvo é mostrar como esse mandamento funciona como sendo uma prática, e não um mero sentimento.
1. Panorama da passagem.
O capítulo 22 é interessante devido ao fato de registrar uma série de questionamentos feitos pelos membros das seitas judaicas a Jesus. Em Mt 22.15-22, os fariseus enviaram alguns discípulos seus juntamente com os herodianos, a fim de testar o Senhor Jesus por meio de perguntas com o propósito de constrangê-lo. Os herodianos e os fariseus não se davam. Os herodianos formavam um partido político que favoreciam a dinastia herodiana, pois foram os herodianos os responsáveis pela construção do segundo Templo, o chamado Templo de Herodes. Boyer (Vida, 1999) nos informa que eles “favoreciam um império judaico independente, governado por Herodes, sob o governo romano”1
Os fariseus eram o extremo oposto dos herodianos, pois eles desejavam a libertação de Israel do domínio romano. No entanto, o ódio que esses dois grupos nutriam contra Jesus os uniu. Foi neste episódio que o Senhor Jesus disse a famosa frase: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21). Em Mt 22.23-33 Jesus é interrogado pelos saduceus.2 Esse grupo levantou a questão do levirato (do latim levir, cunhado) registrada em Dt 25.5,6. De acordo com o texto de Gn 38.1-26, nos parece que isto fazia parte da cultura do antigo Oriente. Morrer sem deixar descendência era algo terrível, pois a memória de uma pessoa era preservada por meio de seus descendentes.3 Foi nesta ocasião que Jesus disse a frase: “[…] Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22.29).
Em Mt 22.34-40 temos o último questionamento feito a Jesus registrado nesse capítulo. Os fariseus atacam novamente. Um dos fariseus, que era intérprete da lei,4 perguntou a Cristo qual era o grande mandamento da Lei. A esta pergunta Jesus respondeu: “[…] ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento’. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22. 37-40). O Senhor Jesus se baseou em Lv 19.18 e Dt 6.4 para compor a resposta.
2. Amar a Deus e ao próximo.
Amar a Deus e ao próximo é o maior mandamento que Cristo Jesus nos deixou (Jo 15.12) e o cumprimento dele mostra o verdadeiro discípulo (Jo 13.35). É isto que a Lei de Deus exige de nós, que amemos ao nosso Deus e como resultado amemos ao nosso próximo.
A Bíblia toda é a Lei de Deus. No entanto, essa Lei se encontra resumida nos Dez Mandamentos registrados em Êx 20 e repetida sumariamente em Dt 5. Os primeiros quatro mandamentos tratam da nossa relação para com Deus; os últimos seis tratam da nossa comunhão para com o próximo.5 O nosso “próximo” é toda e qualquer pessoa que Deus coloca em nosso caminho: pais, irmãos, amigos, esposa, filhos etc.
Em 1Jo 4.16, o apóstolo João, cognominado “o apóstolo do amor”, nos diz que “Deus é amor”. Como Deus é amor, ele exige que nós mostremos amor para com ele (Dt 6.6; Mt 22.37). Quem não ama Deus não é capaz de cumprir nenhum mandamento de sua Lei. Da mesma forma, quem não ama seu próximo não pode amar a Deus. É isso que o Senhor Jesus quis dizer quando afirmou que um mandamento é semelhante ao outro (Mt 22.38). Estritamente falando, não são dois mandamentos, mas uma única ordenança que Cristo compilou e a deu aos seus servos de todos os tempos e épocas. O texto de 1Jo 4.20 diz que ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, e não amar ao próximo, a quem vê.
É importante esclarecer um ponto aqui. O amor bíblico não se trata de um sentimento. Por causa da forte influência da cultura greco-romana pensamos no amor com um sentimento, algo que nos invade e nos leva a desejos. Ao contrário disso, o amor bíblico é uma atitude que eu tomo para com o meu próximo. Essa ideia se torna mais evidente e concreta quando entendemos que, por exemplo, devemos amar ao próximo como a nós mesmos. Ou seja, assim como eu me amo e tomo atitudes boas e construtivas para comigo mesmo, do mesmo modo devo agir em relação ao meu próximo. O que faço de bom para mim, devo fazer ao meu semelhante.
Paulo em Rm 13.8-10 nos oferece um exemplo prático de como o amor bíblico funciona. Veja o que ele diz no versículo 10: “O amor não pratica o mal contra o próximo […]”.6 Note que ele apresenta o amor como prática . Isso fica claro nos versículos anteriores. No final do versículo 8 Paulo diz algo que nos chama a atenção e que é importante para compreender o versículo seguinte: “[…] pois quem ama o próximo tem cumprido a lei”.
De que maneira posso cumprir a Lei de Deus amando meu próximo? Paulo propõe responder essa pergunta no versículo 9 usando exemplos práticos. Note o que ele diz: “Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ou seja, de acordo com os termos de Paulo, se você amar seu irmão você não quererá a mulher dele – não adulterarás; se você amar seu irmão, você respeitará a vida dele – não matarás; se você amar seu irmão, você não tomará o que lhe pertence – não furtarás; se você amar seu irmão, você não quererá nada que lhe pertence – não cobiçarás. E tendo dito isso, Paulo conclui seu raciocínio com a frase que fecha o versículo 9: “[…] e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Para ser concludente, quero encerrar fazendo menção de Ef 1.15. Neste texto o apóstolo Paulo diz duas características de um verdadeiro cristão: a fé “no Senhor Jesus e o amor para com todos os santos” (Ef 1.15). Uma coisa precede a outra. Um cristão é por definição alguém que crê em Jesus Cristo, e o resultado prático disso é que ele ama os seus irmãos. Quando Paulo soube que os crentes de Éfeso apresentavam essas duas características – fé em Cristo e amor ao próximo – ele começou a orar por eles. Portanto, com base nessa passagem podemos concluir que se uma pessoa não demonstra amor ao próximo é porque ela não tem fé em Cristo Jesus. Como vimos, amor ao próximo e fé em Cristo são coisas interligadas, e a ausência de uma demonstra a ausência da outra. Oremos a Deus para que ele nos conceda as duas coisas.
BIBLIOGRAFIA.
BOYER, Orlando (1999) Pequena enciclopédia da Bíblia. 7a. ed. São Paulo:Vida.
RADMACHER, Earl D; ALLEN, Ronald B; HOUSE, H. Wayne. (eds.) (2010) O novo comentário bíblico AT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel.
_______ (eds.) (2010) O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Central Gospel.
WILLIAMS, Derek (ed.) (2000) Dicionário bíblico vida nova. São Paulo: Vida Nova.
Notas
1Cf. Boyer, 1999, p. 310.
2 Os saduceus faziam parte de uma pequena seita de sacerdotes ricos e influentes, que antes do nascimento de Cristo ganhou o domínio sobre o sacerdócio. Muitos saduceus eram sacerdotes, e quase todos os sacerdotes parecem ter sido saduceus. Em linhas gerais, os saduceus não eram propriamente uma seita, nem um partido político e nem uma escola de filosofia, mas tinham características de todas as três. Eram racionalistas e mundanos, com muito pouco interesse na religião. A religião deles era conservadora. Aceitavam a validade permanente apenas dos escritos do Pentateuco. Rejeitavam as doutrinas da ressurreição (At 23.8), dos anjos e demônios, e acreditavam que a prosperidade e a adversidade eram unicamente decorrência do curso de ação do indivíduo (Boyer, 1999, p.557 Williams(ed.), 2000, p. 328; Radmacher, Allen, House (eds.), 2010, p.66.
3Cf. Boyer, 1999, p. 381; Radmacher, Allen, House (eds.), 2010, p. 94, 345,346.
4Os intérpretes da Lei e os escribas eram um e o mesmo grupo. Os escribas eram copistas (daí o nome escribas, que em latim significa escritores) que produziam cópias manuscritas do Pentateuco. De tanto fazerem cópias do Antigo Testamento eles se tornaram peritos no texto bíblico, por isso o nome intérprete da Lei ou doutor da Lei.
5Você pode estudar os Dez Mandamentos de maneira bem proveitosa usando o Catecismo Maior de Westminster, perguntas 98 a 152. Confira também o Catecismo de Heidelberg, perguntas 92 a 115.
6A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) (SBB, 2000), traduz este trecho do versículo 10 da seguinte maneira: “Quem ama os outros não faz mal a eles”.
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